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sábado, 12 de março de 2011

[Soteriologia] A ÚNICA PORTA

EU SOU A PORTA. SE ALGUÉM ENTRAR POR MIM, SERÁ SALVO; ENTRARÁ, E SAIRÁ, E ACHARÁ PASTAGEM (JOÃO 10:9)

A palavra de Deus nos diz que, em meio a grande multidão de seres humanos, existe um povo especial – um povo escolhido por Deus da raça comum antes que as estrelas começassem a brilhar; um povo caro ao coração de Deus antes da fundação do mundo; um povo que foi redimido pelo precioso pelo sangue de Jesus além e acima da humanidade; um povo que é a propriedade de Cristo, o rebanho do seu pasto, as ovelhas que comem da sua mão; um povo de quem a Providência cuida, abrindo um caminho para eles em meio ao emaranhado confuso da vida; um povo que no fim será trazido, um por um, sem mácula diante do trono eterno e preparado para o destino excelso que Deus vai revelar no futuro. Em toda a escritura você lê sobre este povo peculiar e especial. Às vezes ele é chamado de “semente”, outras vezes de “jardim”, “tesouro” e “rebanho”, como no capítulo que lemos. O nome comum no novo testamento para ele é “igreja”, “A igreja de Deus, a qual Ele comprou com seu próprio sangue”. “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem da água pela palavra”.

A grande questão é: como conseguir ser admitido nessa igreja? Onde encontrar essa comunidade? Quem são seus membros? Qual é o caminho para tornar-se participante dos privilégios que ela tem? Jesus Cristo nos diz duas coisas aqui: como entrar na igreja – o caminho é através Dele, que é a porta. Segundo, que benefícios recebemos por sermos membros da igreja de Cristo – seremos salvos, entraremos e sairemos e encontraremos pastagem.

I. Como alguém pode tornar membro desta igreja que é eleita? Redimida e será salva? A afirmação de Jesus dá uma resposta simples e curta a esta pergunta.

Cristo nos diz que a única maneira de entrar na igreja é através dele mesmo. Ele é a porta, a única porta. Não há nenhum outro modo de admissão em sua igreja a não ser por ele. Que fique entendido, então, de uma vez por todas, que não podemos entrar na igreja de Cristo pelo batismo. Há dezenas de milhares, na verdade milhões que foram batizados depois de uma programação especial, isto é, que foram aspergidos ou imergidos, sem nunca terem sido admitidos na igreja de Cristo. Por causa da ordenança que lhes foram ministradas, com seu consentimento ou muitas vezes sem ele, algumas pessoas os reconhecem como cristãos. Mas deixe-me dizer-lhes que, se não vieram a Cristo por uma fé genuína, eles não são melhores que pagãos batizados; ainda são pagãos aspergidos. Você pode manter alguém debaixo de um chuveiro para sempre sem com isso fazê-lo “membro de Cristo”; você pode arrastá-lo para o fundo do oceano Atlântico e, se sobreviver a imersão, ele ainda não será um “til” melhor. A porta não é o batismo, mas Cristo. Se você Crê em Cristo, você é membro da sua igreja. Se você colocou sua confiança sobre Cristo que é o grande meio de salvação de Deus, então você tem evidências de que foi escolhido por Ele antes da fundação do mundo, e esta sua fé o habilita para todos os privilégios que Deus prometeu aos crentes em sua palavra.

Se Cristo é a porta, conclui-se que ninguém entra na igreja por meio de nascença. A associação dos amigos tem sido uma das comunidades, mais frutíferas no mundo, e conservou um bom testemunho nas questões mais importantes por muitos anos, mas me parece que o grande mal que há nela, que lhe causou muitos danos, é a admissão de membros por direito de nascimento. Não recebem eles em sua comunhão os filhos dos seus membros, como se fossem elas pessoas certas para serem recebidas na igreja visível? Meus irmãos, é um grande privilégio ter os pais cristãos. Isso pode ser uma grande vantagem, se você fizer uso correto dela. Há nisso uma grande responsabilidade e, se você fizer mau uso dela, em vez de ser uma bênção para você pode ser uma maldição temível. Você pode ser um elo de uma grande linhagem de santos; “se você não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. O exemplo mais consagrado, a formação mais espiritual não pode garantir a conversão e, sem conversão, você pode apostar nisso, você não pode ser de Cristo. “Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus”. Por não praticarmos o batismo de crianças, não caímos tão facilmente neste erro como outras denominações, mas é necessário dizer também aqui que você não tem direito aos privilégios do evangelho devido aos seus pais e mães. Vocês mesmos precisam ter nascido de novo. Vocês não tem direito à aliança da graça, nem as bênçãos das promessas, se não vier à Cristo por sua fé pessoal e individual. Nem seu pai ou sua mãe podem ser a porta para a igreja de Cristo, só o próprio Cristo. Ele disse: “Eu sou a porta”. Se você tem Cristo, você está em sua igreja. Se você se prender à Cristo, você será membro dessa comunidade, dos seus eleitos e redimidos. Nunca por batismo ou por direito de nascença.

Além disso, como Cristo é a porta, é evidente que ninguém se torna membro da igreja de Cristo simplesmente dizendo que é. Ele pode acabar se revelando um hipócrita detestável, mas não pode se revelar um cristão genuíno por mera confissão de fé. Ninguém fica rico neste mundo esbanjando dinheiro ou dizendo que é abastado. É preciso guardar bem as escrituras das propriedades e guardar o dinheiro num cofre, senão todo o faz de conta não esconde a pobreza. Você não pode tornar-se cristão vindo à frente e pedindo para ser admitido na igreja, declarando que crê e jurando que se arrepende. Não, você precisa se arrepender de verdade, ou não terá parte nem porção nesta questão. Simplesmente dizer: “Sim, sim estou disposto a afirmar isto, concordo em dizer aquilo” faz de você um cristão quanto dizer que um algodão é seda transforma o algodão nisso, ou fazer ouro de lama mudando o nome desta. Tome cuidado com afirmações falsas porque elas trazem duas conseqüências perigosas. A pessoa que não está debaixo da graça está em perigo, mas aquela que afirma tê-la quando não a tem está duplamente em perigo, porque é menos provável que seja despertado, e está fazendo de sua conversão um travesseiro para sua cabeça perversa e adormecida, no qual ele descerá dormindo para o inferno.

Depois, e talvez isto chegue mais ainda ao ponto, ninguém se torna parte do povo do Senhor ou uma das ovelhas de Cristo por ser admitido em uma igreja visível. Não deve tentar entrar em uma igreja visível quem não faz parte da igreja verdadeira. Ele não tem o direito de juntar-se à organização externa se não se agregou primeiro à organização secreta, através de uma fé viva em cristo. Quem dá a volta pela porta e pula o muro, entrando na igreja exterior sem ser crente em Cristo, longe de ser salvo, Cristo vai dizer-lhe: “Você é ladrão e salteador, porque você subiu por outro lugar, sem passar pela porta”. Eu creio que agimos corretamente ao submetermos a admissão de membros à voz de toda a igreja; creio que agimos certo ao examinarmos os candidatos, para ver se é possível crer em sua profissão de fé e se sabem o que estão fazendo. Porém nossa avaliação – ela não é mais profunda que a pele. Não podemos sondar o coração, e o melhor juízo de muitos homens cristãos, por mais honestos e merecedores de grande respeito que sejam, é uma base muito pobre para alguém se apoiar. Se você não tem Cristo, seus certificados da igreja são papéis para o lixo e sua associação com quaisquer pessoas, por mais puras e apostólicas que possam ser, é só um nome pelo qual viver enquanto você está morto, porque a única maneira de entrar na igreja real, vital, viva de Cristo é voltando-se para Cristo que, ele mesmo, é a porta.

O português claro desta metáfora, então, diz exatamente isto: para ser do povo de Deus, o essencial é a dependência simples de Jesus Cristo. Se você não tem isto – não importa quem o batiza, ou lhe dá o pão e o vinho consagrado, ou quem emociona você com uma esperança de salvação pela qual não há garantia – você morrerá em seus pecados, apesar de todos os seus sacramentos, se não vier a Cristo. Nenhum outro meio de admissão no céu pode ser posto além da simples dependência daquele que derramou seu sangue e morreu na cruz do Calvário. A pregação de qualquer outro sistema é mero engano contra o qual fomos advertidos, ou é uma armadilha para apanhar os desatentos.

Preste atenção: a fé simples, quando genuína, deixa claro que você entra por Cristo que é a porta, porque uma fé assim leva á obediência. Como você pode imaginar que você é membro de sua igreja se você não é obediente à Cristo? É necessário que quem confie em Cristo se torne servo de Cristo. A fé real nunca tropeça nisso. Cristo disse: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos”. Se não guardamos os mandamentos de Cristo a partir do princípio do nosso amor por Ele, nossa religião é inútil. “Sem santificação ninguém verá o Senhor”. Podemos falar o quanto quisermos sobre experiências e convicções exteriores, porém “Pelos seus frutos os conhecereis”. O Espírito de Deus é o espírito da santidade, quando Cristo entra na alma, toda iniqüidade precisa ser expurgada dela. Você sabe como Malaquias descreve a sua vinda. Ele nos anuncia a promessa de que o Senhor a quem buscamos virá ao seu templo de repente: quem procura, acha. O que ele acrescenta? “Mas quem poderá suportar o dia da sua vinda? Porque ele é como o fogo do ourives e como a potassa dos lavandeiros”. O fogo do ourives queima as escórias e o sabão do lavandeiro tira as manchas; da mesma forma, se Cristo está em você, você passará por um refinamento que queimará, seu pecado interior, e você será submetido a uma lavagem com o sabão mais forte, para limpá-lo de todas as suas iniqüidades. “Não vos enganeis, de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear isso também ceifará”. Se vivermos de acordo com a carne iremos morrer; se, pela graça de Cristo, vivemos Nele, confiando Nele e servido à Ele – sendo que o serviço é a evidência da confiança, e a confiança a evidência da eleição – então você entrou na igreja pela porta, e você está bem.

Bem, se Cristo é a porta, e se nós entramos nesta igreja por esta porta, não importa muito para nós o que aquele senhor idoso em Roma pensa de nós. Ele pode querer nos excomungar. Isto ele gosta de fazer. Ele é bom em maldizer; o que importa? Se sou nova criatura em Cristo Jesus, não dou a mínima para as afrontas do Papa. Além disso, há muitos difamadores hoje em dia que estão dizendo: “Os não conformistas não passam de um bando de heréticos. Nós temos a sucessão apostólica, os sacramentos e os sacerdotes”. Ora, eles se gabam de serem “católicos”, apesar de sua alegação ser desautorizada tanto pela babilônia aqui de baixo como pela Jerusalém lá de cima. Que se vangloriem. Enquanto temos a Cristo, eles que fiquem com sua sucessão apostólica e todos os outros lixos. Ele é a porta, e, se entramos por Ele, está tudo muito bem.

Eu gosto da história dos moradores das ilhas Sandwich que tinham sido convertidos por intermédio de um dos nossos missionários e já estavam ouvindo o evangelho há anos. Um dia, dois ou três senhores com longos talares pretos desembarcaram ali, e o povo perguntou porque tinham vindo. Eles responderam:

-- Viemos instruí-los na fé verdadeira e ensiná-los.

-- Bem – disseram aqueles, -- se o seu é verdadeiro e de acordo com as escrituras iremos ouvi-los.

Assim de passagem foi mostrado um pequeno diagrama aos nativos semelhante a uma árvore com muitos galhos.

Os ramos mais distantes eram os vários santos, os crentes os que fazem boas obras. Depois os galhos um pouco mais fortes eram os sacerdotes; os mais grossos eram os bispos, os bem fortes eram os cardeais, e todos se juntavam ao tronco que era o Papa. Na base estava Pedro, derivando sua autoridade diretamente de Cristo. Os nativos fizeram perguntas sobre todos estes galhos, especialmente alguns apodrecidos que estavam caindo num fogo:

-- Quem são estes? – Estes eram Lutero, Calvino e outros hereges que tinham sido cortados da árvore verdadeira que é a igreja.

-- Digam-me – disse um dos moradores das ilhas, -- Quem é a raiz das árvores? – É claro que concordaram que a raiz era Jesus Cristo. Então todos bateram Palmas de alegria e disseram:

-- Não nos importamos com os ramos e galhos; nunca ouvimos falar deles, mas temos a raiz, ela é suficiente para crescermos nela. – Da mesma maneira, irmãos, podemos dizer esta noite que, se temos a Cristo, temos a “raiz duma terra seca”. Obtemos a raiz da questão, a base, o resumo, a substância de tudo.

Os outros crêem em muitas formas;

Não queremos discutir a esperança deles.

Que eles corram atrás dos seus negócios e se alegrem com suas ilusões; a porta é Cristo. Nós temos a Cristo, nós entramos pela porta, nós cremos Nele, nós entramos na fé, na alegria e na paz por meio Dele. Nós estamos satisfeitos com isso; que outros queiram escalar por outro lugar, se quiserem.

