sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Esboço para pregação - CRISTO CONTINUA NO BARCO - Mateus 8.23-27

Leitura Complementar: Salmo 124

"Jesus entrou no barco e seus discípulos o seguiram". Este é um quadro que deveríamos gravar bem em nossa memória: Jesus entrando num barco, e seus discípulos o seguindo. É um quadro tão importante como o outro, mais conhecido, o do bom pastor seguido por suas ovelhas. Talvez pensemos: Que quadro bom e confortador, aquele! Parece imagem da igreja - como, de fato, a igreja muitas vezes tem sido representada: um barco com as velas infladas pelo vento, navegando pelas ondas. Aquele barco parece uma verdadeira arca de salvação: só Jesus e seus discípulos estão dentro dele. Eles deixaram os descrentes na margem do lago. Os indecisos ficaram para trás. Ainda há pouco, Jesus tinha dito a um escriba (isto é, a um estudante do Antigo Testamento) que queria segui-lo: "As raposas têm seus covis e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça". A outro, seu discípulo, que lhe tinha pedido a permissão "para ir sepultar seu pai", o Mestre tinha respondido: "Segue-me e deixa os mortos sepultar os seus mortos". Assim, de forma dura, se tinha feito a separação entre o trigo e a palha. Quem não estava realmente disposto a seguir Jesus, levando a sua cruz, participando das lutas e das contrariedades do discipulado, esse já tinha desistido.

Agora estes doze homens que tinham deixado tudo para seguirem Jesus se acham reunidos com seu Mestre. Não há ninguém mais no barco. Que viajem boa, aquela! Que segurança, naquela pequena comunidade, reunida naquela arca de salvação! E ainda por cima eles eram homens do mar! Eram pescadores. Encontravam-se em seu elemento: barco, mastro, velas, remos, ora, eles sabiam manejar aquilo. Sabiam remar, sabiam ajustar o leme, que fazia o barco ir na direção certa. E o vento? Não era problema. O vento eles sabiam manejar também. Ele servia para impulsionar o barco: vento bom, aquele, que lhes poupava o serviço de remar. Jesus? Ora, ele estava descansando. Bem merecia este repouso. Mas não havia problema. Ele parecia nem fazer falta. Os discípulos se viravam muito bem sozinhos. Nesta questão de navegar, de dirigir um barco, eles tinham tido sua experiência, muito antes de se encontrar com Jesus. Esta experiência era que valia agora. Eles iam levando Jesus como passageiro, e o levariam são e salvo para a outra margem!

Dissemos há pouco que aquele barco parece uma imagem da igreja. Parece uma igreja onde tudo funciona bem. Os cristãos cumprindo as sua tarefas. Cada um agindo conforme os seus dons: pregar, ensinar, administrar, organizar, dirigir: que coisa bela! O barco da igreja, indo para frente, tudo bem organizado, os pastores sendo bem preparados, os leigos ativados, ocupando seus postos. Os descrentes se admiram: a igreja funciona mesmo! Que coisa impressionante! Um barco que segue seu rumo, que tem um destino certo. O tempo é bom, a vida cristã parece risonha, parece rotina. Oração de manhã, oração de noite, oração nas refeições. Culto aos domingos. Ensaio de coro, estudos bíblicos. Cursos de liderança, retiros espirituais. Reuniões de senhoras, de jovens. Cristãos preparados, treinados, gente competente e alerta.

E, de repente, todo aquele quadro se modifica. Vem a tempestade que põe em dúvida toda aquela vida rotineira da igreja, tão bem organizada, tão pacífica e segura: "Eis que sobreveio no mar uma grande tempestade, de sorte que o barco era varrido pelas ondas. Entretanto Jesus dormia".

Alguma coisa parece errada, aí! Como é que Deus pode permitir isso? Ele está pondo em dúvida a capacidade dos discípulos; está permitindo que se levante um vento forte demais para aquele barco frágil. Esta tempestade não se deixa mais controlar! As ondas vão por cima do barco. Os discípulos ficam confundidos. Aquele barco tão seguro deles está sendo jogado para cá e para lá! Está fazendo água! Ele vai afundar, e eles todos vão afundar com o barco! E Jesus, onde está? Ele está dormindo, como se não houvesse nada...

Como é fácil crer quando o tempo é bom, quando o barco vai cortando as ondas, impelido por uma brisa agradável! Como é fácil crer quando estamos com saúde, quando na família não há problemas, quando os negócios vão bem, quando Deus parece abençoar tudo o que fazemos, evidentemente concordando com tudo. Que Deus bom! O Senhor é meu pastor, nada me faltará!

Como é fácil viver numa comunidade bem organizada, com membros bem orientados, em dia com seus deveres, ativos e cheios de boa vontade! Uma comunidade que vive em paz e harmonia. Uma comunidade que está sendo respeitada pela sociedade, pelo governo, pelo mundo. O que é que pode falhar aí? Nós não estamos no caminho certo? Não temos nossa confissão, não temos o catecismo, não temos a Bíblia? Não temos uma liderança capaz e experiente?

