quarta-feira, 9 de março de 2011

[Soteriologia] NÃO ABRIR CONCESSÕES

SERMÃO PREGADO EM 7 DE OUTUBRO DE 1888 NO METROPOLITAN TABERNACLE, NEWINGTON, LONDRES

"E disse-lhe o servo: Se porventura não quiser seguir-me a mulher a esta terra, farei, pois, tornar o teu filho à terra donde saíste? E Abraão lhe disse: Guarda-te, que não faças lá tornar o meu filho. O SENHOR Deus dos céus, que me tomou da casa de meu pai e da terra da minha parentela, e que me falou, e que me jurou, dizendo: À tua descendência darei esta terra; ele enviará o seu anjo adiante da tua face, para que tomes mulher de lá para meu filho. Se a mulher, porém, não quiser seguir-te, serás livre deste meu juramento; somente não faças lá tornar a meu filho." (Gênesis 24:5-8.)

Gênesis é tanto o livro dos princípios quanto o livro das dispensações. Conheceis o uso que Paulo faz de Sara e Hagar, de Esaú e Jacó, e outros. Gênesis é, todo ele, um livro que instrui o leitor acerca das dispensações de Deus com relação ao homem. Paulo diz, em certo lugar que "tais coisas são alegoria", sendo que, ao dizer isso, não tencionou dizer que estes não sejam fatos literais , mas que, sendo fatos literais, podem também ser utilizados de forma educacional, como alegoria. Também posso dizer o mesmo deste capítulo. Ele relata o que foi realmente falado e feito. Mas, ao mesmo tempo, possui em si mesmo instruções alegóricas com respeito às coisas celestiais. O verdadeiro ministro de Cristo é como este Eleazar de Damasco. Ele é enviado a encontrar uma esposa para o filho de seu mestre. Seu grande desejo é que muitos sejam apresentados a Cristo no dia da Sua vinda, como a noiva, a esposa do Cordeiro.

O fiel servo de Abraão, antes de iniciar [sua jornada][1], comungou com seu mestre. E esta é uma lição para nós que saímos a cumprir a missão do Senhor. Que nós, antes de verdadeiramente nos engajarmos na obra, vejamos a face do Mestre, conversemos com Ele e Lhe digamos quaisquer dificuldades que possam ocorrer em nossas mentes. Antes de sairmos ao trabalho, devemos saber em que pé estamos e onde estamos pisando. Ouçamos da própria boca de nosso Senhor o que Ele espera que façamos e até que ponto Ele nos ajudará ao realizarmos esta obra.

Insisto convosco, meus co-obreiros, a que nunca saiam a apelar com os homens em nome de Deus até que tenhais, em primeiro lugar, apelado a Deus em favor dos homens. Não tenteis passar adiante uma mensagem a qual vós mesmos não tenhais, em primeiro lugar, recebido pelo Espírito Santo. Saí da câmara de comunhão com Deus para o púlpito do ministério entre os homens e haverá um frescor e poder sobre vós que ninguém será capaz de resistir.

O servo de Abraão falou e agiu como alguém que se sente compelido a executar exatamente o que o seu mestre ordenou e a dizer aquilo que o mestre lhe falou. Portanto, sua única ansiedade era saber a essência e a medida de sua comissão. Durante a conversa com seu mestre, mencionou um pequeno ponto sobre o qual poderia haver alguma dificuldade. E seu mestre rapidamente removeu a dificuldade de sua mente. É sobre esta dificuldade, a qual tem ocorrido nestes dias em larga escala e tem perturbado muitos dos bons servos de meu Mestre, que falarei nesta manhã – possa Deus permitir que este sermão seja para o benefício de toda a Sua Igreja!

I. Começando o nosso sermão, pedirei a vocês, em primeiro lugar, para que pensem na tarefa jubilosa, mas de grande responsabilidade, deste servo. Era uma tarefa jubilosa – os sinos das bodas soavam ao seu redor. O casamento do herdeiro deveria ser um evento jubiloso. Era uma coisa muito honrosa para o servo que lhe houvesse sido confiada a tarefa de encontrar uma esposa para o filho de seu mestre. Contudo, era também, em todos os sentidos, um negócio da mais alta responsabilidade, não sendo, de forma alguma uma tarefa fácil de ser completada. Deslizes poderiam ocorrer muito prontamente, antes que se apercebesse disso. E precisava utilizar-se de toda a sua sagacidade e talvez algo mais do que sagacidade, para este assunto delicado.