Antes que eu termine este ponto, quero fazer uma pergunta que se propõe por si mesma: será que todos já entramos pela porta? Concordamos que Cristo é a porta. Já passamos por ela? Vocês que estão ficando velhos – sempre ficam contentes quando vejo cabeças brancas no auditório, com os cabelos grisalhos da maturidade – todos já creram em Jesus? Vocês conhecem a verdade, não querem ouvir a pregação de nada a não ser do evangelho simples; mas será que já se apropriaram dele? Pode-se morrer de fome com pão sobre a mesa e morrer de sede com água pelo pescoço, se a pessoa não comer e beber. Você já confiou em Cristo. Se não, como pode permanecer em estado de descrença, se “o que não crê já está julgado, porquanto não crê no filho de Deus?” Homens e mulheres na meia-idade, debatendo-se com as preocupações dos negócios, vocês já entraram em Cristo? Eu sei que os pensamentos de vocês estão necessariamente muito ocupados com o mundo; mas você não tem tempo para refletir sobre esta pergunta, ou se arrisca a negligenciá-la: “Você crê no filho de Deus?” Se a resposta é não, meu amigo, sua vida está por um fio, que, se cortado, tornará certa a sua ruína. E vocês, jovens, que prova de bênção vê-los dispostos a vir ouvir a palavra! Mas, será que já a ouviram com seus ouvidos interiores? Já olharam para o seu mestre? É muito bom vir a Cristo cedo na manhã da vida, para ter um dia longo de felicidade diante de si! Que este seja o privilégio de cada um de nós. É inútil olhar para a porta se você não entra por ela. Que Deus lhe dê a graça de entrar se você ainda não o fez.

Nosso Senhor e mestre nos diz qual são as vantagens de entrar por Ele que é a porta: aquele que entra por Cristo será salvo, entrará e sairá e achará pastagem.

Ele será salvo: imagine que alguém acidentalmente mate seu companheiro. O parente mais próximo da vítima tomará providências para matar o homicida por vingança, se conseguir pegá-lo. Por isso o pobre homem foge o mais rápido que puder para a cidade de refúgio. Seu coração está acelerado, seus pés voam, ele corre com todas s suas forças. Ele passa por uma seta onde se lê: “Refúgio”, e continua correndo. Em dado momento ele olha para traz e vê que o vingador está nos seus calcanhares. Ele o vê aproximar-se e que provavelmente logo o alcançara. Quanto cuidado ele toma para não tropeçar em alguma pedra, como ele voa pelo caminho, rápido como uma gazela! Ele corre até avistar os portões da cidade. “Essa é a cidade do refúgio”, ele se anima. Mas ele não se detém, porque só a visão da cidade não o ajuda em nada; ele apressa seu passo para ultrapassar o vento, a disparar pelo pórtico e ver-se na avenida central da cidade. Agora ele pára para respirar. Agora ele pode enxugar o suor da testa. “Agora estou seguro”, ele diz: “porque nenhum vingador de sangue se atreverá passar por aquele limiar; quem consegue fugir para cá está livre”. A mesma coisa acontece com o pecador quando o pecado o persegue, quando descobre que ofendeu à Deus. Ele ouve os terríveis caçadores da vingança divina correndo céleres atrás dele, e sua consciência voa, sua alma se apressa para a cruz. Ele recebe um pouco de esperança; ele ouve o salvador; mas isto não é suficiente. Ele só irá descansar, só poderá dizer que está em paz quando tiver passado pelo portão da fé e puder dizer: “Agora creio que Jesus morreu por mim”.

Quem entrar pela porta será salvo. A arca de Noé foi construída nos tempos idos para preservar Noé e sua família no grande dilúvio. Não se pode dizer que Noé seria salvo enquanto não entrasse pela porta.

Depois que ele o fez, as mãos divinas, invisíveis, fechou a porta. Quando Noé viu como Deus a calafetava e compreendeu que estava preso ali dentro, ele se sentiu bem seguro. Se Deus nos tranca dentro, o dilúvio lá fora não pode nos fazer nenhum mal. Quem deus fecha deve estar seguro. No momento em que um pobre pecador confia em Cristo, Deus tranca a porta. Ali ele está e ali Ele ficará até que o tempo não exista mais. Ele está protegido. Os poderes do inferno não podem destruí-lo, e a vingança de Deus não pode tocá-lo. Ele passou pela porta, e será salvo.

Li outro dia a história de uns russos que passavam por uma ampla planície, onde aqui e ali se via grandes florestas. As aldeias ficavam quinze ou vinte quilômetros uma da outra, os lobos estavam soltos, os cavalos corriam em disparada louca, os viajantes podiam ouvir os latidos dos lobos atrás deles. Os cavalos davam tudo de si, mas os lobos chegavam cada vez mais perto, e eles só escaparam, como dizemos, “por um triz”, conseguindo entrar em uma cabana que encontraram à beira da estrada e fechar a porta. Depois eles ouviram os lobos saltando sobre os telhados, roendo a porta, uivando e assustando-os com muitos ruídos, mas os viajantes estavam seguros porque tinham entrado pela porta, e a porta estava fechada. Agora, se alguém está em Cristo, ele pode ouvir com que os demônios uivando como lobos, ferozes e famintos por ele; seus pecados, como lobos, estão tentando arrastá-lo para baixo, para a destruição. Porém ele entrou em Cristo, e este é um abrigo tal que, se todos os demônios desse mundo viessem ao mesmo tempo, não conseguiriam arrancar um único sarrafo desse refúgio eterno; só ele pode ficar firme, mesmo que o céu e a terra se desfizessem. Cristo diz a todo homem e mulher que eles serão salvos se entraram pela porta. Você não precisa ter nenhuma dúvida quanto a isso. Não deixe ninguém questionar se você será salvo ou não; você será. Agarre nesse bendito “será”. Senhor se você foi um bêbado, mas agora confia em cristo, você será salvo. Você não voltará para a bebedeira, mas será salvo dela se crer nele. Senhora, se você manchou seu caráter da pior maneira possível, mas crê em Cristo, nenhum dos seus pecados passados irá arruiná-la, mas você será salva. Sim, apesar de vocês serem tentados todos os dias das suas vidas, tentados como jamais antes, Deus é fiel e não pode mentir – se você passar por Cristo que é a porta, você será salvo. Você está entendendo o que é passar pela porta? Significa depender de Jesus, entregar-se a Ele, descansar Nele. Quando você dependura seus apetrechos de cozinha nos ganchos do armário, o que os impede de cair? Nada além do gancho; se ele segura bem, nada do que está pendurado nele poderá cair. Você precisa confiar em Cristo como os utensílios estão pendurados no gancho ele está firme como um gancho bem parafusado, se você se pendura nele, não poderá nem ira perecer. Este é o principal privilégio – ele será salvo.

Quem passou pela porta poderá entrar. Aquele que crê em Cristo entrará no descanso e na paz, porque não há condenação para os que estão em Cristo Jesus. Ele entrará no conhecimento secreto. Ele será um erudito e será instruído por Cristo como seu rabino. Ele irá até Deus em oração com ousadia santa. Ele irá para aquilo que está atrás do véu e falará com Deus de diante do trono da graça. Ele entrará na condição de filho e se tornará herdeiro adotivo do céu. Ele entrará na comunhão intima com Deus, falará com seu criador. O senhor fará resplandecer o seu rosto sobre ele. Ele alcançará as coisas mais elevadas, entrará na sala do tesouro da aliança e dirá: “Tudo é meu”. Ele entrará no depósito das promessas e tomará tudo que sua alma precisa. Ele entrará, avançando de círculo em círculo, até chegar ao lugar mais interior, onde o amor de Deus é espalhado com mais graça.

Quem passa pela porta será salvo e entrará. Se você sabe o que isso significa – entre; entre mais fundo; entre mais, constantemente. Não pare onde você está, mas entre até você receber um pouco mais. Se você ama a Cristo, aproxime-se mais Dele, mais, ainda mais. Que sua oração seja:

Mais perto quero estar, meu Deus, de ti,
Inda que seja a dor que me uma a ti.
Sempre hei de suplicar: “Mais perto quero estar,
Meu Deus de ti!”

No entanto, se coce quer entrar em qualquer coisa espiritual, você precisa ir através de Cristo. Vocês que abrem suas bíblias e querem compreender um texto, a maneira de entrar no sentido de um texto é pela porta, Cristo. Vocês que querem mais santidade venham pela porta; o caminho para a santidade não é por Moisés, mas, por Cristo. Vocês que querem uma comunhão mais íntima com o pai celestial, o meio de entrar não pelos seus esforços próprios – mas Cristo. Você veio para Cristo primeiro para receber salvação; você precisa continuar vindo a Cristo para ser santificado. Jamais procure outra porta porque só existe uma, e esta o levará para a vida, amor, paz, conhecimento e santificação. Ela o levará para o céu. Cristo é a chave mestra pêra todas as dependências para todas as dependências do palácio da misericórdia, e se você tem Cristo você pode entrar. Nada pode manter você fora de alguma câmara secreta. Você entrará, em nome de Deus através de Cristo, que é a porta.

O próximo privilégio é que você sairá. Os dois juntos - entrar e sair – significam liberdade. O cristão não entra numa igreja como numa prisão; ele entra como um homem livre que entra e sai de sua própria casa. Entretanto, o que significa sair? Creio que é o seguinte, irmãos: aqueles que confiam em Cristo saem para suas atividades diárias através de Cristo, que é a porta. Quantos de vocês já pensaram nisso? Você percebe que às vezes você levanta, se veste e sai precipitado para o trabalho, e se sente fraco o dia todo. Bem, eu não me admiro, porque não saiu através da porta, Cristo. Imagine que você tenha se entregue a Cristo para o dia e, mesmo que teve só pouco tempo para orar, e disse nesses termos: “Senhor, sou teu. Toma conta de mim hoje. Estou saindo para onde haverá muitas coisas para me tentar e provar. Não sei o que haverá hoje, Senhor, mas estou saindo em teu nome e descansando em tua força. Se há algo que eu possa fazer por ti, desejo fazê-lo. Se há algo a sofrer, desejo sofrê-lo por amor a ti, mas cuida de mim, Senhor. Não quero sair e encarar as outras pessoas antes de ter visto a tua face, e não quero falar com elas antes de ter falado contigo, nem ouvir o que elas tem a dizer antes de ter ouvido o que o Senhor Deus tem a dizer”. Você pode crer que é uma bênção quando você passa pela porta. Você terá a certeza de voltar feliz para casa quando sai dessa maneira.

Será que este sair não significa sair para o sofrimento? Às vezes você e eu somos chamados para suportar dores físicas e perdas de bens ou de entes queridos. Como é bom sair para sofrer essas coisas pela porta, e poder dizer: “Mestre, isto é uma cruz, mas eu quero carregá-la, não na minha força, mas na tua. Faça comigo o que quiseres; beberei o cálice que tu o indicaste”. Em qualquer coisa e que você puder ver a mão de Cristo, o amargo fica doce e as coisas pesadas logo ficam leves. Vá para o seu leito de enfermidade como espera ir para o leito de morte: pela porta, isto é, através de Cristo.

E quando, como às vezes acontece, temos de sair, por assim dizer, da comunhão com Cristo para lutar com nossos pecados interiores, a maneira certa de lhes resistir é pela porta. Se você alguma vez tentar lutar contra o pecado pela sua própria força, ou em base legal, ou se você sente que será condenado se não vencer esses pecados, você será tão fraco como água. O caminho da vitória é pelo sangue do cordeiro. Não há como matar o pecado exceto jogando o sangue de Cristo sobre ele. Assim que o sangue de Cristo entra em contato com o pecado persistente, o pecado retrocede de pronto. Saia para os seus conflitos espirituais pela porta.

Assim, amados, em tudo que fazemos pelo Senhor devemos sair pela porta. Para mim é sempre agradável pregar quando que saí em nome do meu mestre, quando não venho para lhes dizer as idéias que desenvolvi em próprio cérebro, nem para colocar para vocês ilustrações interessantes, como eu às vezes gostaria. Quando venho para lhes dizer simples e somente o que meu Senhor quer que vocês saibam, trago-o como mensagem a vocês do deus de vocês, e ele acende em meu coração seu grande amor pelos pecadores que estão perecendo. Assim, o ministério é um prazer.

Agora, o último privilégio mencionado no texto é “e achará pastagem”. Eu imagino que foi para isso que vocês vieram aqui, vocês que amam o Senhor: para encontrar pastagem. É uma grande benção se, quando vimos ouvir o evangelho, ele se torna um verdadeiro pasto para nós. Conhecemos alguns que dizem que os problemas da semana se tornam insolúveis porque o domingo foi vazio. Se vocês são membros de uma igreja dilacerada por discórdias, onde o pastor tem abundância de tudo menos de Cristo, vocês logo vão começar a reclamar, e a valorizar o privilégio de ouvir Jesus Cristo, elevado entre vocês. Quem, porém, são as pessoas que ganham pastagem quando Jesus Cristo é pregado? Não são todas que o ouvem, nem mesmo todos os crentes. Há ocasiões em que você ouve um sermão que não serve para você, mas seu irmão ou irmã ao seu lado pode ser grandemente instruído e confortado por ele. Nesse caso, eu não me surpreenderia se a razão é que seu amigo entrou no culto pela porta e você não.

Você conhece a história do senhor Erskine e da boa senhora que veio ouvi-lo pregar em um dia de ceia? A pregação foi tão agradável que ela achou que nunca tinha ouvido outra igual. Assim, depois do culto ela perguntou:

- Quem foi aquele senhor que pregou hoje? – quando lhe falaram que foi o Sr. Ebenezer Erskine, ela disse:

- Voltarei no próximo domingo para ouvi-lo de novo. – ela veio, ouviu, e pensou: “Que pregação pesada e seca!” não recebeu nenhum conforto com ela; então, como uma mulher tola que eu acho que ela deve ter sido, ela foi ao vestíbulo e disse:

- Sr. Erskine, domingo passado eu o ouvi com muito prazer; nunca fui tão edificada. Vim novamente esta manhã, mas fui terrivelmente desapontada. – O bom homem respondeu com muita calma:

- Desculpe, minha senhora, quando veio a igreja domingo passado, veio com que motivação?

- vim para a ceia, senhor.

- para ter comunhão com Cristo, eu imagino? – ele perguntou.

- Sim, senhor.