E, de repente, Deus nos deixa confundidos e angustiados. Surgem as contrariedades. Uma doença repentina. Um acidente. Um problema na família. A comunidade entra numa crise. Nada mais parece funcionar. Onde estão os líderes? Onde estão os entendidos, os sabidos, que sempre souberam dar um jeito em todos os problemas? Eles estão aí, ocupando os seus cargos. Mas a gente nota que o barco vai fazendo água. E é aí que uma dúvida horrível toma conta de nós: será que vamos dar conta do recado? Será que nossa vida pacífica e bem organizada, que levamos até hoje, não foi uma experiência enganadora? Será que nossa certeza de salvação não foi um sonho, que se vai desmanchando agora, à luz da dura realidade? E nós olhamos ao nosso redor, olhamos para nós mesmos. E é aí que o medo se avulta. Olhando a situação com realismo, não nos resta outra saída, a não ser a de confessarmos: Nós vamos afundar! Jesus! Onde ele está? Ele não se manifesta! Parece que nem está ligando para a nossa angústia. Jesus parece estar dormindo, desinteressado do destino de seus discípulos!

Sim, de repente começamos a lembrar-nos de Jesus. Nós, os entendidos. Os peritos. Onde está ele? Antes, nem tínhamos sentido a falta de Jesus. Antes, nós estávamos dirigindo o barco, ajustando as velas, controlando o leme. Agora, no meio da tempestade, nos lembramos que já há algum tempo não temos conversado mais com Jesus. Nós estávamos organizando a nossa vida, contentes porque ele não interferia. Cristãos satisfeitos, por não serem incomodados por um Senhor, cuja vontade nem sempre era igual à deles. A tempestade revela a nossa verdadeira situação perante Deus. Aí é que não dá mais para esconder nada. Não adianta mais dizer que a gente crê, se a dúvida nos aperta o coração. Que fazer em tal situação de crise? Apelar ao pessoal da igreja para dar tudo de si? Entregar-se ao pânico e saltar fora do barco? Vejamos o que os discípulos fizeram, e talvez fiquemos compreendendo, ao menos um pouco, por que Deus permite aquelas tempestades em nossa vida particular, em nossa igreja e no mundo descrente:

"Mas os discípulos vieram acordá-lo, clamando: Senhor, salva-nos! Perecemos!" Acordar Jesus: parece uma coisa que não tem cabimento. Por que Jesus não acorda por si? Por que ele não interfere, protegendo a sua igreja, poupando-lhe aquela experiência dolorosa e angustiante?

Saiba você, caro leitor, caro ouvinte: Jesus faz isso por causa de nós. Nós precisamos sentir e experimentar na própria carne que não somos nós os que governamos nossa vida. Precisamos experimentar, na angústia e no desespero, que necessitamos de um Salvador. E este Salvador quer ser "acordado". Ele não se impõe, ele não nos salva contra a nossa vontade. A gente só consegue compreender realmente o evangelho, no momento em que se convence de uma coisa: sem Jesus nós vamos afundando. Esta experiência, Deus não a pode poupar a nós. Ele não nos pode dispensar desta dolorosa aprendizagem: "A minha força nada faz, sozinho estou perdido". Se nesta situação clamarmos pelo Salvador, se corrermos para acordá-lo, clamando "Senhor, salva-nos! Perecemos!", então temos aprendido a lição. Os discípulos o experimentaram: "Acudiu-lhes, então, Jesus: Por que sois tímidos, homens de pouca fé? E levantando-se, repreendeu os ventos e o mar; e fez-se grande bonança".

Que nos impede de clamarmos por Jesus, ao notarmos que não conseguiremos enfrentar a tempestade sozinhos? Nem a tempestade de nosso dia-a-dia, nem a última tempestade, a da morte? Será que é nosso orgulho que nos impede, ou será que é a nossa teimosia, ou nossa falta de fé? O que nos impede de acordar Jesus, de procurar uma relação pessoal com ele, de tratá-lo como Salvador? Os discípulos tinham uma fé pequena. Ela não bastava para enfrentar a tempestade com confiança. Mas bastava para acordar Jesus e para lhe dizer: Salva-nos! E eles experimentaram que seu Senhor era também Senhor da tempestade. Foi uma experiência que lhes tinha faltado e que eles precisavam fazer. A tempestade faz parte, ao que tudo indica, do aprendizado dos discípulos de Jesus.

E nós? Uma coisa está certa. O mundo não mudou nada neste ponto: vai haver tempestade também em nossa vida. Vai haver tempestade na vida da igreja. Vai haver tempestade no mundo. A mensagem simples e clara de nosso texto bíblico é que, em meio à tempestade, clamemos pelo Salvador. Que acordemos Jesus para falar com ele, face a face. A promessa de nossa mensagem de hoje é que em meio à tempestade haverá paz; onde o Senhor for acordado, onde ele for reconhecido e aceito como Salvador.

Em vista das tempestades que se vão armando no horizonte do mundo, em vista da grande tempestade final, que a Bíblia prediz, a mensagem da grande bonança que se segue às palavras de Jesus não deixa de ser a coisa mais confortante que poderá ser dita a um coração angustiado. Louvado seja Deus por seu evangelho!

Oremos: Senhor, perdoa-nos toda a falsa confiança que temos em nós mesmos. Perdoa-nos toda a segurança orgulhosa, que nos fez dispensar tua ajuda. Se a tempestade nos angustiar, se o barco de nossa vida ameaçar afundar, que então saibamos recorrer a ti, nosso único Salvador. E que o saibamos fazer também em tempo de bonança. Faze crescer a nossa fé tão pequena e mesquinha. Faze crescer nossa confiança em teu poder. Tu és o Senhor da tempestade. Louvado seja o teu nome! Amém.