Teria que viajar para longe, sobre terras sem trilhas ou estradas. Teria que procurar uma família, a qual não conhecia e descobrir nesta família uma mulher a quem não conhecia e que, contudo, fosse a pessoa certa para ser a esposa do filho de seu mestre – tudo isso era uma grande tarefa. A obra que este homem assumiu era um negócio sobre o qual estava o coração de seu mestre. Isaque tinha agora quarenta anos de idade e não havia demonstrado sinais de casar-se. Possuía um espírito quieto e gentil e necessitava de um espírito mais ativo que o instigasse. A morte de Sara o havia destituído do consolo da sua vida, o qual havia encontrado em sua mãe e havia, sem dúvida, feito com que desejasse uma companhia terna.

O próprio Abraão era um homem idoso e bem avançado em anos. E, muito naturalmente, gostaria de ver a Promessa começando a ser cumprida, de que em Isaque seria continuada a sua semente. Portanto, com grande ansiedade, a qual é indicada por fazer com que seu servo jurasse um voto da mais alta solenidade, deu-lhe a comissão de ir à antiga habitação da família na Mesopotâmia e procurar ali por uma noiva para Isaque. Embora esta família não fosse tudo o que poderia desejar, ainda assim era o melhor que conhecia. E como alguma luz celeste ainda permanecia ali, esperava encontrar naquele lugar a melhor esposa para seu filho.

A tarefa que comissionava a seu servo era, contudo, muito séria. Meus irmãos, isto não é nada comparado com o peso que repousa sobre o verdadeiro ministro de Cristo. Todo o coração do Grande Pai está posto em dar a Cristo uma Igreja a qual possa ser a Sua Amada para sempre. Jesus não deve ficar só – Sua Igreja deve ser a sua querida companhia. O Pai quer encontrar uma noiva para o grande Noivo, uma recompensa para o Redentor, um conforto para o Salvador – desta forma, deposita [esta tarefa] sobre todos a quem chama para disseminar o Evangelho, para que busquemos almas para Jesus e nunca repousemos até que os corações estejam ligados ao Filho de Deus.

Oh, [supliquemos] pela graça divina para desempenhar esta comissão! Esta mensagem era ainda de maior responsabilidade por causa da pessoa para quem a esposa era procurada. De fato, para o servo, ele era único. Era um homem nascido de acordo com a Promessa, não pela carne, mas pelo poder de Deus. E sabeis como em Cristo e em todos os que são um com Cristo, a vida vem através da Promessa e do poder de Deus, e não brota de homens. Isaque era, ele próprio, o cumprimento da Promessa e o herdeiro da Promessa. Infinitamente glorioso é o nosso Senhor Jesus como Filho do Homem! Quem declarará a Sua geração? Onde encontraremos uma companheira para Ele? Uma alma que esteja pronta a desposá-Lo?

Isaque havia sido sacrificado. Havia sido deposto sobre o altar e, embora não houvesse realmente morrido, a mão de seu pai havia brandido o cutelo para imolá-lo. Abraão, em seu espírito, havia oferecido seu filho. E sabeis quem é Aquele a quem pregamos e por quem pregamos, o próprio Jesus, o qual depositou a Sua vida como um sacrifício pelos pecadores. Foi apresentado como uma oferta queimada completa a Deus. Oh, pelas chagas e pelo suor de sangue, vos pergunto – onde encontraremos um coração que esteja pronto a ligar-se a Ele? Como encontraremos homens e mulheres que possam recompensar dignamente um amor tão maravilhoso, tão divino, como o dAquele que morreu a morte da cruz?

Isaque também havia sido, em figura, ressuscitado dos mortos. Para seu pai, foi considerado como "amortecido", como disse o apóstolo [em Hebreus 11:12] – e este lhe foi entregue dentre os mortos. Mas nosso abençoado Senhor foi realmente ressuscitado dentre mortos reais e está diante de nós hoje como o Conquistador da morte e o Vencedor da tumba. Quem se ajuntará a este Conquistador? Quem é digno de habitar com este Ser glorioso? Alguém pode ter pensado que cada coração ansiaria por tal felicidade e saltaria em antecipação de tal honra inigualável, e que ninguém se esquivaria, exceto por causa de um enorme senso de indignidade. Contudo, não é assim, embora que deveria ser.

Que tarefa de alta responsabilidade temos a cumprir para encontrar aqueles que estarão ligados para sempre em santa união com o Herdeiro da Promessa, aquele que é O Sacrificado e Ressurreto! Isaque era tudo para Abraão. Abraão teria dito a Isaque, "Tudo o que tenho é teu." Isto também é verdade com relação ao nosso bendito Senhor, a quem tornou o Herdeiro de todas as coisas – através de quem fez também os mundos, pois "foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse" [Colossenses 1:19]. Que dignidade será depositada sobre todo aquele que desposar a Cristo! E a esta altura de eminência sereis elevados, tornando-se um com Jesus!