- Bem, a senhora veio para isso, e o recebeu. Agora, diga-me, para que a senhora veio aqui esta manhã?

- vim para ouvi-lo, senhor – ela disse.

- e foi o que a senhora recebeu, e nada, além disso, porque a senhora não veio para nada mais.

Ora, quando as pessoas vêm para ouvir certo pastor, ou por hábito, ou pela forma, será que sempre recebe aquilo pelo que vieram? Quando a pessoa vem a procura de falhas, nós sempre lhes servimos muitas das nossas imperfeições para entretê-las, de modo que não saiam desapontadas. Outros que vêm somente por hábito, dizem: “Bem, esta é a minha tarefa; fiz minha obrigação”. É óbvio que sim. Mas se você entrou pela porta – isto é, olhando para Cristo, procurando por Cristo, desejando não ver o pregador, mas o Senhor, não receber as palavras do homem, mas de Deus para sua alma – eu creio que você achou pastagem.

Eu penso que o texto pode significar que quem descansa em Cristo terá todas as suas necessidades supridas. Se este texto não diz isto, outro diz: “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso”.

Alguns de vocês são muito pobres, mas se confiaram em Cristo, podem reivindicar esta promessa: “o Senhor disse que eu acharia pastagem”. Venha a Cristo e lhe diga que foi Ele mesmo que afirmou isso: “Nenhum bem sonega aos que andam retamente”.

Eu anseio em Deus que alguns que ainda não entraram no aprisco sejam agora atraídos à Jesus. Oh entrem pela porta para estes quatro privilégios especiais. Você talvez nunca tenha uma oportunidade assim. Talvez você nunca mais seja tocado assim pelo Espírito de Deus. Sim! Sem demora lancem suas almas impotentes nos braços cheios de graça do Salvador, que pode e quer salvar, para que sejam salvos agora.


Extraído de Spurgeon´s sermons: O Melhor de Spurgeon., Editora Luz e Vida


Autor: Pr Charles Haddon Spurgeon
Extraído de: Spurgeon´s Sermons Fonte: www.obreiroaprovado.com

sexta-feira, 11 de março de 2011

[Soteriologia] REGENERAÇÃO

“SE ALGUÉM NÃO NASCER DE NOVO, NÃO PODERÁ VER O REINO DE DEUS” (JOÃO 3.3)

No dia a dia nossos pensamentos estão sempre ocupados com coisas que são necessárias à nossa existência. Ninguém reclama quando o preço do pão é discutido com freqüência em tempo de escassez, porque todos sabem que o assunto é de máxima importância para a população. Por isso ninguém reclama da menção constante do tema nos discursos e em artigos de jornal. Posso trazer a mesma desculpa, portanto, por trazer a vocês hoje o tema da regeneração. Ele é de importância vital e absoluta, o ponto central do evangelho, o item sobre o qual a maioria dos cristãos concorda, todos os que são cristãos em verdade e sinceridade. Esse assunto é a própria base da salvação, o alicerce das nossas esperanças para o céu. Assim como numa construção tomamos todos os cuidados necessários com a fundação, devemos nos certificar com cuidado se realmente nascemos de novo, tomando as providências para toda a eternidade. Há muitos que acham que são nascidos de novo e não são. É bom, portanto, que nos analisemos com freqüência, e é obrigação dos pastores levantarem as questões que levam ao auto-exame e tendem a sondar o coração e testar os controles dos filhos dos homens.

A princípio farei umas observações sobre o novo nascimento; em segundo lugar, direi o que significa que alguém não pode ver o reino de Deus se não nasceu de novo; depois disso veremos porque “se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”; por último exortarei as pessoas, como embaixador de Deus.
Primeiro, então, a questão da regeneração. No esforço de explicá-la, devo destacar antes de tudo a ilustração que é usada. Nos é dito que as pessoas têm de nascer de novo. Não posso ilustrar isso melhor do que imaginando um caso. Imagine que na Inglaterra fosse aprovada uma lei do acesso à corte real: o atendimento nas repartições públicas e qualquer privilégio na nação só seriam dados a quem tivesse nascido na Inglaterra – que o nascimento nesse país se tornasse condição sine qua non, e que fosse declarado definitivamente que, não importa o que as pessoas fossem ou fizessem, se não tivessem nascidos como súditos ingleses, não poderiam entrar na presença de sua majestade, usufruir dos serviços do estado nem qualquer privilégio dos cidadãos. Acho que, se vocês puderem imaginar um caso como este, poderei ilustrar a diferença entre as mudanças e reformas que as pessoas fazem em si mesmas e a verdadeira obra de ser nascido de novo. Imaginemos, então, que um estrangeiro – um Índio, por exemplo – viesse a esse país e se esforçasse para obter os privilégios de um cidadão, bem sabendo que a regra é absoluta e não pode ser alterada, que os privilégios são só para os súditos nascidos aqui. Imaginemos que ele diga: “vou mudar meu nome; adotarei o nome de um inglês. Entre os sioux tenho uma posição muito importante, um nome como grande vento do oeste ou algo assim, mas adotarei um nome inglês, cristão, súdito do rei”. Vocês acham que ele será aceito? Você o vê se aproximando dos portões do palácio e solicitar admissão. Ele diz:

--- Adotei um nome inglês.

--- Mas você é um inglês que nasceu e cresceu aqui?

--- Não, não sou.

--- Então as portas precisam ficar fechadas para você, porque a lei é absoluta. Mesmo que você tivesse o nome da família real, se não nasceu aqui, você fica fora.

Essa ilustração se aplica a todos nos que estamos aqui presentes. Quase todos nos usamos o nome de cristãos professos; vivendo na Inglaterra você consideraria uma desgraça se não fosse chamado de cristão. Você não é pagão, não é infiel, não é nem muçulmano nem judeu. Você acha que o nome cristão lhe é devido e você o assumiu. Pois você pode ter certeza de que ser chamado de cristão não equivale a ter natureza de cristão, e que o fato de ter nascido num país cristão, e ser conhecido como alguém que professa a religião cristã, não é garantia nenhuma se não lhe for acrescentado mais alguma coisa – ser nascido de novo como súdito de Jesus Cristo.

--- Mas --- diz o índio, --- estou disposto a renunciar as minhas roupas típicas para vestir-me como um inglês. Vou me adaptar em tudo; você não verá nenhuma diferença em relação à maneira usual neste país. Quando eu tiver me vestido como manda a etiqueta, poderei vir à presença do rei? Veja, não vou brandir a machadinha, vou tirar essas penas e roupas de couro, vou jogar fora meus mocassins para sempre. Sou inglês de nome e de maneira de ser

Ele se aproxima do portão vestido como um inglês, mas este continua fechado, porque a lei exige que ele tenha nascido nesse país; sem isto, não importa como ele se veste, ele não pode entrar no palácio. Assim também, quantos de vocês, além de assumir o nome de cristão, também adotaram um comportamento cristão? Vocês vão às suas igrejas, freqüentam a casa de Deus, cuida que sua família sua forma de religião; seus filhos não ficam sem ouvir o nome de Jesus! Até aí tudo bem. Deus não permita que eu diga alguma palavra contra isso. Mas lembrem: isso não vale nada se vocês não vão além. Tudo isso não serve de nada para grangear admissão no reino do céu se não for acompanhado de --- ser nascido de novo. Sim! Vocês podem se vestir com a pompa da vida cristã, colocar o chapéu da benevolência cingir-se da integridade, vestir o sapato da perseverança e caminhar pela terra com pessoas honestas e direitas; mas lembrem-se, se não forem nascidos de novo, “o que é da carne é carne”, e você, que não tem o Espírito atuando em você, ainda tem as portas do céu fechadas porque não nasceu de novo.

--- está bem --- diz o índio, --- não só adotarei a maneira de vestir, mas aprenderei a língua. Deixarei minha língua, o dialeto que eu falava nos campos e florestas da minha terra. Não usarei mais o xu-xu-gá e os outros nomes estranhos com que chamava os pássaros selvagens e os animais, e vou falar como vocês falam e agir como vocês agem. Vou vestir-me como vocês se vestem, adotar suas maneiras, falar do mesmo jeito, aprender seu sotaque e a gramática certa; então, poderei entrar? Fiquei completamente anglicizado; Não posso ser recebido?

--- Não --- diz o guarda na porta, --- só admitimos pessoas nascidas neste país; você não pode entrar.
O mesmo acontecerá com vocês. Vocês falam como cristãos, talvez com um tom um pouco forçado. Vocês começaram a imitar tão bem que se consideraram espirituais até um pouco mais que os outros, e vocês se esforçam tanto que exatamente por isso podemos perceber a falsificação. Mas agora às pessoas em geral vocês parecem ser o tipo certo de cristão. Vocês estudaram biografias, e as vezes contam histórias sobre sua experiência com Deus. Vocês as copiaram das biografias de bons cristãos; vocês andaram com cristãos e sabem como eles falam. Talvez vocês até tenham um jeito puritano; vocês andam pelo mundo como professores; quem os observasse, não perceberia a diferença. Vocês são membros da igreja, foram batizados, participam da ceia do Senhor, talvez até sejam diáconos ou presbíteros, estendem o cálice para os outros. Vocês são tudo o que cristãos podem ser, só que não tem um coração cristão. Vocês são sepulcros caiados, cheios de podridão por dentro, mas que bem enfeitados por fora. Tomem cuidado! É impressionante como um pintor pode chegar perto da expressão da vida, e mesmo assim a tela está morta e sem movimento; é impressionante como alguém pode chegar perto de ser cristão e ser excluído do céu pela regra absoluta, por não ser nascido de novo. Com toda sua profissão de fé, com toda a pompa de sua alegada vida cristã e com todas as plumas esplendida da experiência, ele tem de ser afastado dos portões do céu.

“Você não tem compaixão, Sr Spurgeon”. Não me importo com o que você está dizendo. Não quero ter mais compaixão do que Cristo. Não fui eu quem disse essas coisas: foi Cristo. Se tiver algum problema com Ele, resolva-o aqui. Não sou eu quem fiz esta verdade, apenas sou seu porta voz. Eu achei isto escrito: “se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”.

Observe agora a maneira de se obter à regeneração. Creio que aqui não há ninguém tão estúpido, que eu tenha atraído alguém tão sem cérebro, que ainda creia na regeneração pelo batismo. Sim, tenho de mencionar isto rapidamente. Há pessoas que ensinam que algumas gotas de água aspergida sobre a cabeça de um bebê o regeneram. Imaginemos que seja assim, e eu encontro esses regenerados vinte anos depois. O ganhador do prêmio da loteria é um homem regenerado. Sim, regenerado porque foi batizado na infância. Você consegue ouvi-lo praguejando e blasfemando de Deus? Ele está regenerado, creia em mim; o pastor pos alguns pingos de água na sua testa. Você está vendo o bêbado cambaleando pela rua, a peste da vizinhança, brigando com todo mundo e batendo na esposa, pior que um selvagem --- ele é regenerado! Observe a multidão reunida na rua, a forca foi levantada, está par ser executado um homem cujo nome deveria ser banido por toda eternidade, de tão maligno. Ele é regenerado, sim, porque foi batizado na infância. Ele estava regenerado enquanto misturava seu veneno e o administrava em pequenas doses, para causar dor infinita e uma morte lenta. É claro que ele é regenerado! Se isto é regeneração, não vale a pena sê-lo; se é isto que nos liberta para o reino do céu, então o evangelho é realmente licencioso; não há mais nada a dizer sobre ele. Se este é o evangelho, que todas estas pessoas são regeneradas e serão salvas, só podemos dizer que seria obrigação de qualquer pessoa no mundo rejeitar esse evangelho, que é tão incoerente com os princípios mais comuns de moral que não pode ser de Deus; deve ser do diabo.

Em seguida podemos dizer que ninguém é regenerado por seu próprio esforço. Uma pessoa pode mudar bastante, e isto é muito bom; que todos o façam. Uma pessoa pode rejeitar todos os maus hábitos, esquecer os vícios em que andava e controlar suas ações más; ninguém no mundo, porém, pode fazer-se nascer de Deus. Por mais que ele se esforce, jamais conseguirá realizar o que transcende o seu poder. E preste atenção, se alguém conseguisse fazer nascer a si próprio de novo, ainda assim não entraria no céu, porque há outro detalhe da condição que ele teria quebrado: “quem não nascer [...] do Espírito não pode entrar no reino de Deus”. O maior esforço da carne não atingirá este patamar, de nasce do Espírito de Deus.

Agora podemos dizer que a regeneração consiste em que este Deus, o Espírito santo, de maneira sobrenatural --- veja, com a palavra “sobrenatural” quero dizer simplesmente o que o termo significa, mais que natural --- age sobre os corações das pessoas, que, pela atuação do espírito divino, ficam regeneradas. Sem o espírito isso é impossível de acontecer. Se esse Deus, o Espírito Santo, que “efetua em nos tanto o querer como o realizar”, não agir sobre a vontade e a consciência, a regeneração e absolutamente impossível, de modo que não há salvação. “O que?” Diz alguém, “você esta querendo dizer que Deus intervem absolutamente na salvação de cada pessoa, para regenerá-la?” Exatamente. Na salvação de cada pessoa há uma manifestação real do poder de Deus, pela qual o pecador morto é avivado, o pecador renitente se torna dócil, o pecador desesperadamente endurecido fica com a consciência sensível, e aquele que rejeitou Deus e desprezou a Cristo elevado a lançar aos pés de Jesus. Há quem queira chamar isso de doutrina fanática, mas nada posso fazer a esse respeito; para nos basta que é doutrina bíblica. “Quem não nascer [...] do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do espírito e Espírito”.