Autor: Lindolfo Weingärtner

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Esboço para pregação - O SEGREDO DA ESPERANÇA - Lucas 2.25-38

Leitura Complementar: Salmo 90

"A velhice é um naufrágio." Quem o disse, foi um célebre político de nosso tempo que, já perto dos oitenta anos, se retirou amargurado da vida pública para esperar a morte, na solidão de sua aldeia natal. Muitas pessoas de idade concordam com o velho político: uma pessoa idosa é mesmo como um navio que vai afundando! Lentamente, a água vai entrando nos porões, as luzes vão se apagando, as máquinas param, e será somente uma questão de tempo para que o barco vá para o fundo. É a única coisa certa que se poderá dizer sobre a vida humana...

Passei, há algum tempo, por três velhinhos que estavam sentados no banco de uma praça. Ao passar, ouvi um deles dizer: "Tudo que é velharia devia-se matar! Gente velha não presta para nada!" Confesso que fiquei assustado com aquelas palavras. Não por também já ter passado do verão da vida, mas por ter sentido o desespero e a amargura que falavam do coração daquele homem idoso. Será mesmo que há muita gente que pensa assim? Será realmente verdade que o último trecho da caminhada de nós todos deverá ser tão penoso, tão cheio de desânimo? Será mesmo que a velhice deverá ser um tempo sem esperança e sem alegria?

Não! Não precisará ser. Deus deu a cada idade a sua graça e a sua felicidade específicas. Não queremos negar que a velhice seja um tempo difícil, sujeito a doenças, a solidão, ao lento apagar das forças físicas e mentais. Mas poderá ser também um tempo de paz: um tempo de colher, de colher aquilo que a pessoa semeou na vida, ou, antes, daquilo que Deus semeou na vida dela. A velhice traz à tona o que estava bem no fundo de nossa alma. Vinho velho, ou se torna mais suave, ou vira vinagre. E para o homem não virar vinagre, para não ter uma velhice marcada pela amargura e pelo desgosto, ele precisa encontrar a Deus. Precisa ter Deus no passado, no presente e no futuro. Citamos três versículos do Antigo Testamento para ilustrar (Eclesiastes 12.1-3): "Lembra-te do teu Criador nos dias de tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos, dos quais dirás: Não tenho neles prazer; antes que se escureçam o sol, a lua e as estrelas do esplendor de tua vida e tornem a vir as nuvens depois do aguaceiro, no dia em que tremerem os guardas da casa (os teus braços), e se curvarem os homens outrora fortes (as tuas pernas), e cessarem os moedores da boca, por já serem poucos, e se escurecerem os teus olhos."

"Lembra-te do teu Criador no tempo de tua mocidade." Mas, não será crueldade, dizer uma coisa destas a uma pessoa velha? A uma pessoa que não se lembrou de Deus na mocidade? Seria crueldade, se precisássemos dizer ao homem idoso: agora é tarde. Deus não quer mais você. Mas, graças a Deus, não precisamos dizer isto. Mesmo que um Nicodemos duvide de que possa haver um novo começo para um homem velho, dizendo a Jesus: "Como pode um homem nascer de novo, sendo velho?" fica de pé a resposta que Jesus lhe deu, na qual todo o evangelho se resume: "Tanto amou Deus ao mundo que deu o seu Filho Unigênito, para todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." "...todo aquele..." Essas palavras não nos permitem excluir nenhuma pessoa da salvação. "Todo aquele" é também aquele velhinho desesperado, sentado no banco da praça, o qual disse que "toda velharia se deveria matar". Sim, se chegar a crer. Porque é pela fé que renasce o homem. Eu hoje me arrependo muito por não ter parado naquele momento, junto ao banco da praça, e de ter dito àquele homem idoso, com toda a clareza, que também para ele havia um novo começo e uma nova esperança. Estou firmemente resolvido a não mais deixar passar uma oportunidade assim, mesmo tratando-se de pessoas desconhecidas, como foi no caso dos três velhinhos. Deus me perdoe a falta de coragem e de amor naquela hora!

Temos ouvido em nossa passagem bíblica de duas pessoas idosas que viviam em Jerusalém, no tempo do nascimento de Jesus. Estamos lembrados dos seus nomes: Simeão e Ana. Eram duas pessoas que tinham tido Deus no passado e que o tinham no presente e no futuro. Simeão, um homem justo e piedoso, que tinha recebido a promessa de Deus que não morreria antes de ter visto o Salvador; e Ana, uma viúva, que passava seus dias no templo, em jejuns e orações. Ana era profetisa, e sua atitude junto ao menino Jesus prova que também ela tinha recebido uma revelação de Deus a respeito de Jesus, porque de outra forma não o teria reconhecido. Duas pessoas, portanto, que guardavam um segredo. Duas pessoas que esperavam por um evento, por um acontecimento importante em sua vida.

Veja, leitor ou ouvinte amigo, jovem ou idoso, homem ou mulher: duas pessoas de idade, que deverão ter passado os mesmos sofrimentos e as mesmas contrariedades que todos os velhos precisam passar! Ana, por exemplo, tinha sido viúva a maior parte de sua vida. E ser viúva, já naquele tempo, era coisa dura. Tanto na vida do Simeão como na vida de Ana havia motivo suficiente para ficarem amargos, azedos, enfezados. Ambos não tinham mais muito tempo a viver, e este próprio fato teria sido suficiente para os deixar abatidos e tristes. E, no entanto, Simeão "esperava pela consolação de Israel". Ana adorava, dia e noite, no templo. Os dois nem pareciam pensar na morte! Ao menos, tal pensamento não lhes ocupava o tempo, o raciocínio, os sentimentos. Os dois dão a impressão de duas pessoas despreocupadas, por que não dizer: felizes! Qual será a razão desta despreocupada felicidade? Por que nem em Simeão, nem em Ana encontramos qualquer indício daquele negro desespero do homem que achava que toda velharia se deveria matar?