Ó pregador, que obra tendes a fazer hoje, para encontrar aqueles a quem dareis o bracelete e sobre cuja face pendurarás a jóia! A quem direi, "Darias o coração ao meu Senhor? Faria de Jesus a tua confiança, tua salvação, teu Tudo em Tudo? Estás disposto a tornar-se Seu, para que Ele seja vosso?" Não vos disse verdadeiramente, que esta era uma tarefa jubilosa, mas de grande responsabilidade, quando pensais o que a noiva deve ser para tornar-se aquela a quem o filho de teu mestre desposaria? Deve, pelo menos, estar disposta e ser bela. No dia do poder de Deus, os corações tornam-se dispostos. Não pode haver bodas com Jesus sem um coração de amor.

Onde encontraremos este coração disposto? Apenas onde a Graça de Deus operou. Ah, vejo então como posso encontrar beleza, também, entre os filhos dos homens! Manchada como é a nossa natureza pelo pecado, apenas o Espírito Santo pode comunicar aquela beleza da santidade, a qual permitirá que o Senhor Jesus contemple a formosura em Seus escolhidos. Contudo, existe em nossos corações uma aversão a Cristo e uma indisposição para aceitá-Lo, e ao mesmo tempo, um terrível senso de inadequação e indignidade! O Espírito de Deus implanta um amor que é de origem divina e renova o coração pela regeneração que vem do alto. E então buscamos ser um com Jesus, mas não até então. Vede, portanto, como nossa tarefa necessita do auxílio do próprio Deus.

Imaginaram o que a noiva tornar-se-á ao ser desposada por Isaque? Ela deverá ser sua delícia – sua amiga e companheira amorosa. Deverá ser parceira de toda sua riqueza. E, especialmente, será participante na grande Promessa do Concerto, a qual foi concedida particularmente a Abraão e sua família. Quando um pecador vem a Cristo, o que Cristo faz dele? Seu deleite está nele – Ele comunga com ele. Ouve a sua oração, aceita seus louvores. Opera nele e com ele, e glorifica-Se nele. Torna o crente co-herdeiro Consigo mesmo de tudo o que possui, e o apresenta à casa do tesouro do Concerto, onde as riquezas e a glória de Deus estão armazenadas para Seus escolhidos.

Ah, caros amigos! É assunto de pequena monta, à vista de alguns, a pregação do Evangelho. E, contudo, se Deus está conosco, nossa obra é maior do que a dos anjos. De maneira humilde estais falando de Jesus aos meninos e meninas de vossas classes. E alguns vos desprezam, como "apenas professores da Escola Dominical". Mas vosso trabalho tem um peso espiritual que é desconhecido nos conclaves de senadores e ausente nos conselhos de imperadores. Sobre o que dizeis, morte e inferno e mundos não conhecidos estão pendentes. Estais moldando os destinos de espíritos imortais, transformando almas da ruína à glória, do pecado à santidade:

"Não é uma obra de pequena monta
Pois exige vosso cuidado e amor;
Mas pode encher o coração de um anjo,
E enche as mãos do Salvador."

Ao levar adiante esta comissão, este servo não deveria poupar esforços. Seria necessário que viajasse uma longa distância, possuindo uma indicação geral de direção, mas sem conhecer o caminho. Deveria possuir a direção e proteção divinas. Quando alcançasse o lugar, deveria exercer grande dose de bom senso e ao mesmo tempo uma dependência confiante na bondade e sabedoria de Deus. Seria a maravilha das maravilhas se chegasse a encontrar a mulher escolhida e apenas o Senhor poderia fazer com que isto acontecesse. Pela Graça de Deus, teria todo o cuidado e fé exigida.

Lemos a história de como ele viajou, e orou, e implorou. Poderíamos ter clamado, "Quem é capaz de realizar estas coisas?" Mas vemos que o Senhor Jeová o fez capaz e sua missão foi executada com felicidade. Como podemos nos colocar na situação certa para encontrar pecadores e conquistá-los para Jesus? Como podemos aprender a falar as palavras certas? Como adaptaremos nosso ensino à condição de seus corações? Como adaptaremos a nós mesmos aos seus sentimentos, seus preconceitos, suas dores, e suas tentações?