Creio que devo passa pelo segundo ponto sem comentá-lo e ir para o terceiro: porque, “se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”?limitarei minhas observações ao reino de Deus no mundo futuro.

Bem, ele não pode ver o reino de Deus porque no céu ele estaria deslocado. Alguém que não nasceu de novo não se sentira bem no céu. Existe um empecilho em sua natureza que o impede de ter prazer em qualquer uma das bênçãos do paraíso. Talvez você pense que o céu consiste naqueles muros de jóias, nos portões de perolas, nas ruas de ouro. Não é assim; o céu é lá, mas este não é o céu. O céu é um estado interior no coração, criado pelo Espírito de Deus dentro de nos. A não ser que o Deus o Espírito nos renovou e fez nascer de novo, não podemos nos alegrar nas coisas do céu. É uma impossibilidade física que um porco de uma aula de astronomia. Qualquer pessoa percebe claramente que é impossível que uma lesma construa uma cidade. Da mesma forma é impossível que um pecador não transformado possa ter prazer no céu. Não haverá nada lá que o atraia; se ele pudesse ser levado para o lugar onde estar o céu, ele se sentiria muito mal. Ele iria gritar: “deixem me sair, deixem me ir embora! Quero sair desse lugar miserável” Quero apelar a vocês, para quem muitas vezes o sermão é longo demais, cantar louvores à Deus é um esforço maçante e árido, ir à casa de Deus é tédio. O que vocês vão fazer onde se louva a Deus sem parar? Se o breve discurso aqui já cansa, o que dizer da conversa eterna dos remidos sobre as maravilhas do amor redentor? Se a companhia dos judeus aborrece, como a suportar por toda a eternidade? Eu acho que muitos de vocês estão dispostos a confessar que cantar salmos não e muito do seu gosto, que você não se importa muito com as coisas espirituais; sentar-se com uma garrafa de vinho e divertir-se isto é o céu para você! Bem, um céu assim ainda não foi feito, e por isso não há céu para você. O único céu que existe é o céu das pessoas espirituais, o céu de louvor, o céu do prazer em Deus, o céu dos que foram aceitos entre os amados, o céu da comunhão com Cristo. Disso você não entende nada; você não se alegraria nele se o tivesse; você não tem capacidade para tanto.

Todavia, há outras razoes:

Imoralidade, pecado, vergonha

Fecham os portões sagrados para sempre.

Há outros razoes, alem daquelas dentro de você, por que você não pode ver o reino de deus se não nascer de novo. Pergunte aos espíritos que estão diante do trono:

--- Anjos, principados e potestades, vocês concordariam que pessoas que não amam a Deus, que não crêem em Cristo, que não nasceram de novo, morem aqui? --- Eu os vejo olhando aqui para baixo e respondendo:

---Não! Nós já lutamos contra o dragão e o expulsamos daqui porque nos tentou para o pecado; não precisamos e não queremos ter os maus aqui. Estes muros de alabastro não devem se maculados por dedos sujos e lascivos; o pavimento limpo do céu não deve ser manchado e sujado pelos pés profanos de pessoas que não pertencem a Deus. Não!

Vejo milhares de lanças levantadas, e os rostos temíveis de uma miríade de serafins vigiando por cima dos muros do paraíso:

--- Não, enquanto estes braços tiverem força e estas asas poder, nenhum pecado entrara aqui.

Dirijo-me ainda aos santos no céu, já redimidos pela graça soberana:

--- Filhos de Deus, vocês concordam que os maus entrem no céu assim como estão, sem nascerem de novo? Vocês que amam a todos, digam, vocês acham que eles devem ser admitidos em seu estado atual?

Vejo Ló levantar-se e exclamar:

--- Admiti-los no céu? Nunca! Terei de suportar novamente as conversas dos sodomitas?

Vejo Abraão vir a frente e dizer:

--- Não; não posso tê-los aqui. Já tive o suficiente deles enquanto estive na terra; seus gracejos e zombarias, suas palavras tolas, suas conversas fúteis nos incomodaram e entristeceram. Não os queremos aqui.

Apesar de serem celestiais e terem espírito amoroso, não há nenhum santo no céu que não se ressinta com indignação suprema que alguém de vocês se aproxime das portas do paraíso, se não estiverem santos e não nascerem de novo.

Isso, porém, Não é tudo. Talvez conseguíssemos escalar as defesas do céu, se fossem protegida somente pelos anjos, e arrombar as portas do paraíso se só os santos os guarnecessem.

Mas há outra razão que nos impede de entrar --- foi o próprio Deus quem disse: “Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. Qual pecador quererá conquistar as trincheiras do paraíso se Deus está pronto para jogá-lo no inferno? Você tentará enfrentá-lo descaradamente? Foi Deus quem disse, com voz de trovão: “Não vereis o reino de Deus”. Será que podemos lutar com o Altíssimo? Podemos derrotar o Onipotente? Podemos medir forças com o todo poderoso? Verme do pó! Você quer vencer o criador? Inseto que só vive uma hora, trêmulo com os relâmpagos que riscam o céu longe lá em cima, você quer testar a mão de Deus? Você quer aventurar-se a desafiar a sua face? Ora, Ele riria de você. Assim como a neve derrete com o sol, como a cera escorre com ferocidade do fogo, você se desfaria quando a sua fúria o alcançasse. Não pense que você pode enfrentá-lo. Ele fechou a porta do paraíso para você, e não há como entrar. O deus da justiça diz: “Não irei recompensar os maus com os justos; não permitirei que meu bom paraíso seja profanado por pessoas más e rebeldes. Se se converterem, terei misericórdia deles; mas se não se converterem, tão certo como eu vivo, vou fazê-los em pedaços, e não restará ninguém”.

Agora, meus amigos, uma pequena exortação, e depois adeus. Ouço alguém dizer: “está bem, estou entendendo. Espero nascer de novo depois da morte”. Meu senhor creia em mim, você será um tolo miserável em meio às suas dores. Quando alguém morre seu estado final já está definido;

Depois que a gente falecer
É tarde para se arrepender.

Nossa vida é como a cera que foi derretida para servir de lacre: a morte põe nela o seu carimbo, depois ela esfria, e a marca não pode mais ser mudada. Hoje vocês são como o metal incandescente que escorre da fornalha para o molde: a morte esfria vocês no molde, e vocês conservam essa forma por toda a eternidade. A voz da condenação ecoa sobre o morto: “Que o santo continue santo, que o ímpio continue ímpio, que o imundo continue imundo”. Os condenados estão perdidos para sempre. Não podem mais nascer de novo. Continuam malditos e maldizendo, eternamente lutando contra Deus e sendo pisado sob seus pés. Estarão para sempre zombando e sendo ridicularizados por sua zombaria. Estarão sempre se rebelando e sendo torturados com os açoites da consciência porque não param de pecar. Não podem ser regenerados porque estão mortos.

“Bem”, diz outro, “tomarei cuidado de ser regenerado antes de morrer”. Moço, repito, que você é um tolo falando assim; como você sabe se vai continuar vivendo? Você fez um contrato de aluguel como fez com sua casa? Você pode garantir o sopro em suas narinas? Você pode dizer com certeza que seus olhos verão a luz amanhã? Você pode saber se seu coração já não está tocando a marcha fúnebre em direção ao túmulo, e você morrerá onde está parado ou sentado agora? Ó homem! Se seus ossos fossem de ferro, seus tendões de bronze e seus pulmões de aço, então você poderia dizer: “viverei”. Mas você é feito de pó; você é como a flor no campo; você pode morrer a qualquer momento. Olhe! Estou vendo a morte parada ali afiando a foice com sua pedra. Ela vai brandir a foice para alguns de vocês hoje --- ela ceifa os campos, e vocês caem um a um. Vocês não devem e não podem viver. Deus nos leva como uma enchente, como um navio num redemoinho, como um galho na correnteza arremessando para a cachoeira. Não há como parar nenhum de nós. Todos estamos morrendo! E você ainda diz que quer ser regenerado antes de morrer! Meus senhores vocês estão regenerados agora? Porque senão, esperar para amanhã pode ser muito tarde. Amanhã vocês podem estar no inferno, com o destino gravado em diamante para sempre.

“Veja”, exclama outro, “Não me importo muito com isso; não faço caso de ser excluído do paraíso”. Meu senhor, você fala do que não entende. Você sorri agora, chegará o dia em que sua consciência será mais sensível, sua memória estará viva, seu julgamento será às claras e você pensará muito diferente do que agora. Os pecadores no inferno não são tolos como na terra; no inferno não riem do fogo eterno; no abismo não desprezam a palavra “fogo eterno”. O verme que nunca morre devora todas as piadas e risadas. Você pode estar desprezando à Deus e a mim pelo que estou dizendo agora, mas a morte mudará seu tom de voz. Queridos ouvintes, se fosse só isso, eu o suportaria. Vocês podem desprezar a mim; mas eu imploro, não desprezem vocês mesmos! Não sejam idiotas para irem assobiando para o inferno. Rindo para o abismo; quando chegarem lá, vocês verão que é bem diferente do que sonham agora. Quando virem as portas do paraíso fechadas para vocês, vocês verão que isso é mais importante do que julgam agora. Vocês vieram hoje ouvir-me pregar, como vão à ópera ou ao teatro; acharam que eu deveria entretê-los. Longe de mim essa intenção. Deus é minha testemunha que vim solene e seriamente para lavar minhas mãos do sangue de vocês. Se algum de vocês for condenado, não será por falta de aviso.

Meus amigos, eu não posso falar como gostaria. Esta manhã me sinto como Dante quando escreveu seu inferno. As pessoas diziam que ele estivera no inferno; pelo menos ele tinha a aparência de quem esteve. Ele pensou tanto disso e falou com seriedade e terror tal que disseram: “ele esteve no inferno”. Oh se eu pudesse falaria como ele. São só mais alguns dias, e eu os verei face a face. Posso olhar pelo espaço de alguns anos até eu e você estarmos perante o tribunal de Deus: “Vigia, vigia”, diz uma voz, “você os advertiu? Você os advertiu?” Algum de vocês dirá que não? Não, mesmo os mais despreocupados dirão naquele dia: “Nós rimos, nós zombamos, nós não nos importamos; ó Senhor, somos obrigados a falar a verdade: o homem falava sério, falou-nos de nossa condenação, ele está limpo”. É isto que vocês dirão? Eu sei que sim.


Autor: Pr Charles Haddon Spurgeon
Extraído de: Spurgeon´s Sermons
Fonte: www.obreiroaprovado.com

quinta-feira, 10 de março de 2011

[Soteriologia] OLHAR PARA JESUS

OLHARAM PARA JESUS E FORAM ILUMINADOS,E OS SEUS ROSTOS NÃO FICARÃO CONFUNDIDOS (SL 34.5)

Pelo contexto podemos entender que o pronome “ele” se refere ao “Senhor” do versículo anterior. “Olharam para o Senhor Jeová e foram iluminados”. Entretanto, ninguém jamais olhou para o Senhor Jeová, assim como Ele é, e achou consolo nele, “Porque nosso Deus é fogo consumidor”. Um Deus absoluto, sem o Senhor Jesus Cristo, não pode trazer nenhum conforto ao coração atribulado. Se olharmos para ele, seremos cegados por sua luz insuportável; assim como o olho mortal não pode olhar para o sol, o intelecto humano não pode olhar para Deus e ver a luz, porque o brilho de Deus iria ferir o olho da mente com cegueira eterna. A única maneira de ver a Deus é através do mediador Jesus Cristo.

Deus se cobriu e envolveu com a natureza humana --- assim podemos contemplá-lo sem parar, porque ele desceu até onde estamos, e nossa pobre inteligência finita pode compreender e segurar-se nEle. Por isso usarei meu texto essa manhã, penso que de modo legítimo, com referência ao nosso Senhor e salvador Jesus Cristo --- “olharam para Ele e foram iluminados”. Quando olhamos para Deus como foi revelado em Jesus Cristo nosso Senhor, e contemplamos a divindade como se tornou visível no homem encarnado que nasceu da virgem Maria e foi crucificado sob Pôncio Pilatos, vemos o que ilumina a mente e lança raios confortadores de luz em nosso coração desperto.

Para ilustrar meu texto, quero primeiro convidá-lo a olhar para Jesus Cristo em sua vida na terra, na esperança de que alguns de vocês sejam iluminados com isso. Depois olharemos para ele na cruz. Em seguida, olharemos para ele em sua intercessão e, por último, olharemos para ele em sua segunda vinda. Acontecerá que, olhando para ele com fé, o versículo se cumprirá em nossa experiência. A melhor prova de uma verdade é quando verificamos em nossos corações que ela é autêntica. “olharemos para Ele” e “seremos iluminados”.

Primeiro, então olharemos para Jesus em sua vida. Aqui o santo atribulado encontrará o máximo para iluminá-lo. No exemplo, na paciência, nos sofrimentos de Jesus Cristo, há estrelas de glória que embelezam as trevas da meia noite do céu da nossa angústia. Cheguem mais perto, filhos de Deus, e, não importa quais sejam seus problemas, terrenos ou espirituais, vocês encontrarão na vida de Jesus Cristo e em seus sofrimentos o suficiente para alegrar e consolá-los, se o Espírito Santo abrir agora os olhos de vocês para que possam contemplá-lo. Talvez haja em minha comunidade, na verdade tenho certeza, algumas pessoas que afundaram na pobreza. Vocês são filhos do trabalho; com muito suor do rosto vocês comem o pão; o jugo pesado da opressão esfola a nuca; talvez nesse momento estejam sofrendo os extremos da necessidade; vocês passam fome e, mesmo na casa de Deus, seu corpo reclama, porque se sente doente. Pobre irmão desanimado, olhe para Jesus; olhe para Ele e seja iluminado.