Note bem, caro ouvinte: desespero é o mesmo que "falta de esperança". É desesperança, por assim dizer. Onde há esperança, não há desespero, e onde há desespero, não há esperança. E o segredo destas duas pessoas idosas era este: elas tinham esperança. Não uma esperançazinha mixuruca - a de talvez viverem mais um ou dois anos, de talvez receberem mais um pouquinho de consideração na comunidade e na sociedade. A esperança de Simeão e de Ana era uma "senhora" esperança: era a esperança pelo Cristo de Deus. Era a esperança pelo Salvador, o Salvador de Israel e o Salvador do mundo. E nossa passagem bíblica nos diz que sua esperança se cumpriu. Eles viram Jesus. Simeão até o tomou nos braços. "Jesus" significa: Deus ajuda. Deus salva. Jesus era o "Deus ajuda", era a ajuda de Deus em pessoa. Para Simeão e Ana, o futuro se tinha tornado presente. Que admira que tivessem ficado alegres?

Os pastores e os padres, que lidam muito com pessoas idosas, sabem que muitas vezes uma pessoa doente, quando o médico "só lhe dá mais alguns meses de vida", fica totalmente abatida, apática, desesperada. É como se não houvesse mais nada que pudesse acontecer na vida dela. A única coisa que poderá ainda acontecer, será a morte. E a morte, para ela, é o fim. É como um buraco escuro, no qual se enterra tudo que deu valor à vida, toda sua alegria, toda sua felicidade. Frente à morte, a gente vai notando com clareza que vida miserável é a vida do descrente. Que vidinha mixuruca mesmo, vidinha que vai minguando dia a dia, até que o lampião se apaga de vez. Depois, acabou-se. Mas terá sido vida, aquela? "Comamos e bebamos, que amanhã morreremos" Isso será viver, ou será fazer de conta que se vive?

Não! A vida sem esperança não é a vida verdadeira. E o Deus de misericórdia não abandonou os homens entregues a uma tal existência triste, sem sinais de sua presença. Ele fez nascer a esperança para todos os homens em seu Filho Unigênito Jesus Cristo. Uma pessoa que acha Jesus, achou a esperança. E a esperança, uma vez encontrada, cria raízes. Ela ocupa o lugar que Deus lhe destinou no coração do homem. Ela fica resistente, ela toma conta. Expulsa o desespero. Torna o coração alegre e animado, sim, ela faz transbordar o coração, faz a pessoa louvar a Deus, como fez Simeão. Faz até uma mulher velha, como Ana, dar graças a Deus, em público, e anunciar aos mais jovens que eles é que têm esperança, que o Cristo é nascido para todos.

Simeão e Ana só podiam ver e tomar nos seus braços o menino Jesus, só podiam louvar a Deus pela dádiva de uma criança, cuja obra salvadora ainda não tinha sido realizada. Ambos viram a luz, mas era ainda uma luz futura. Nesta visão, viram a cruz redentora ("uma espada transpassará tua alma" diz Simeão para Maria), mas não foram capazes ainda de refugiar-se no lugar da expiação, a cruz de Cristo, porque ele ainda não tinha dito o seu "está consumado". Ainda não tinha vencido a morte, ressuscitando em glória. Mesmo assim, a visão da esperança faz Simeão exclamar, louvando a Deus: "Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, segundo a tua palavra, porque meus olhos viram a tua salvação." Simeão viu o evangelho a iluminar Israel e os povos do mundo todo, viu Jesus revelar os segredos de Deus e os segredos do coração humano. Simeão viu até bem longe. Viu além do nosso tempo. Deus lhe abrira os olhos. E a mesma ; visão da esperança fez a profetisa Ana falar do menino a todos que esperavam a redenção da Cidade de Deus.

Nós, sejamos jovens ou velhos, temos razão ainda maior para louvarmos a Deus e para proclamarmos os grandes feitos de nosso Senhor. Simeão e Ana podiam ver o menino Jesus, é verdade; podiam até tomá-lo nos braços. Mas nós temos um direito muito maior: podemos refugiar-nos com todas as nossas preocupações nos braços do Salvador, do filho de Deus Todo Poderoso, de cujas mãos nada nos poderá arrancar, nenhum desespero, nenhuma amargura, nem mesmo a solidão da velhice ou a proximidade da morte. Médico que nos desengane? Como? Desenganar um discípulo redimido por Cristo? Ele se acha entregue, abrigado, nos braços de seu Salvador! Por que você, caro leitor ou ouvinte, não faz isso mesmo, com decisão e alegria? Seguro pela mão de Cristo, você poderá seguir caminho, sem temor, também o último trecho da caminhada. Terá Deus no passado, no presente, no futuro. O fim não será nenhum naufrágio. Será um hino de louvor e de adoração.

Oremos: Salvador amado, de coração te agradecemos por nos teres dado uma esperança que vai além de nossa morte, que vai além do horizonte deste mundo. Tu és o nosso evangelho, tu és a nossa esperança. Nada nos poderá separar de ti, nem mesmo o nosso coração, que tantas vezes complica as coisas, que tantas vezes é pequeno e mesquinho demais para que nele caiba a esperança de teu reino. Dá-nos, Senhor, que possamos louvar-te sempre: agora, na hora de nossa morte e em teu Reino eterno. Amém.