Irmãos, nós que pregamos o Evangelho continuamente bem podemos clamar, "Se a Tua Presença não estiver comigo, não nos faça sair deste lugar." Procurar por pérolas no fundo do mar é brincadeira de criança, comparado a buscar almas nesta ímpia Londres. Se Deus não está conosco, podemos lançar nossos olhos e usar as nossas línguas em vão. Apenas quando o Poderoso Deus dirigir, e guiar, e influenciar, e inspirar, podemos executar a tarefa que nos foi solenemente confiada. Apenas com o Divino auxílio poderemos voltar com júbilo, trazendo conosco os escolhidos do Senhor. Somos os amigos do Noivo e nos regozijaremos grandemente em Sua alegria. Mas choramos e clamamos até que tenhamos encontrado os corações eleitos nos quais Ele se deleitará, os quais ressuscitará para que se assentem com Ele sobre o Seu Trono.

II. Segundo, gostaria de levá-los a considerar o medo razoável que é mencionado. O servo de Abraão disse, "Se porventura não quiser seguir-me a mulher a esta terra." Esta é uma dificuldade muito séria, grave e comum. Se a mulher não estiver disposta, nada pode ser feito. Força e fraude estão fora de questão. Deve haver uma disposição verdadeira ou não pode haver matrimônio neste caso. Aqui está a dificuldade – aqui está uma vontade com a que devemos lidar.

Ah, meus irmãos! Esta é, ainda agora, a nossa dificuldade. Permitam-me descrever desta dificuldade em detalhes, assim como apresentou-se ao servo e como apresenta-se para nós. Ela poderá não crer no meu relato, ou impressionar-se com ele. Quando chegar a ela e lhe disser que fui enviado por Abraão, poderá olhar-me no rosto e dizer, "Existem muitos enganadores hoje em dia." Se lhe disser que o filho do meu mestre é extremamente belo e rico e que alegremente a tomaria para si, poderá responder, "Fábulas estranhas e romances são comuns nestes dias. Mas os prudentes não abandonam as suas casas."

Irmãos, em nosso caso, este é um triste fato. O grande profeta evangélico clamou "Quem deu crédito à nossa pregação?" [(Isaías 53:1)] Também podemos clamar as mesmas palavras. Os homens não se importam com a pregação do grande amor de Deus pelos rebeldes filhos dos homens. Não crêem que o infinitamente glorioso Senhor está procurando em amor pelo pobre e insignificante homem – e para conquistá-lo entregou a Sua vida. O calvário, com sua riqueza de misericórdia, dor, amor e mérito, é desprezado. De fato, contamos uma maravilhosa história, e esta pode parecer boa demais para ser verdade. Mas é triste, de fato, que grande multidão de homens seguem seus caminhos atrás de migalhas e consideram estas grandes realidades como sendo apenas sonhos.

Estou curvado em desânimo, ao ver que o grande amor do meu Senhor, o qual O guiou até a morte em favor do homem, dificilmente seja considerado digno da nossa audição, muito menos da nossa crença. Eis aqui um matrimônio celestial e núpcias reais colocados ao nosso alcance. Mas com um gesto de escárnio o desprezais e preferis as feitiçarias do pecado.

Há uma outra dificuldade – espera-se que ela se apaixone por alguém a quem nunca havia visto. Havia apenas acabado de ouvir que existia uma pessoa chamada Isaque, mas mesmo assim deve amá-lo o bastante para que deixe seus queridos e vá para uma terra distante. Isto somente poderia acontecer porque reconhecera a vontade de Jeová neste assunto. Ah, meus caros ouvintes! Tudo o que lhes dizemos diz respeito a coisas que ainda não vistes. E aqui está a nossa dificuldade. Tendes olhos e quereis ver todas as coisas. Tendes mãos e quereis tocar tudo. Mas existe Um a quem não podeis ver ainda, o qual conquistou o nosso amor por causa do que cremos a Seu respeito. Podemos verdadeiramente dizer dEle, "A quem não vimos, amamos: em quem, embora não O vemos agora, contudo crendo, nos regozijamos com alegria indizível e cheia de glória."

Sei que a vossa resposta ao nosso apelo é – "Exiges demais de nós quando pedes que amemos um Cristo que nunca vimos." Posso apenas responder, "Realmente é assim: pedimos mais de vós do que esperamos receber." A menos que o Deus Espírito Santo opere um milagre da Divina Graça em vossos corações, não sereis persuadidos por nós a abandonar vossas antigas associações e juntar-se ao nosso Amado Senhor. E, ainda assim, se vierdes a Ele e amá-Lo, Ele mais do que vos satisfará. Pois encontrareis nEle descanso para vossas almas e uma paz que excede todo o entendimento [(Mateus 11:29; Filipenses 4:7)].