Por que reclamar de tristeza ou de dor,
Carência, desânimo ou tentação?
A bíblia nos diz que por tribulação
Terá de passar o que segue o Senhor.

Veja-o ali; por quarenta dias ele jejuou e passou fome. Olhe de novo: ele anda cansado pela estrada e, com sede, senta-se à beira do poço de Sicar. Ele, o Senhor da glória, que tem as nuvens na palma da mão, pede a uma mulher: “dá-me de beber”. Será que o servo estará acima de seu senhor e o discípulo além do seu mestre? Se Ele passou fome, sede e nudez, ó herdeiro da pobreza, tenha bom ânimo: em tudo isso você tem a companhia de Jesus. Por isso console-se, olhe para ele e seja iluminado.

Talvez seu problema seja de outro tipo. Você veio aqui gemendo com o mal que lhe causou a língua dividida da víbora da calúnia. Seu caráter, apesar de puro e imaculado diante de Deus, parece estar perdido para as pessoas. A fofoca podre esforçou-se por tirar aquilo que lhe é mais precioso que a própria vida: o seu caráter, sua boa fama. Agora você está cheio de ressentimento, embriagado de amargura, porque foi acusado de crimes que sua alma abomina. Venha, filho da tristeza; esse golpe é realmente duro. A pobreza é como os açoites de Salomão, a calúnia como os escorpiões de Roboão; cair nas profundezas da tristeza é como carregar um peso com o dedo mínimo, ser difamado é levá-lo sobre os lombos. Em tudo isto, porém, você pode ter o consolo de Cristo. Venha, olhe para Ele e seja iluminado. O Rei dos reis foi chamado de samaritano; disseram que ele tinha demônio e estava louco, ele, em quem habita a sabedoria infinita. Não foi ele sempre puro e santo? E não o chamaram de bêbado e viciado em álcool? Não era ele o filho glorioso do seu pai? Mesmo assim disseram que ele expulsava demônios pelo poder de Belzebu, o príncipe dos demônios. Venha, pobre caluniado; enxugue essas lágrimas! “se chamaram belzebu o dono da casa, quanto mais aos domésticos?” Se o tivessem honrado, você poderia esperar que honrassem você também; mas assim como zombaram dele e roubaram sua glória e caráter, não se envergonhe de ser xingado e ridicularizado, porque ele está com você, carregando a sua cruz à sua frente, e essa cruz é mais pesada que a sua. Portanto, olhe para ele e seja iluminado.

Entretanto, ouço outro dizer: “O meu problema é pior que o destes dois. Eu não estou gemendo por causa de calúnias, nem passando necessidade, mas, senhor, a mão de Deus pesa sobre mim. Ele me trouxe meus pecados à lembrança, ocultou de mim o brilho de sua presença. Antigamente eu cria nEle, e podia ler meu nome inscrito nas mansões celestiais. Agora estou jogado no chão: ele me ergueu e depois deixou cair, levantou-me como um lutador para jogar-me no chão com mais força. Meus ossos estão quebrados, meu espírito se derreteu de angústia dentro de mim”. Venha, meu irmão atribulado, olhe para ele e seja iluminado. Não suspire mais por causa de suas misérias, venha comigo e olhe para ele, se puder. Você está vendo o jardim das oliveiras? A noite é fria, os passos rangem na lama endurecida pela geada. Ali, numa clareira, está ajoelhado seu Senhor. Ouça-o. Você consegue compreender a música dos seus gemidos, o sentido dos seus suspiros? Com certeza suas tristezas não são tão pesadas como as dEle, que fizeram gotas de sangue brotar em sua pele e escorrer para o chão. Diga, suas lutas são maiores que as dEle? De forma alguma, mas se ele teve de lutar contra os poderes das trevas, espere fazer o mesmo. Olhe para ele na sua hora final solene e ouça-o dizer: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Não pense que algo estranho está acontecendo com você, como se você tivesse que acompanhá-lo em seu lamá sabactani e suar sangue como Ele. “Olharam para Ele e foram iluminados”.

Agora quero convidá-lo para uma visão ainda mais sombria. Todavia, por estranho que pareça, quanto mais escura fica a cena, mais clara ela se torna para nós. Quanto mais fundo o Salvador mergulha nas profundezas da miséria, mais brilhantes são as pérolas que ele traz à tona---quanto maiores as suas tristezas, maiores são as nossas alegrias, quanto mais profunda a sua desonra, mais esplêndida a nossa glória. Venham, então--- e desta vez convido os santos e os pecadores para a cruz do calvário. Ali, no alto do pequeno monte fora dos portões de Jerusalém onde geralmente os criminosos comuns eram executados --- o Tyburn de Jerusalém, o Old Bailey daquela cidade --- ali há três cruzes, estando a do meio reservada para aquele que é considerado o pior dos criminosos. Veja! Eles o pregaram na madeira, o Senhor da vida e da glória, perante os pés de quem os anjos se comprazem em derramar taças cheias de glória. Eles o pregaram na cruz: ele está ali, pendurado no meio do céu, sangrando, morrendo. Ele está com sede e grita, eles lhe enfiam uma esponja com vinagre na boca. Ele está sofrendo e precisa de compaixão, mas eles zombam dEle: “salvou a outros mas a si mesmo não pode salvar”. Eles citam errado as palavras dEle: desafiam-no a destruir o templo e reconstruí-lo em três dias; no momento em que Ele faz exatamente isso, eles dizem que Ele não tem poder para fazê-lo. Olhe para Ele, antes que caia o céu sobre agonias tristes demais para contemplar. Veja-o! Existiu algum rosto desfigurado como o dEle? Existiu algum coração tão cheio de agonia? Existiram olhos tão abrasados pelo fogo atroz? Venha e olhe para Ele, contemple-o agora. O sol eclipsou-se, recusando-se a olhá-lo! A terra treme, os mortos levantam, os horrores dos seus sofrimentos deixaram a própria terra perplexa:

Ele está morrendo!
O próprio amigo dos pecadores!

E nós convidamos você a olhar esta cena para que você seja iluminado. Quais são as suas dúvidas esta manhã? Sejam quais forem, elas podem ter uma solução agradável e amorosa, olhando para Cristo na cruz. Talvez você tenha vindo duvidando da misericórdia de Deus; depois de olhar para Cristo na cruz, ainda tem duvidas? Se Deus não fosse cheio de misericórdia e pleno de compaixão, será que ele daria seu Filho para sangrar e morrer? Você acha que um pai que arranca seu filho querido do seu coração e prega-o numa arvore de modo que tenha uma morte infame em nosso lugar, que um pai assim é duro, inclemente, impiedoso? Não permita tal pensamento ímpio! Deve haver misericórdia no coração de Deus, ou jamais haveria uma cruz no calvário.

Talvez você duvide que Deus tenha poder para Salvar? Talvez você esteja dizendo em seu coração esta manha: “Como será que ele pode perdoar um pecador tão grande como eu?” Olhe, pecador, olhe para a grande expiação que foi feita, o grande resgate que foi pago. Você acha que este sangue é ineficaz para perdoar e justificar? É verdade que, sem a cruz, uma pergunta ficaria sem resposta: “Como Deus pode ser justo e, ao mesmo tempo, justificar os ímpios?” Todavia, veja ali o substituto sangrando! E saiba que Deus aceitou os sofrimentos dEle e equivalem às desgraças de todos os crentes. Depois, se seu Espírito puder, atreva-se a pensar que o sangue de Cristo não é suficiente para que Deus vingue sua justiça e mesmo assim tenha misericórdia dos pecadores.

Mas eu posso imaginar que você diga: “Não tenho duvidas da misericórdia em geral, nem que ele pode perdoar, mas se ele quer perdoar.” Eu insto com você, por amor daquele que morreu mas esta vivo, a não procurar esta manha uma resposta para esta dificuldade em seu próprio coração, a não ser sentar e olhar para os seus pecados; foram estes que o colocaram em perigo—eles não poderão livrá-lo dele. A melhor resposta que você pode receber esta ao pé da cruz. Sente-se em contemplação silente por meia hora quando chegar em casa hoje; sente-se ao pé da cruz e contemple o Salvador que morre, e daí eu o desafio a dizer: “Duvido que ele me ame.” Olhar para Cristo gera fé. Você não pode crer em Cristo se não olhar para Ele; e, fazendo-o, você vai saber que ele pode salvar. Você conhecerá seu carinho, e não poderá mais duvidar depois de tê-lo visto. O Dr. Watts diz:

Se os povos vissem seu valor,
Reagiriam com amor.
Eu tenho certeza de que também podemos dizer assim:
Se os povos vissem seu valor,
Confiariam com fervor.

Olhe para Ele agora, e suas dúvidas logo serão dissipadas; não há nada que dissolve dúvidas e medo tão rápido como encontrar o olhar amoroso do Senhor morrendo na cruz.

“Oh!”, diz outro, “minhas dúvidas dizem respeito à minha salvação; não consigo ser tão santo quanto gostaria”. Outro diz: “tentei muito livrar-me dos meus pecados, e não tive sucesso; esforcei-me para viver sem pensamentos sujos e ações não santas, mas vejo que meu coração ainda é ‘desesperadamente corrupto’ e que se desviou de Deus. Com certeza não posso ser salvo nessa situação”. Pare! Olhe para Ele e seja iluminado. Quem disse que você deve estar olhando para si mesmo? A principal preocupação de um pecador não é consigo mesmo mas com Cristo. Nossa responsabilidade é ir à Cristo, doentes, cansados, desanimados, e pedir que Cristo nos cure. Você não deve ser seu próprio médico para só depois ir à Cristo, mas deve ir como está. A única esperança para você é confiar totalmente em Cristo, de modo simples, nu. Como eu gosto de dizer--- faça de Cristo a única base de apoio, e jamais tente apoiar-se em si mesmo. “Ele pode, Ele quer”. Tudo o que ele espera é que confie nEle. Quanto às suas obras, elas vêm depois. São fruto do Espírito. Sua responsabilidade não é fazer mas crer. Olhe para Jesus, confie somente nEle.

“Senhor”, exclama outro, “temo não sentir minha necessidade de um Salvador como deveria.”. novamente olhando para si! Tudo o que vocês estão vendo é porque olham para si. Tudo esta errado. Nossas duvidas e temores resultam disto—olhamos na direção errada. Simplesmente olhe para a cruz, como o pobre ladrão que estava morrendo. Ele disse: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino”. Faça a mesma coisa. Se você quiser, pode dizer-lhe que não sente necessidade dele como deveria; pode relacionar este entre seus outros pecados, o de temer não ter o senso correto da sua culpa grave e enorme. Pode acrescentar a todas as suas confissões este grito: “Senhor, ajuda-me a confessar melhor os meus pecados, ajuda-me a senti-los com mais contrição”. Lembre-se, contudo, que não é seu arrependimento que salva, exclusivamente o sangue de Jesus escorrendo das suas mãos, pés e lados. Oh! eu insto com você, por amor daquele de quem sou servo, a voltar os olhos esta manha para a cruz de Cristo. Ali Ele esta pendurado hoje; Ele foi levantado no meio de vocês. Assim como Moises levantou a serpente no deserto, o Filho do homem foi levantado diante de nossos olhos, para que todo aquele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

E vocês, filhos de Deus, volto-me para vocês porque também tem suas duvidas. Vocês querem se livrar delas? Quer alegrar-se no Senhor com fé firme e confiança inabalável? Então olhem para Jesus; olhem novamente para Ele e sejam iluminados. Não sei a situação em que cada um se encontra, meus amados amigos, mas sei que eu muitas vezes abrigo duvidas em minha mente. Para mim a questão parece ser se tenho amor por Cristo ou não. Apesar de alguns rirem do hino abaixo, eu sou obrigado a cantá-lo:

Há algo que eu quero saber,
Para a angustia desfazer:
Será que sou do meu Senhor?
Será que é Dele o meu amor?

Eu estou realmente convicto de que todo cristão às vezes tem dúvida e que as pessoas que não tem duvidas são exatamente as que deveriam tê-las, porque quem nunca tem duvidas quanto a sua situação talvez as tenha quando for tarde demais. Conheci um homem que disse não ter nenhuma duvida há trinta anos. “isto não é estranho?”, ele disse, pensando em merecer elogios. Eu respondi: “conheci um homem que durante trinta anos nunca teve duvidas a seu respeito. Ele sempre soube que você era o maior hipócrita que ele jamais conheceu; não tenha duvidas quanto a isso”. Este homem não tinha duvidas sobre si mesmo: e era filho dileto de Deus, favorito do altíssimo; amava a doutrina da eleição, tinha-a escrita na testa. Entretanto, ele era o chefe mais duro e o opressor dos pobres mais cruel que já encontrei e, quando ele mesmo ficou pobre, com freqüência pode ser visto rolando pela rua. Este homem durante trinta anos não teve duvida; as melhores pessoas, porem, sempre tem duvidas. Alguns que já estão à porta do céu têm medo de ainda serem jogados no inferno, enquanto os que estão adiantados na via expressa para o abismo não tem medo nenhum. Mais uma vez, porém, se você quer se livrar das suas duvidas, volte-se para Cristo. Você sabe que o dr Carey mandou colocar no seu epitáfio? Só estas palavras, que foram seu conforto:

Um verme fraco e sem razão,
Caio nos braços de Jesus.
Ele da força e retidão;
Nada mais quero---só Jesus.