Autor: Lindolfo Weingärtner

domingo, 29 de agosto de 2010

Esboço para pregação - O QUE REALMENTE IMPORTA - Lucas 10.38-42

Leitura Complementar: Salmo 131

Hoje vamos falar de três pessoas. Pessoas que têm uma coisa em comum. Elas receberam Jesus em sua casa. O nome de duas das três você acaba de ler no trecho bíblico em que se baseia nossa meditação. São duas mulheres, irmãs, provavelmente solteiras, que moravam no povoado de Betânia, nas proximidades de Jerusalém. Seus nomes são Marta e Maria. E a terceira pessoa vive hoje. Seu nome? Não o conheço. Não sei se é homem ou mulher, jovem ou idosa. Mas isso não importa. O que importa, caro leitor, caro ouvinte, é que Deus o saiba e que você o descubra: a terceira pessoa é você. Porque, se não descobrir aquilo, receio que esteja perdendo o seu tempo ao tomar conhecimento destas palavras. Pois saiba que a Escritura Sagrada é um espelho. De início, neste espelho nós só enxergamos as imagens de outras pessoas: Pedro, Tiago, Maria, Marta e, quem sabe, Carlos, Dorli, Cláudio e Lúcia. E, de repente, passamos a enxergar nossa própria imagem. Então é que a coisa começa a ficar quente. Então é que a palavra de Deus começa a mexer conosco. Então ela deixa de escorrer que nem água em capa de náilon. Então penetra em nós, que nem pancada de chuva que cai em terra seca e sedenta. E isso é que a palavra de Deus quer. Só isso. Ela está à procura de terra sedenta. Porque Deus não costuma chover no molhado.

Falemos, pois, em primeiro lugar, de Marta. À primeira vista, parece uma mulher realizada. É ela que é a dona da casa, já que Lucas diz que hospedou Jesus em sua casa. Parece uma mulher ativa, trabalhadora, ordeira. Ela sabe o que está devendo a hóspede tão importante. Ela se mexe, agita-se de um lado para outro, ocupada com muitas coisas. Você sabe como é: lavar a louça, preparar a comida, limpar a casa: é um trabalho que não tem fim, que não permite tirar o corpo fora, que não permite entregar-se à preguiça ou ao relaxamento. E Marta não era preguiçosa nem relaxada. Vamos constatar isso como algo de bom e positivo. E tinha mais: Marta queria servir. Queria servir a Jesus. Estava querendo aproveitar a rara oportunidade de poder servir a um homem que ela venerava como sendo o Senhor! Não um senhor qualquer, mas o Senhor, o Cristo de Deus!

O que há de errado com Marta? Haverá alguma coisa de errado com ela? Já que a receita de Jesus não poderá ser "sombra e água fresca", Marta não será até um exemplo para nós todos? Nós, que tantas vezes procuramos fugir do serviço rotineiro, olhando televisão, escapando para a praia, jogando cartas, ou fazendo conversa "fiada"? Vejamos. Será preciso ver realmente. Não devemos olhar por cima. Se lermos ou escutarmos nosso trecho bíblico com atenção mesmo, notaremos uma coisa muito importante: Marta serve, serve com muito capricho até. Mas o seu serviço não a deixa feliz. Ela corre para cá e para lá, agitada, com a cabeça cheia de coisas que estão por fazer, mas este seu serviço não parece ter graça para ela. Mais grave ainda: parece que ela está cumprindo um dever imposto a ela, seja pela vontade de representar uma boa dona de casa, seja pela rotina do trabalho costumeiro, seja pelo"Eu" ainda não dominado (ou libertado) pelo evangelho. Em todo o caso, o seu serviço não tem nada de convidativo, de descontraído, de gracioso, de alegre e feliz. Ela serve com as mãos e os pés, mas o seu coração está revoltado. Revoltado contra Maria, sua irmã, e revoltado também contra Jesus, que parece estar cego para a realidade: "Senhor, não te importas de que minha irmã me deixe servir sozinha? Ordena-lhe que venha ajudar-me!"

Ordena-lhe! É isso. Jesus precisa ordenar. Precisa mandar a irmã passiva a pôr mãos à obra! Quem não quer cooperar, quem não quer engajar-se num serviço que nós achamos importante, precisa ser mandado. Precisa aprender a arrancar-se da passividade. Vamos mexer-nos, vamos lutar, vamos mudar as coisas ruins de nosso tempo! Para que serve uma fé passiva? O que importa é agir! O que importa é mudar as condições em que vivemos! Cada minuto é preciso! Maria precisa ser despertada para a ação! O Senhor a precisa despertar!

Jesus não condena a atividade de Marta. Sabemos que Jesus mesmo foi ativo, que se cansava até o esgotamento, caminhando pelas estradas poeirentas da Palestina, pregando e topando de frente os problemas de seu tempo. No entanto, é a única vez que, no Novo Testamento, nos vai sendo relatado que Jesus tenha pronunciado duas vezes seguidas o nome de uma pessoa com quem falava: "Marta,Marta"! É sinal de que aquela mulher trabalhadora e enérgica estava correndo um perigo muito grave. Seu serviço estava sendo envenenado por dentro, pela inquietação e pela preocupação. Seu coração ficara duro, enquanto ela servia. Sua atitude já não espelhava o evangelho, antes refletia a lei, a lei dura do dever, da moralidade, da conveniência: "Ordena-lhe pois que venha ajudar-me".

Marta, Marta! As palavras de Jesus indicam que ele está preocupado com esta mulher. Mas ele não lhe ordena parar de trabalhar e sentar aos seus pés. Não a manda mudar de atitude. Jesus sabe que isso não adiantará nada. Indica-lhe, porém, o remédio para a sua enfermidade; indica-lhe "uma coisa só", indispensável para um serviço iluminado e perpassado pela graça. Mas o que lhe indica está ligado à atitude de sua irmã, Maria. E essa é a segunda pessoa de que precisamos falar agora. Maria, que sentou aos pés de Jesus para ouvir sua palavra.

Não há muito a dizer. Não é correto o que se pode ler aqui e acolá, que Maria tenha sido um tipo meditativo, menos enérgico que sua irmã. Isso é pura fantasia. Provavelmente Maria foi uma mulher tão normal e tão trabalhadeira como sua irmã Marta. O que a distingue dela é que, neste preciso momento, ela quebra a rotina, fazendo uma coisa inesperada, até um pouco chocante. Querendo falar difícil, nós poderíamos dizer, hoje: ela coloca prioridades. Uma mulher, naquele tempo, era a criatura mais amarrada à rotina que se poderia imaginar! E essa rotina se chamava serviço caseiro, e nada mais. Veja o que Maria faz: ela, num momento em que todas a tradições de seu tempo exigiam dela que servisse ao seu hóspede, quebra as tradições. Ela distingue entre o mais importante e o menos importante. Entre as coisas primeiras e segundas. E decide-se pela única coisa que importa neste momento. Senta-se aos pés de Jesus, ouvin¬do os seus ensinamentos.

Por que será tão importante o que Maria faz? Por que Jesus afirma que ela escolheu a boa parte, a única que importa? Quer ele menosprezar a ação, dizendo que mais importa ouvir e meditar que servir e agir? Podemos ter certeza que ele não quer dizer isto. O Evangelho de Jesus não divorcia a ação da fé. Pelo contrário: ela casa a ação com a fé. O que Maria faz é importante por uma razão: ela sabe que todo o nosso serviço, toda a nossa obediência acaba se esgotando, acaba se ressecando e se envenenando por dentro, se não sentarmos com regularidade aos pés de Jesus para ouvirmos os seus ensinamentos. É o mesmo que parar junto a uma fonte para beber água, numa caminhada através de um campo poeirento, em tempo de seca. É o mesmo que abastecer o carro, parando num posto de gasolina. E o mesmo que recarregar a bateria, quase que esgotada por um curto-circuito. É consertar o próprio curto-circuito, que vai descarregando a bateria sem acender uma pequena luz sequer! Parar aos pés de Jesus não é nenhum tempo perdido. Martim Lutero chegou a dizer: "Hoje tenho muito a fazer. Preciso dedicar mais tempo à oração, senão não dou conta." Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada.

E agora falemos de você, a terceira pessoa de nosso texto, além de Jesus, é claro, que é a pessoa mais importante. Será que ainda é preciso falar de você? Ou será que Deus já iniciou a falar-lhe, à Sua maneira, como Jesus falou a Marta e Maria? Será que Deus já o (ou"a") levou a colocar prioridades, fazendo-o ler este sermão, apesar do trabalho e dos compromissos que o esperam? Eu só posso dizer, presumindo que você é uma pessoa ativa, como deve ser: neste momento, torne-se bem passiva, receba, beba da fonte da palavra de Deus. Abasteça o reservatório. Recarregue a bateria. Deixe-se aprofundar na comunhão de vida que Cristo estabeleceu com você. Você, que é uma pessoa ativa na comunidade de Cristo, você mesmo, sente-se aos pés de Jesus e ouça os seus ensina mento. Quer dizer: leia, escute, ore. É a única coisa que importa, agora. Sua vida vai mudar. Seu serviço vai mudar. O evangelho vai começar a refletir-se em seus atos, suas atitudes, até em seus gestos. Vai ser o fim do nervosismo e da agitação, da irritação, da amargura. O evangelho de Jesus vai penetrar em você, vai criar raízes, bem no centro do seu "EU" mesmo.

Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada. Você, que recebeu Jesus em sua casa, lendo este sermão, você não quer colocar o seu nome no lugar do de Maria, para receber a mesma promissão que Maria recebeu? Que Deus o permita!

Oremos: Senhor, o nosso serviço deixa-nos tantas vezes preocupados e irritados. É porque estamos servindo sem amor. Servimos sem viver em verdadeira comunhão contigo. Nós sabemos que precisamos sentar aos teus pés e ouvir os teus ensinamentos. Perdoa-nos, Senhor, o nosso relaxamento em nossa vida de oração e meditação, perdoa-nos por tantas vezes termos tentado dar conta do recado sozinhos. Tu és a fonte da paz e da alegria. Tu poderás transformar também o nosso serviço. Poderás transformar a nossa vida inteira. Louvado sejas, Senhor e Salvador. Amém.