Lembre-se do que um teólogo escocês famoso disse quando estava à morte. Alguém lhe tinha perguntado: “O que você está fazendo?”, ele respondeu: “Estou juntando todas as minhas boas obras e lançando-as ao mar; estou me agarrando à tábua da graça gratuita e espero flutuar com ela até a glória”. Faça você a mesma coisa. A cada dia fixe seus olhos só em Cristo. Enquanto seus olhos tiverem só este propósito, todo o seu corpo será cheio de luz. Se você, porém, olhar de esguelha para lado, primeiro para você depois para Cristo, todo seu corpo será cheio de escuridão. Lembre-se então, cristão, de ir para a cruz. Quando o grande cão medonho estiver atrás de você, fuja para a cruz! Vá aonde as ovelhas vão quando são pressionadas pelo cão: para o Pastor. O cão tem medo do cajado do pastor. Você não precisa ter medo dele, é uma das coisas que o confortarão: “O teu bordão e o teu cajado me consolam”.

III. agora convido vocês para uma cena gloriosa---a ressurreição de Cristo. Venham todos vocês, e veja como a antiga serpente o fere no calcanhar:

Ele morreu! Dos pecadores era amigo---
Choram as filhas de Jerusalém

Ele foi enrolado nos panos mortuários e colocado no túmulo, onde dormiu por três dias e três noites. No primeiro dia da semana, Ele, que não podia ser seguro pelos laços da morte e cuja carne não podia ver corrupção nem sua alma permanecer no Ades--- ele ressuscitou. Em vão os laços o tinham envolto; Ele desvencilhou-se deles e, com seu poder vivo, dobrou-os corretamente e os colocou no seu lugar. Em vão selaram a pedra; o anjo veio e rolou a pedra, e o Salvador saiu. Em vão puseram guardas e soldados; eles fugiram aterrorizados, e Ele ressurgiu, vitorioso sobre a morte---primícias dos que dormem. Com seu próprio poder e força Ele voltou à vida. Vejo em meio à minha congregação alguns com fitas pretas de luto. Alguns perderam os mais queridos dos parentes terrenos. Há outros aqui que eu sei que estão sobre o medo constante da morte. Vocês estão por toda a vida sujeito à escravidão, porque estão sempre pensando no sofrimento e na luta da morte que atinge todos os que se aproximam do rio Jordão. Venham, venham, eu insisto com vocês que choram e estão assustados---olhem para o Cristo ressurreto! Lembre-se da grande verdade; “De fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo Ele as primícias dos que dormem”. O verso do nosso Hino abrange tudo isso:

O pecado que há em nós requer
Que a carne vire pó;
Mas sei que vamos reviver
Com o nosso salvador.

Por isso,querida viúva, não chore mais por seu marido, se ele morreu em Jesus. Olhe para O mestre: Ele ressurgiu dos mortos, Ele não é um fantasma. Na presença de seus discípulos Ele comeu um pedaço de peixe assado e um favo de mel. Ele não é um fantasma, porque disse: “Apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem nem carne nem ossos, como vedes que eu tenho”. Sua ressurreição foi real. Amados, quando vocês choram, saibam que podem dominar a tristeza, porque seus amados reviverão. Não só em seus espíritos, mas com seus corpos.

A terra, vermes, podridão
A carne irão guardar;
Quando a trombeta der o tom
A iremos retomar.

Oh! não pense que o verme devorou seus filhos, amigos, marido, pai, avôs idosos---mesmo que pareça. O que é o verme senão o filtro pela qual nossa carne imunda precisa passar? Num piscar de olhos, quando soar a última trombeta, seremos ressuscitados incorruptíveis e os vivos serão transformados

Você verá aqueles que ha pouco fecharam os olhos, olhando para você, abraçando com as mãos que estavam imóveis, beijando com os lábios que estavam brancos como a cal, falando-lhe com a voz que estava muda no túmulo. Todos reviverão. E você que teme a morte --- por que ter medo de morrer? Jesus morreu antes de você, passou pelos portões de ferro na sua frente, e Ele virá ao seu encontro. Jesus, que vive, pode:

Tornar o leito de torpor
Macio como um cobertor.

Por que chorar? Jesus ressuscitou e o mesmo acontecerá conosco. Você não está perdido quando é colocado no túmulo; você é simplesmente uma semente que amadurecerá até o dia da colheita eterna. Seu espírito vai para Deus, seu corpo dorme por um tempo para ser reavivado para a vida eterna. Ele não pode ser reavivado se não morreu, e ao morrer não será destruído, mas receberá uma vida nova. “Olharam para Ele e foram iluminados”.

Com a maior brevidade possível, convido-o para olhar para Jesus subindo para o céu. Depois de quarenta dias Ele levou seus discípulos para o alto de um monte e, enquanto conversava com eles, derrepente começou a subir, foi separado deles e uma nuvem o recebeu na glória. Talvez me possa ser dada uma pequena liberdade poética, enquanto eu tento descrever o que aconteceu depois que Ele ascendeu até a nuvem. Os anjos vieram do céu

Vieram do alto céu lhe dar
Entrada triunfal
Bateram asas, a anunciar
Vitória sobre o mal.

Eu não duvido que, em marcha triunfal inigualável, ele ascendeu pelo monte de luz e chegou à cidade celestial. Quando se aproximou dos portões da grande metrópole do universo, os anjos exclamaram: “Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o rei da glória”. Os espíritos alvos de campos de batalhas ardentes perguntam: “Quem é o rei da glória? --- quem?” A resposta vem: “O Senhor forte e poderoso, O Senhor, poderoso nas batalhas. Ele é o rei da glória”. Em seguida a sua escolta e os que o esperam sobre os muros entoam juntos o cântico mais uma vez e, com um oceano explêndido de música arremessando suas ondas melodiosas sobre as portas do céu e forçando a entrada, ouve-se o estribilho: “Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos ó portais eternos, para que entre o rei da glória”--- e Ele entra. A seus pés, os exércitos lançam suas coroas, os que foram lavados com o seu sangue vem ao seu encontro, não espalhando rosas aos seus pés como nós fazemos com os conquistadores hoje em dia, mas espalhando flores imortais, grinaldas de honra que nunca irão murchar. Enquanto isso, de novo, de novo e de novo o céu ressoa com este hino: “Àquele que nos amou, nos lavou dos pecados com seu sangue e nos tornou reis e sacerdotes para Deus, seu pai --- a Ele seja a glória para todo o sempre”. E todos os santos e anjos dizem: “amém”.

Cristão, olhe para cá: aqui está o seu consolo; Jesus Cristo obteve a vitória e ascendeu ao seu trono de glória. Hoje você está lutando, debatendo-se com inimigos espirituais, não com carne e sangue mas com principados e potestades. Você está em guerra, e talvez o inimigo o tenha feito cair em angústia. Você está admirado por não ter voltado as costas na batalha, porque várias vezes você já teve medo de ter de fugir como um covarde. Você não precisa temer, seu mestre foi mais que vencedor e você também será. Está chegando o dia em que você também entrará pelos portais da bênção, com um esplendor inferior ao dEle mas na mesma medida. Quando você estiver morrendo os anjos o encontrarão no meio do caminho, e quando seu sangue estiver esfriando no rio gelado, seu coração estará esquentando em outro rio, um rio de luz e calor da grande fonte de alegria. Você estará do outro lado do Jordão, recebido pelos anjos em suas vestes imaculadas; eles cuidarão de você no alto do monte de luz, louvarão a Jesus e lhe darão as boas vindas como mais um troféu conquistado pelo seu poder. E quando você entrar pelas portas do céu, o próprio Cristo, seu mestre, virá ao seu encontro e dirá: “Muito bem, servo bom e fiel; entra no gozo do teu Senhor”. Você sentirá que está participando da sua vitória assim como antes tomou parte em suas lutas e em sua guerra. Continue lutando, cristão, se capitão glorioso obteve uma grande vitória e incluiu você nela. Seu estandarte nunca experimentou a derrota, apesar de estar bastante manchado com o sangue dos mártires.

Mais uma vez, “Olhem para Ele e sejam iluminados”. Vejam, Ele está assentado no céu. Ele levou cativo o cativeiro e agora está assentado à direita de Deus para sempre, intercedendo por nós. Você consegue vê-lo pela fé? como um sumo-sacerdote majestoso dos tempos antigos Ele estende as suas mãos. Seu olhar é soberano, pois Ele não é um mendigo desprezível e servil. Ele não bate no peito e olha para o chão, mas solicita com autoridade, entronizado em glória. Sobre a cabeça Ele tem uma mitra brilhante e clara do seu sacerdócio e, vejam, sobre o peito faíscam as pedras preciosas com os nomes dos seus eleitos gravados para sempre. Ouçam enquanto Ele intercede --- não é a oração que você fez, que ele está mencionando diante do trono? A oração desta manhã, feita antes de vir à casa de Deus, Cristo está oferecendo diante do trono do seu pai. A entrega que você fez quando disse: “Tem pena e misericórdia”. Ele está repetindo lá. Ele é o altar e o sacerdote, e com seu próprio sacrifício Ele perfuma nossas orações. Mesmo assim, várias vezes você deve ter orado sem resposta; pobre suplicante em lágrimas, você buscou o Senhor e Ele não o ouviu ou, pelo menos, não respondeu como a alma desejava. Você clamou, mas os céus estavam duros como metal, e sua oração ficou de fora. Você está cheio de escuridão e peso por causa disso: “Olhe para Ele e seja iluminado”. Se você não consegue chegar lá, Ele consegue; se a petição que você faz passa desapercebida, a dEle não irá; se a oração que você faz são como água derramadas sobre as pedras, que não pode ser ajuntadas de novo, as orações dEle não são assim. Ele é o filho de Deus; quando ele pede, é atendido; Deus nada pode recusar ao seu próprio filho, àquele que comprou a misericórdia com seu sangue. Tenha bom ânimo, continue a suplicar. “Olhe para Ele e seja iluminado”.

Em ultimo lugar, há alguns aqui cansados com os ruídos e clamores deste mundo e com as iniqüidades e os vícios. Você lutou a vida inteira para por um fim ao domínio do pecado, e parece que seus esforços não deram resultado. As colunas do inferno estão tão duras como sempre, e o palácio escuro do mal não foi feito em ruínas. Você levantou contra ele todos os aríetes da oração e todo o poder de Deus, você pensou --- mas o mundo continua pecando, seus rios estão tintos de sangue, suas praças ainda são profanadas com danças lascivas, seus ouvidos continuam poluídos com canções imundas e palavras chulas. Deus não é honrado, o ser humano continua vil, e talvez você diga: “Não vale a pena continuar lutando; tentamos uma tarefa que não pode ser realizada; os reinos deste mundo jamais se tornarão o reino do nosso Senhor e do seu Cristo”. Todavia, cristão, “olhe para Ele e seja iluminado”. Veja, ele vem, ele vem rapidamente. Aquilo que nós não pudemos fazer em seis mil anos, Ele pode fazer num instante. Veja! Ele vem, Ele vem reinar. Podemos tentar construir seu trono, mas não o conseguiremos. Porém quando Ele vier, Ele mesmo erguerá seu trono sobre pilares sólidos de luz, sentará e julgará Jerusalém rodeado de seus santos, em glória. Talvez Ele venha hoje, na hora em que estamos reunidos --- “a respeito do dia e da hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus”. Enquanto eu estou falando, Cristo Jesus pode aparecer nas nuvens da glória. Não precisamos fazer projeções quanto ao tempo em que ele vem pois ele virá como o ladrão na noite. Se ele vem ao cantar do galo, ao meio dia ou à meia noite, não nos é dado saber; isto está totalmente no escuro. As profecias humanas são inúteis. Ninguém sabe nada sobre isso, a não ser que é certo que Ele vem. Mas quando ele vem, nenhum espírito no céu ou na terra deve achar que sabe. Oh! é minha esperança jubilosa que Ele vem enquanto estou vivo. Talvez haja alguns de nós que permanecerão vivos até a vinda do filho do homem. Que esperança gloriosa! Talvez todos tenhamos que adormecer, mas todos seremos transformados. Ele pode vir agora, e estaremos para sempre com ele. Mas se você morrer, cristão, sua esperança é esta: “Voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que onde eu estou estejais vós também”. E esta é tua obrigação: “Ficai também vós apercebidos; porque, à hora em que não cuidais, o filho do homem virá”. Eu quero continuar trabalhando, porque Cristo está às portas! Quero trabalhar com empenho porque meu mestre está vindo, e sua recompensa com Ele, dando a cada um conforme suas obras. Não quero perder o ânimo em desespero, porque a trombeta já está soando. Parece-me que já ouço o som de marcha do exército conquistador; pode ser que neste instante os últimos heróis de Deus estão nascendo. A hora deste culto é a hora de voltar-se para a batalha; a luta tem sido renhida e o combate feroz, mas a trombeta do vencedor está pronta para soar, neste instante ele a está levando aos lábios. O primeiro toque já se ouviu sobre o mar, e havemos de ouvi-lo mais uma vez; se não o ouvirmos em nossos dias, ele ainda é a nossa esperança. Ele vem, ele vem e todo olho o verá. Aqueles que o crucificaram irão chorar e se lamentar diante dEle, mas os justos se regozijarão e o bendirão grandiosamente. “Olharam para ele e foram iluminados”.


Autor: Pr Charles Haddon Spurgeon
Extraído de: Spurgeon´s Sermons Fonte: www.obreiroaprovado.com

[Soteriologia] O PECADO DA INCREDULIDADE

AQUELE CAPITÃO RESPONDERA AO HOMEM DE DEUS: AINDA QUE O SENHOR FIZESSE JANELAS NO CÉU, PODERIA SUCEDER ISSO, SEGUNDO ESSA PALAVRA? DISSERA O PROFETA: EIS QUE TU O VERÁS COM OS TEUS OLHOS, PORÉM DISSO NÃO COMERÁS (2 RS 7:19)

Um homem sábio pode livrar uma cidade inteira; uma pessoa sábia pode trazer segurança para milhares de outras. Os santos são “o sal da terra”, o meio de preservação dos ímpios. Sem os crentes como conservante, a raça humana seria totalmente destruída.

Na cidade de Samaria havia um homem justo: Eliseu, servo do Senhor. Na corte do rei já não havia mais apreço pelas coisas de Deus. O rei era um pecador da pior espécie, sua iniqüidade era evidente e infame. Jeorão andava nos passos do seu pai Acabe e fez deuses falsos para si. O povo de Samaria caíra como seu monarca: tinham se desviado de Jeová, esquecido o Deus de Israel. Não lembravam mais da senha de Jacó: “o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor”; em idolatria flagrante eles se inclinavam diante dos ídolos dos pagãos. Por isso o Senhor dos Exércitos permitiu que seus inimigos os oprimissem até que a maldição do monte Ebal se cumpriu nas ruas de Samaria: “A mais mimosa das mulheres e a mais delicada do teu meio, que de mimo e delicadeza não tentaria por a planta do pé sobre a terra”, olharia com má intenção para seus filhos e devoraria seus descendentes por causa da fome atroz. Nesta situação extremamente terrível o único homem santo foi o meio de salvação. Um único grão de sal preservou uma cidade inteira, o único guerreiro de Deus libertou toda uma multidão sitiada. Por amor de Eliseu o Senhor prometeu que no dia seguinte haveria comida, que já não havia mais por preço nenhum, para ser comprada pelo preço mais baixo possível, às próprias portas de Samaria. Podemos imaginar o júbilo da multidão quando o vidente pronunciou sua predição. Eles sabiam que ele era um profeta do Senhor. Ele tinha credenciais divinas, todas as suas profecias tinham se cumprido. Eles sabiam que ele era um homem enviado por Deus, que trazia a mensagem de Jeová. Certamente os olhos do monarca brilharam de prazer e a multidão faminta saltou de alegria com a perspectiva da libertação breve da fome. “Amanhã”, eles devem ter gritado, “amanhã nossa fome terá acabado, e teremos festa a mais não poder!”.

Entretanto, o ajudante sobre o qual o rei se apoiava expressou sua descrença. Não nos é dito se alguém do povo, dos plebeus, disse algo assim, mas alguém da elite sim. É estranho que Deus raramente escolhe pessoas importantes deste mundo. Lugares altos e fé em Cristo raras vezes combinam. Este homem disse: “Impossível!” E, com um insulto para o profeta, acrescentou: “ainda que o Senhor fizesse janelas no céu, poderia suceder isso?” seu pecado consistiu em depois de ver evidências repetidas do ministério de Eliseu, ainda não crer nas afirmações que o profeta fazia em nome de Deus. Com certeza ele tinha visto a derrota esplendida de Moabe; tinha ficado perplexo com a notícia da ressurreição do filho da sunamita; sabia que Eliseu tinha revelado os segredos de Bem-Hadade e tornado cegas suas hordas de assaltantes; ele vira o exército da Síria ser preso no centro de Samaria, e provavelmente sabia a historia da viúva que encheu todas as vasilhas com azeite e libertou seus filhos. Em todos os casos, a cura de Naamã era assunto de conversa comum na corte; mesmo em face de toda essa evidencia, nas barbas de todas essas credenciais da missão do profeta, ele duvidou e o insultou, dizendo que o céu precisava abrir-se inteiro antes que a promessa se cumprisse. Em resposta DEUS pronunciou sua condenação pela boca do homem que recém pronunciara a promessa: “Tu o verás com os teus olhos, porém disso não comeras.” A Providencia – que sempre cumpre as profecias, assim como o papel registra a impressão das letras destruiu o homem. Pisoteado nas ruas de Samaria, ele morreu à porta, ainda vendo a abundancia mas sem chegar a prová-la. Talvez seu procedimento fosse arrogante e insultuoso para o povo, ou ele tentasse controlar a correria desenfreada deles; ou, poderíamos dizer, foi por mero acidente que ele foi pisoteado; assim ele viu a profecia se cumprir, mas não viveu para alegrar-se nela. Neste caso, ver foi crer, mas não foi prazer.

Hoje quero manhã quero convidar a atenção de vocês para duas coisas: o pecado e o castigo deste homem. Talvez eu diga pouco do homem, pois já descrevi as circunstancia, mas discurse sobre o pecado da descrença e seu castigo.

Primeiro, o pecado, Seu pecado foi incredulidade. Ele duvidou da promessa de Deus. Neste caso particular a descrença tomou a forma da dúvida da veracidade divina, ou de desconfiança do poder de Deus. Ou ele duvidou que Deus realmente queria dizer o que disse, ou que estava dentro do alcance que Deus cumprisse sua promessa. A incredulidade tem mais fases que a lua e mais cores que um camaleão. As pessoas comuns dizem que o Diabo pode ser visto as vezes com uma forma e outras vezes com outra. Eu tenho certeza que isso também vale para o primogênito de satanás, a descrença, porque ela tem uma legião de formas. A um tempo eu vejo a descrença vestida como um anjo de luz. Ela chama a si mesma de humildade, e diz: “não quero ser presunçosa; não me atrevo a dizer que Deus me perdoará. Sou um pecador ruim demais”. Chamamos isso de humildade, e agradecemos à Deus que nosso amigo apresenta uma atitude tão boa. Eu não agradeço à Deus por um engano tão próprio como esse. É o Diabo vestido como anjo de luz; no fim das contas, é incredulidade.

Outras vezes detectamos a incredulidade sob a forma de dúvida sobre a imutabilidade de Deus: “O Senhor me amou, mas talvez amanhã Ele me rejeite. Ele me ajudou ontem, e sob a sombra de suas asas eu estou seguro; mas talvez eu não receba ajuda na próxima aflição. Talvez Ele me expulse; “Ele pode ter esquecido da sua aliança e deixar de ser gracioso”. As vezes esta infidelidade esta incluída numa dúvida quanto ao poder de Deus. Sofremos pressões novas a cada dia, somos envolvidos em nossas dificuldades, e pensamos: “Com certeza o Senhor não pode nos livrar dessa”. Nos esforçamos para aliviarmos nosso fardo e, ao vermos que não o conseguimos, achamos que o braço de Deus e tão curto como o nosso e que o seu poder é tão pequeno como a força humana. Uma forma temível de descrença é a duvida que evita que as pessoas venham a Cristo, que leva o pecador a não confiar na capacidade de Cristo de salvá-lo, a duvidar da disposição de Jesus de aceitar um transgressor tão grande. Infidelidade, deismo e ateísmo são os frutos maduros desta arvore perniciosa; são as erupções mais terríveis do vulcão da descrença.

Estou perplexo, e tenho certeza que você também ficara, se eu lhe disser que há algumas pessoas estranhas neste mundo, que não crêem que a incredulidade é pecado. Devo chamá-las de pessoas estranhas porque sua fé é saudável em todos os outros aspectos; só para serem coerentes em seus artigos de fé, no seu modo de ver, eles negam que a descrença seja pecado. Lembro-me de um jovem que se aproximou de um grupo de amigos e pastores que discutiam se era pecado quando alguém não cria no evangelho. Depois de ouvir por algum tempo, ele disse:

--- Senhores, estou na presença de cristãos? Vocês crêem na bíblia, por acaso?

--- E claro que somos cristãos --- responderam eles.

--- Mas então, não diz a escritura: “Do pecado, porque não crêem em mim?” Não é este o pecado que condena os pecadores, de que não crêem em Cristo?

Eu não teria imaginado que alguém pudesse ser tão tolo a ponto de se aventurar a afirmar que “não é pecado quando um pecador não crê em Cristo”. Eu pensava que, por mais vazão que quisesse dar a seus sentimentos, eles não iria contar uma mentira para reter a verdade; na minha opinião é exatamente isso que pessoas assim estão fazendo. A verdade é uma torre forte e não precisa ser reforçada com erros. A palavra de Deus vai prevalecer sobre todas as artimanhas dos homens. Eu jamais inventaria um sofisma para provar que não é pecado quando o descrente não crê, porque tenho certeza de que é, depois que a bíblia me ensina que “o julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz”, e quando leio que “o que não crê já esta julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus”. Eu o afirmo, e a palavra o declara, incredulidade é pecado. É obvio que pessoas racionais e sem preconceitos não precisam de argumentos que provem isso. Não é claro que é pecado quando a criatura duvida da palavra do seu criador? Não é crime é um insulto contra a Divindade quando eu, um átomo, um grão de pó, me atrevo a negar suas palavras? Não é o cúmulo da arrogância e o extremo do orgulho quando um filho de Adão diz, nem que seja em seu coração: “Deus, eu duvido da tua graça; Deus, eu duvido do teu amor; Deus, eu duvido do teu poder?” Oh, senhores creiam em mim, se vocês pudessem juntar todos os pecados numa só massa, se pudessem tomar assassinato, blasfêmia, lascívia, adultério, fornicação e tudo que é maligno e unir tudo num conjunto imenso de corrupção horrenda, nem isso se compararia com o pecado da descrença. Esse é o pecado principal, a quintessência da culpa, a mistura do veneno de todos os crimes, a escória do vinho de Gomorra; é o pecado A-1, a obra prima de Satanás, o principal feito do diabo.

Tentarei esta neste pequeno espaço mostrar a natureza extremamente má do pecado da incredulidade.

Em primeiro lugar, ficará evidente como o pecado da incredulidade é terrível quando lembramos que ele é o pai de toda outra iniqüidade. Não há crime que a descrença não possa conceber. A meu ver a queda do homem foi em boa parte devida a ele: foi neste ponto que o diabo tentou Eva. Ele lhe disse: “E assim que Deus disse: não comereis de toda árvore do jardim?” Ele sussurrou e insinuou uma dúvida: “foi isto que Deus disse?” É como se ele dissesse: “Você tem certeza?” Foi por meio da incredulidade --- Este fio estreito da lâmina ___ que o outro pecado entrou. A curiosidade e o resto seguiram. Ela tocou na fruta, e a destruição entrou no mundo. Desde aquele dia a incredulidade tem sido o pai prolífico de todo tipo de culpa. Um descrente é capaz do crime mais vil que jamais foi cometido. A descrença, senhores! Ela endureceu o coração do faraó, tornou atrevida a língua blasfema de Rabsaqué, sim, tornou-se deicida e assassinou Jesus.
Incredulidade! Ela tem afiada a faca do suicídio, misturado mais de um copo com veneno, levado milhares à forca e outros tantos a um tumulo infame, pessoas que mataram a si mesmas e se apresentaram com mãos sangrentas no tribunal do seu criador por causa da descrença. Tragam-me um descrente; digam-me que ele duvida da palavra de Deus, que não conta com suas promessas nem com suas ameaças; com essa premissa eu concluirei que, se ele não for restringido por um poder muito forte, ele se tornará culpado dos crimes mais horrendos e infames.

Deixem-me acrescentar aqui que a incredulidade no cristão é da mesma natureza que a descrença no pecador. O fim não será o mesmo, porque no cristão ela será perdoada; já esta perdoada. Foi colocada sobre o antigo bode expiatório; foi apagada e expiada; mas tem a mesma natureza de pecado. Na verdade, se existe um pecado mais hediondo do que a incredulidade de um pecador, é a incredulidade de um santo. Porque um santo que duvida da palavra de Deus, que não confia em Deus mesmo com incontáveis demonstrações do seu amor, com milhares de provas de sua misericórdia, supera tudo. Além disso, em um santo a descrença é raiz de outros pecados. Quem é perfeito na fé, é perfeito em tudo mais.

Em segundo lugar, a incredulidade não só gera, mas também promove o pecado. Como é que as pessoas conseguem continuar no pecado mesmo sob o trovão do Sinai? Como é possível que, quando Boanerges está no púlpito e exclama pela graça de Deus: “Maldito todo aquele que não guarda todos os mandamentos da lei”, e o pecador ouve as advertências tremendas da justiça de Deus, ele endurece ainda mais e avança em seus caminhos maus? Eu lhes direi: A incredulidade nas ameaças impede que elas tenham qualquer efeito sobre eles. O diabo dá descrença ao ímpio; assim ele estabelece uma barreira e se refugia atrás dela. Ó pecadores! No dia em que o Espírito Santo derrubar sua descrença, quando comprovar a verdade com poder, como a lei atuará sobre sua alma! Se o homem não acredita que a lei é santa, que os mandamentos são santos justos e bons, como ficará abalado diante da boca aberta do inferno! Não haveria mais ninguém a vontade ou dormindo na casa de Deus, nem ouvintes descuidados, ninguém que fosse embora para logo esquecer que tipo de pessoas somos. Digo mais uma vez: como pode ser que as pessoas ouvem o chamado da cruz do calvário e não vem a Cristo? Como pode ser que pregamos sobre os sofrimentos de Cristo Jesus e terminamos dizendo: “Ainda há lugar”, que falamos sobre sua cruz e paixão, e as pessoas não ficam contritas em seus corações? O relato da cruz do calvário é suficiente para partir uma rocha. As rochas se despedaçaram quando viram Jesus morrer. O relato da tragédia do Gólgota é suficiente para fazer uma pedreira jorrar lágrimas e o patife mais endurecido chorar seus olhos em amor penitente. Mas a vocês eu conto, e repito, mas quem chora por ela? Quem se importa? Senhores, vocês estão sentados tão despreocupados como se não fosse com vocês. Oh! Olhem e vejam, todos que estão passando. A morte de Jesus não diz nada para vocês? Vocês parecem dizer: “não é nada”. Qual é o motivo? Há incredulidade entre vocês e a cruz.