Autor: Lindolfo Weingärtner

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Esboço para pregação - HOJE PRECISO ENTRAR EM TUA CASA - Lucas 19.1-10

Leitura Complementar: Salmo 97

Um homem pequeno, mas um homem rico e bem sucedido: eis o retrato falado do publicano Zaqueu. Tamanho não é documento, e ser pequeno não significa que a gente não possa vencer na vida. E Zaqueu tinha vencido. Era maioral dos publicanos, isto é, era funcionário público graduado, chefe dos coletores de impostos da cidade de Jericó. Tinha aproveitado bem as oportunidades que seu cargo lhe oferecia. Não há indício de que tivesse enriquecido roubando, ou, ao menos, roubando mais do que outros publicanos. É possível que, no mais, tivesse agido dentro das normas da lei e dos costumes daquele tempo. Mas a lei, já então, era uma rede com malhas bastantes grandes. O próprio governo sabia disto. O governo tinha feito um arranjo bem esperto com os coletores-chefes: alugava os impostos de uma cidade por um certo tempo, a um preço definido. Se o coletor pagava a devida soma ao governo, então o resto era problema dele. O governo não ligava ao que ele fazia. Ele podia empregar sub-coletores, podia cobrar pedágio em estradas e pontes, podia explorar aquele negócio mesmo, podia tirar o quanto desse, de comerciantes, de agricultores, de operários, de viajantes, e de quem mais tivesse dinheiro. Não admira que o povo não morria de amores por estes publicanos. Chamar alguém de "publicano" era quase como dizer nome feio: explorador, corrupto, sanguessuga. "Publicanos e pecadores", assim eles eram rotulados nas sinagogas, nos lugares de reunião dos judeus. Estes publicanos nem arriscavam ir à sinagoga ou ao templo. E não era sem motivo!

Por que será que Zaqueu, aquele homem rico e bem sucedido procurou ver Jesus, quando este passava por Jericó? Por que será que correu adiante da multidão, fazendo aquela coisa incrível, realmente imprópria para um homem rico, para um funcionário graduado como ele: subir naquele sicômoro, naquela figueira que ficava bem à beira da estrada? Veja que Zaqueu agiu que nem um rapaz de doze anos, que trepa em árvore para ver um visitante ilustre passar. Mas este próprio fato não é algo maravilhoso? A simples proximidade de Jesus basta para quebrar a rotina da vida de um homem rico, para fazê-lo correr diante da multidão e fazê-lo subir numa árvore! Bem que a gente queria que muito capitalista acomodado em seu apartamento de luxo, ou sentado em seu Omega (e também muito capitalista-mirim, capitalista de Fusca e Escort) fizesse o mesmo! Como faria bem para ele, correr! Não tanto para perder peso (isso vem depois), mas para sair da rotina escravizadora do ídolo "dinheiro". Para ir ao encontro da vida verdadeira, ao encontro de Jesus, que ensina a pessoa a viver. Ensina o rico e ensina o pobre. Porque ambos precisam ser ensinados.

A Bíblia não diz se Zaqueu imaginava aonde poderia chegar com aquela corrida, com aquela subida à figueira. Não diz se ele queria mesmo aquilo que depois mudou tão drasticamente a sua vida. Diz apenas que queria ver quem era Jesus. Mas aquele "querer ver Jesus" não parece ter sido nenhum capricho momentâneo. Bastou para fazê-lo esquecer seu "status", sua dignidade, para fazê-lo correr e trepar numa árvore. Eu não tenho outra explicação para a estranha atitude deste homem a não esta: Jesus já deve ter agido na vida de Zaqueu antes deste se dar conta disso. Você vê que Zaqueu não precisava se apresentar. Jesus o conhece, chama-o pelo nome. É como um encontro programado: o caminho de Jesus, que vai a Jerusalém, rumo à cruz, passa por Jericó. É um caminho reto e claro. É o caminho da obediência. E o caminho de Zaqueu, caminho tortuoso, nada obediente, foi programado mesmo assim por Deus para cruzar o caminho de Jesus. Há coisas que tornam este encontro difícil: a pequena estatura de Zaqueu, a massa humana que rodeia Jesus (quantas vezes as pessoas que rodeavam Jesus não queriam permitir que dele se aproximassem os "indignos"! Veja Marcos 2,4 e 10,13). A chance de que Zaqueu realmente venha a ver Jesus é bem pequena. Mas o encontro acontece. Lá, junto àquela figueira, que também parece ter sido programada para esta hora! Sério: para que haja este encontro decisivo entre Jesus e uma pessoa de caminhos tortuosos, toda a criação tem que cooperar. Que pensamento empolgante aquele: por cinquenta anos, esta figueira teve que crescer, para que pudesse servir a Zaqueu. Incrível? Ora, eu creio que, visto da eternidade, o nosso caminho um tanto tortuoso pela terra, se apresentará cheio de tais coisas incríveis. Talvez algum leitor ou ouvinte ignorado entenda, por alguma experiência pessoal, o que quero dizer.

Jesus conhece Zaqueu, antes que Zaqueu conheça Jesus. E, apesar de o conhecer, ele não o rejeita. Não passa de largo por ele. Há muitos, hoje, que botam toda a culpa nos ricos. Não fazem diferença. Rico é rico, e, como dizem os marxistas, "toda propriedade é roubo". Logo, quem é rico, é rico porque roubou muito. Muitos acham ruim Jesus não ter feito frente contra os ricos. Não, não negam que ele foi amigo dos pobres. Mas, por que ele precisa comer na mesa dos ricos? Ele não se torna culpado com eles, comendo esta comida ganha com o suor dos oprimidos?