Há ainda um terceiro ponto. A incredulidade torna a pessoa incapaz de fazer qualquer coisa boa. “Tudo o que não provém da fé é pecado” é uma verdade muito importante, em mais de um sentido. “Sem fé é impossível agradar à Deus”. Você nunca me ouvirá dizer uma palavra contra a moralidade; você nunca me ouvirá dizendo que a honestidade não é uma coisa boa, ou a sobriedade; pelo contrário, digo que são coisas recomendáveis, mas vou dizer-lhes o que falo depois: elas são como o dinheiro da Índia; ele pode ser moeda corrente entre os indianos, mas não aqui. Essas virtudes podem ser comuns aqui em baixo, mas não lá em cima. Se você não tem nada melhor que sua própria bondade, você nunca irá para o céu. Algumas tribos da Índia usam pequenas tiras de pano em vez de dinheiro. Eu não teria problemas com isso para morar entre eles, mas aqui tiras de pano não me servem para muita coisa. Desta forma, honestidade, sobriedade e coisas assim podem ser muito boas entre as pessoas, e quanto mais tiver delas, melhor. Eu os exorto a que tenham o que é amável, puro e de boa fama; mas elas não lhe servirão lá em cima. Nem todas essas coisas juntas, sem fé, agradam à Deus. Virtudes sem fé são pecados lavados. Obediência sem fé, se é que ela é possível, é desobediência disfarçada. Não crer anula tudo. É como a mosca no perfume, o veneno na panela.

Certo homem tinha um filho possesso e afligido por um espírito mau. Jesus estava no monte Tabor, transfigurado; assim, o pai trouxe seu filho aos discípulos. O que esses discípulos fizeram? Eles disseram: “Bem, nós o expulsaremos”. Puseram as mãos sobre ele e tentaram, mas cochicharam entre si: “Temos medo de não conseguir”. Logo o moço começou a espumar pela boca, arranhar a terra e bater-se em seu ataque. O demônio dentro dele se manifestou, e não saiu. Em vão eles repetiam o exorcismo, o espírito imundo ficou como um leão em sua toca, e os esforços deles não o desalojaram. Eles diziam: “Sai”, mas ele não saia. “Vá para o abismo!” eles gritavam, mas ele estava irredutível. Lábios incrédulos não assustam o maligno, que pode bem ter dito: “A fé eu conheço, Jesus eu conheço, mas quem são vocês? Vocês não têm fé”. Se tivessem fé do tamanho de um grão de mostarda, eles teriam expulsado o demônio; mas sua fé tinha ido embora, e por isso não podiam fazer nada.

Veja também o caso do pobre Pedro. Enquanto teve fé, ele andou sobre as ondas agitadas do lago. Foi um passeio explêndido; eu quase o vejo, andando sobre o lago. Se Pedro continuasse tendo fé, teria andando por sobre o Atlântico até a América. Mas ai veio uma onda por traz dele, e ele disse: “Essa vai me levar”. Depois veio outra da frente, e ele gritou: “essa vai me afundar” Então ele pensou: “Como pude ser tão presunçoso e achar que poderia andar por cima dessas ondas”? e lá se foi ele para o fundo. A fé era sua bóia salva-vidas; a fé era seu amuleto, que o mantinha a tona, mas a incredulidade o mandou para o fundo. Você sabia que você e eu, por toda nossa vida, teremos de andar por sobre a água? A vida do cristão é sempre andar sobre a água – a minha é – e cada onda quer engoli-lo e devorá-lo, mas a fé o mantém à tona. No momento em que você para de crer, o desânimo se faz presente, e lá vai você para baixo. Porque você duvida, então?

Nossa próxima constatação é que a incredulidade é punida com severidade. Abra as escrituras! Vejo uns mundos justos e belos, as montanhas sorrindo no sol e os campos alegrando-se na luz dourada. Vejo moças dançando e rapazes cantando. Que visão bela! Mas oh! Um Senhor respeitável e sério levanta sua voz e exclama: “Vem aí um dilúvio inundar a terra. As fontes das profundezas serão escancaradas, e todas as coisas serão cobertas. Vejam esta arca! Trabalhei cento e vinte anos para construí-la; fujam para ela, e vocês serão salvos”. “Ora, homem velho, vá embora com suas predições vazias! Estejamos alegres enquanto podemos. Quando vier o dilúvio, construiremos uma arca; só que não vem nenhum dilúvio. Diga o que quiser aos tolos; nós não cremos nessas coisas”. Veja os incrédulos andar atrás de suas danças alegres. Ouça, incrédulo! Você não ouviu a voz do trovão? Os intestinos da terra começaram a se mover, as costelas de pedra se sentem pressionadas por convulsões de dentro. Veja! Elas irrompem com força incrível de dentro da terra, torrentes desconhecidas desde que Deus as ocultou no interior do nosso mundo. O céu se parte ao meio! Chove. Não são gotas, mas nuvens inteiras que vem abaixo. Uma catarata como o velho Niágara desce do céu com um estrondo terrível. Os dois firmamentos, as duas profundezas – a de cima e a de baixo – se dão as mãos. E agora incrédulo, onde estás? Lá estão os últimos sobreviventes. Um homem – a esposa o abraça pela cintura – está de pé no último cume de montanha que ainda não está coberta pela água. Olhe agora! A água já atingiu sua cintura. Ouça seu último grito! Ele agora flutua – submergiu. Noé olha da arca e não vê mais Nada! Só um grande vazio. “Monstros marinhos se instalam e procriam nos palácios dos reis”. Tudo estão derrubados, cobertos, afogados. O que fez isto? O que trouxe o dilúvio sobre a terra? A incredulidade. Pela fé Noé escapou ao dilúvio. Pela descrença o resto foi afogado.

Você não sabe que a incredulidade impediu Moisés e Arão de entrar em Canaã? Eles não honraram à Deus: bateram na rocha quando deveriam ter falado com ela. Eles não creram, e por isso o castigo veio sobre eles, de modo que não herdaram a boa terra pela qual trabalharam e se esforçaram.

Deixem-me levá-los para onde Moises e Arão moraram – o grande deserto. Vamos andar um pouco por ele; com os pés cansados, nos tornaremos como os beduínos andarilhos, que vagueiam pelo deserto. Ali há um esqueleto esbranquiçado no sol; lá mais um, e acolá um outro. O que significam esses ossos secos? Quem são esses corpos – ali um homem, lá uma mulher? Quem são todos esses? Como esses cadáveres foram parar aqui? Certamente deve ter havido aqui um grande acampamento, destruído numa noite por uma explosão, ou por um ataque. Ah, não. Esses ossos são os ossos de Israel; os esqueletos são as antigas tribos de Jacó. Não puderam entrar na terra por causa da incredulidade. Não confiaram em Deus. Os espias disseram que eles não conseguiriam conquistar a terra. A incredulidade foi a causa da morte deles. Não foram os Anaquins que destruíram Israel, não foi o deserto uivante que os engoliu. O Jordão não os impediu de entrar em Canaã, não foram os Heveus, e os jebuseus que os mataram; foi somente a incredulidade que os manteve fora de Canaã. Que maldição foi pronunciada sobre Israel depois de quarenta anos de peregrinação: não puderam entrar porque não creram!

Por último, quero dizer que você reconhecerá a natureza hedionda do pecado nisso – este é o pecado que condena. Existe um pecado pelo qual Cristo não morreu: o pecado contra o Espírito Santo. Você pode mencionar qualquer crime na lista do mal, e eu lhes mostrarei pessoas que receberam perdão por eles. Mas pergunte-me se a pessoa que morreu descrente pode ser salva, e eu respondo que não há expiação para essa pessoa. Ha expiação pela descrença de um cristão, porque é temporária; mas a incredulidade final – a descrença pela qual as pessoas morrem – não foi expiada.

Isto nos leva a concluir com o castigo. “Tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás”. Ouçam, incrédulos! Vocês ouviram aqui os seus pecados; agora ouçam suas conseqüências: “Tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás”. Isso acontece com muita freqüência com os próprios santos de Deus. Quando eles não crêem, eles vêem a misericórdia, mas não podem comê-la. Há trigo na terra do Egito; mas há santos de Deus que vem no dia do descanso e dizem: “Bem, o evangelho esta sendo pregado, mas não sei se será bem sucedido”. Estão sempre duvidando e temendo. Ouça o que dizem quando saem do culto: “você recebeu uma boa refeição hoje?” “Não havia nada para mim”.é claro que não você pode vê-lo mas não comeu porque não teve fé. Se tivesse vindo com fé, você teria recebido sua porção. Tenho visto cristãos que cresceram tão críticos que, se a porção de carne que tem para receber não lhes é trazida bem cortada sobre um prato especial de porcelana, eles não a comem. Estes têm de sair sem nada, e ficar sem nada ate ficarem com apetite. Terão aflições que agirão sobre eles como quinino; serão forçados a comer com um gosto amargo na boca; serão colocados na prisão por um ou dois dias até que seu apetite volte, e então ficarão contentes por comer a comida mais simples, do prato mais comum, ou sem prato nenhum. Mas a verdadeira razão porque o povo de Deus não se alimenta é porque não tem fé.

Deixe-me aplicar isso principalmente aos não convertidos. Muitas vezes eles vêem grandes obras de Deus acontecerem diante dos seus olhos, mas não comem delas. Uma multidão veio aqui hoje para ver, mas tenho minhas dúvidas se todos vão comer. As pessoas não podem comer com os olhos; se pudessem, muitas estariam bem alimentadas. Espiritualmente, as pessoas não podem alimentar-se simplesmente com os ouvidos, nem olhando para o pregador; assim, constatamos que as pessoas vêm somente para ver:” Bem, ouçamos o que este tagarela tem a dizer, este caniço balançado pelo vento”. Entretanto, eles não têm fé; eles vêm, e vêem, e vêem, mas nunca comem. Aqui na frente há um que se converte; ali há outro que é chamado pela graça soberana; algum pobre pecador está chorando sob o peso de um senso de culpa de sangue; outro está clamando pela misericórdia de Deus, e ainda outro está dizendo: “Tem misericórdia de mim, pecador”. Há uma grande obra em andamento neste lugar de cultos, mas alguns de vocês não têm nenhuma noção do que está acontecendo; não há obra em andamento no coração de vocês, e porque? Porque vocês acham que isto é impossível; vocês acham que Deus não age. Ele não prometeu trabalhar por vocês que não o honram. A incredulidade faz com que vocês fiquem sentados em tempo de reavivamento e derramamento da graça de Deus, sem serem tocados, sem serem chamados, sem serem salvos.

Todavia senhores, o pior cumprimento dessa maldição ainda está por vir! O bom Whitfield às vezes levantava as duas mãos e gritava da forma como eu gostaria de gritar, mas a voz me falha: “A ira vem! A ira vem!” Não é a ira de hoje que vocês devem temer, mas a ira que vem; vem a maldição, quando vocês “o verão com os olhos, porém disso não comerão”. É como se eu visse o último e grande dia. A última hora do tempo já soou. Ouvi o sino tocar suas badaladas fúnebres – o tempo se foi, a eternidade começou; o mar está revolto, as ondas estão iluminadas por um resplendor sobrenatural. Vejo um arco-íres – uma nuvem que vem voando, e sobre ela um trono, e sentado nele um parecido com O Filho do Homem. Eu o conheço. Diante dele estão os livros, o livro da vida, o livro da morte, o livro dos registros. Vejo seu esplendor, e me encho de júbilo; contemplo sua aparência pomposa, e sorrio de felicidade que “Ele veio para ser admirado por todos os seus santos”. No entanto, também vejo uma fila de vilões miseráveis, rastejando horrorizados tentando se esconder, mas mesmo assim olhando, porque seus olhos têm de contemplar aquele a quem traspassaram; porém, quando olham, eles gritam: “oculta-me da face”. Que face? “rochas, ocultem-nos da face”. Que face? “A face de Jesus, o homem que morreu, mas que agora veio julgar”.

Para concluir: parece que vejo você em algum lugar do inferno, acorrentado a uma rocha, o urubu do remorso estraçalhando o seu coração; e lá encima está Lázaro, ao lado de Abraão. Você levanta os olhos e vê isto: “Este é o pobre que estava jogado ao lado do meu monte de lixo, de quem os cães lambiam as feridas; ele está lá no céu, enquanto eu estou cá embaixo. Lázaro – sim, é Lazaro; e eu, que era rico no mundo do tempo, estou aqui no inferno. Pai Abraão, diga a Lázaro que molhe a ponta do dedo na água para refrescar minha língua”. Não! Não pode ser, não é possível. Enquanto você está deitado ali, se houver no inferno uma coisa pior que as outras, será ver os santos no céu. Oh, pensar em ver minha mãe no céu enquanto eu fui expulso! Ó pecador, pense, ver seu irmão no céu – aquele que foi ninado no mesmo berço e brincou debaixo da mesma árvore – enquanto você está fora. Marido, lá está sua esposa no céu, e você está entre os condenados. E veja você pai! Seu filho está diante do trono, e você! Maldito por Deus e pelas pessoas, está no inferno. Sim, o inferno dos infernos será ver nossos amigos no céu e nós perdidos. Eu lhes imploro, meus ouvintes, pela morte de Cristo – por sua agonia e suor de sangue, por sua cruz e paixão, por tudo o que é santo, por tudo o que é sagrado no céu e na terra, por tudo o que é solene no tempo e na eternidade, por tudo o que há de horrível no inferno e de glorioso no céu, por esta palavra terrível “para sempre” --- eu lhes imploro que levem essas coisas a sério e se lembrem de que, se forem condenados, será por causa da incredulidade. Se se perderem, será porque não creram em Cristo; se perecerem, esta será a gota mais amarga do fel --- não ter confiado no Salvador.


Autor: Pr Charles Haddon Spurgeon
Extraído de: Spurgeon´s Sermons Fonte: www.obreiroaprovado.com

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