Sim, Jesus se torna culpado com eles, ricos e pobres. Ele não faz diferença. Encontra-se com ricos e pobres, sem perguntar por seu passado, sem lhes atribuir sua "classe", seu condicionamento social, seu muito ou pouco dinheiro. Ele entra na fila de pecadores e pobres, sem preconceitos. Sua única intenção é salvar a pessoa. Salvar é mais do que dar pão e casa. Salvar é mais do que distribuir a renda por igual. Salvar é tirar a pessoa da prisão do maligno e abrir-lhe a casa de Deus. Salvar é perdoar e dar nova vida. É por isso que Jesus também precisa entrar na casa dos ricos. É que eles também precisam de Salvador. Ou há alguém que ouse afirmar que não precisam?

"Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa". Jesus não lhe impõe nenhuma condição. Dispensa quaisquer formalidades: "Desce depressa!" Zaqueu veio para ver quem era Jesus. Lá do alto ele está vendo. Mas não vê o suficiente. Precisa chegar mais perto dele. Precisa falar com ele. Mais: precisa receber Jesus em sua casa. Em sua casa? Então Jesus irá lá? Para aquela casa que já viu tanta coisa? Jesus será cego? Não, Jesus vê. Jesus olhou para cima e viu Zaqueu assim como ele era. Ele não olhou com olhos de pecador que trata de descobrir outro pecador para ter alguém que possa acusar. Jesus viu Zaqueu, assim como Deus o vê, com os olhos de Deus, por assim dizer. Olhou-o com amor, com graça, com vontade de aceitá-lo, de salvá-lo. E Jesus se convida a si mesmo para a casa de Zaqueu...

E Zaqueu? Por que não usa agora aquele velho ardil de Adão, escondendo-se entre as árvores do jardim? Teria sido tão fácil, sumir-se entre a folhagem da figueira e tirar o corpo fora deste jogo. Porque muito estava em jogo para Zaqueu nesta hora. Não só sua fortuna. Toda a sua vida estava em jogo. E Zaqueu, o pequeno homem rico, deve ter sentido isso. Mas, apesar disto entendeu Jesus. "Ele desceu depressa e o recebeu com alegria." Quem sabe, aquele homem rico estava faminto e sedento de alegria, de alegria que dinheiro não compra. Quem sabe, a alegria de participar do evangelho se tenha tornado tão grande que ele não se importava com mais nada. Quem sabe, o retrato falado de Zaqueu: "homem pequeno, rico e bem sucedido" nem era um retrato tão fiel assim. Quem sabe, Jesus tinha um retrato mais fiel de Zaqueu, e de você e de mim, do que o "retrato falado" que nos identifica na sociedade?

"Todos os que viram isto, murmuravam, dizendo que ele se hospedara com um pecador." Todos! É duro. Entre estes "todos" estavam também os discípulos. Este murmúrio não parou nunca, na igreja. Quando um pecador é atingido pela graça, o inferno protesta. E protestam todos os que não vêem o homem com os olhos de Deus, que o vêem com olhos de acusador. Jesus? Ele não diz nada. O que ele faz, diz tudo. Ele senta-se à mesa de Zaqueu e come com ele. Há atitudes e há gestos que falam mais claro do que palavras. Há atitudes e há gestos que são cópias tão fiéis de atitudes e de gestos de Deus, que o homem em questão se vê atingido por Deus mesmo. Foi o que aconteceu no caso de Zaqueu. Jesus pregou neste dia sem usar palavra. Pregou comendo, comendo na casa de um pecador.

"Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e se em alguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais." Isto deve ter sido que nem uma bomba naquela hora, você pode acreditar! E veja que Jesus não tinha exigido que Zaqueu fizesse aquilo. Zaqueu disse: "Eu resolvo." Mas note que este "eu resolvo" foi a primeira decisão realmente livre de sua vida. Antes, era o dinheiro que tinha mandado nele. Agora é ele quem manda no dinheiro. Com uma liberdade incrível, este homem rompe o quadro de seu retraio falado e age, não como um publicano, mas como um rei: um escravo libertado, feito senhor, que agora dispõe em sabedoria e com mão aberta de seu dinheiro, dinheiro que agora realmente é de Zaqueu, porque faz o que Zaqueu manda.

Dissemos há pouco que Jesus não fazia diferença entre ricos e pobres. Ele não fazia mesmo. Mas nunca deixava o pobre preso à sua pobreza, nem o rico preso à sua riqueza. Onde o evangelho não mexe com o "status" da gente, com o "retrato falado", com a fortuna, com seu relacionamento com o dinheiro, aí alguma coisa correu errada. Eu não acredito em conversão que converte só o coração. A carteira precisa ser convertida também. A carteira, e muitas outras coisas mais, que escravizam o homem. Há cristãos que querem levar uma vida santa, mas que não têm uma centelha de "espírito social", ignoram a pobreza que os rodeia e agradecem a Deus por tê-los abençoado com tantos bens. Que nos deixemos abalar por aquilo que Zaqueu fez! Fez, porque resolveu fazer!

Nada mais temos a acrescentar a este relato sobre o encontro de Jesus com um homem pequeno, que chegou a recebê-lo em sua casa. Apenas, o que o próprio Senhor diz. E queremos aplicá-lo a nós mesmos - você a si, e eu a mim: "Hoje houve salvação nesta casa, pois este também é filho de Abraão. Pois o Filho do homem veio buscar e salvar o perdido".

Oremos as palavras de outro publicano, conforme a parábola de Jesus, e depois oremos em silêncio, abrindo-nos ao evangelho de Cristo: Tem piedade de mim, Senhor. Eu sou um pecador. Amém.



Autor: Lindolfo Weingärtner

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