O servo de Abraão pode ter pensado – "Ela pode recusar-se a fazer uma mudança tão radical como deixar a Mesopotâmia e ir para Canaã. Havia nascido e sido criada em um distante país desenvolvido e todas as suas associações eram com a casa de seu pai. E, para casar-se com Isaque, deveria despojar-se de tudo." Assim também, não podeis ter a Jesus e também o mundo – é preciso que rompais com o pecado para que vos ajunteis a Jesus. Deveis sair do mundo licencioso, do mundo da moda, do mundo científico e do (assim chamado) mundo religioso. Se vos tornardes um cristão, deveis abandonar velhos hábitos, velhos motivos, velhas ambições, velhos prazeres, velhas vanglórias, velhos modos de pensar. Todas as coisas devem tornar-se novas.

Deveis abandonar as coisas as quais tens amado e buscar muitas daquelas coisas as quais até agora tendes desprezado. Deverá vir sobre vós uma mudança tão grande como se houvésseis morrido e novamente recriados. Respondeis, "Devo suportar tudo isso por Alguém a quem nunca vi e por uma herança na qual nunca coloquei os pés?" Realmente é assim. Embora me entristeça por não aceitardes, não estou em nada surpreso, pois não é dado a muitos ver Aquele que é invisível, ou escolher o caminho estreito e apertado que leva à vida. O homem ou a mulher que seguirá o mensageiro de Deus para desposar a um Noivo tão estranho é realmente um pássaro raro.

Mais do que isso, poderia ser uma grande dificuldade para Rebeca, se é que ela teve alguma dificuldade, pensar que dali em diante, deveria levar uma vida peregrina. Deveria deixar a sua casa e fazenda por uma tenda e uma vida cigana. Abraão e Isaque não encontraram cidade na qual morar, mas vagueavam de lugar para lugar, habitando sozinhos, moradores transitórios, juntamente com Deus. Seu modo de vida exterior era típico da forma de fé pela qual os homens vivem no mundo, não pertencendo a ele. Para todas as intenções e propósitos, Abraão e Isaque estavam fora do mundo e viviam em sua superfície sem uma conexão duradoura com ele. Eram os homens do Senhor e o Senhor era a sua possessão. Ele separava-Se para eles e eles separavam-se para Ele.

Rebeca poderia muito bem ter dito, "Isto nunca dará certo para mim. Não posso marginalizar-me. Não posso deixar os confortos de minha habitação já estabelecida para vaguear pelos campos, onde quer que os rebanhos necessitem que eu vá." Não se dá para a maior parte da humanidade que seria uma boa coisa estar no mundo e não ser parte dele. Não são estranhos no mundo - anseiam ser admitidos mais completamente em sua "sociedade". Não são estrangeiros aqui, com seus tesouros no Céu – anseiam ter uma bela soma na terra e encontram o seu céu em desfrutá-la eles mesmos e enriquecendo suas famílias. Minhocas é o que são, a terra os satisfaz.

Se algum homem torna-se desvinculado deste mundo e faz das coisas espirituais seu objetivo, é desprezado como um entusiasta sonhador. Muitos homens pensam que as coisas da religião existem meramente para que seja lido a seu respeito e pregado acerca delas – mas viver por elas seria uma existência sonhadora e fantasiosa. E ainda assim, o espiritual é, depois de tudo, a única coisa real – o material é, na verdade mais profunda, aquilo que é visionário e não substancial. Ainda assim, quando as pessoas desistem por causa das durezas da batalha santa e da espiritualidade da vida de crença, não nos maravilhamos, pois dificilmente esperaríamos que pudesse ser de outra forma. A menos que o Senhor renove o coração, os homens sempre preferirão o pássaro-na-mão desta vida ao pássaro-voando da vida porvir.

Além disso, pode ser que a mulher não dê importância ao Concerto da Promessa. Se não tiver consideração por Jeová e a Sua vontade revelada, provavelmente não irá com o homem e encetar matrimônio com Isaque. Era ele o Herdeiro das Promessas, o herdeiro dos privilégios do Concerto, o qual o Senhor por juramento havia prometido. Sua escolhida tornar-se-ia a mãe da semente escolhida, a qual Deus havia designado para ser uma bênção para o mundo através de todas as épocas, até o Messias, a Semente da mulher, o qual esmagaria a cabeça da serpente.

Talvez a mulher não conseguisse ver o valor do Concerto, nem apreciasse a glória da Promessa. As coisas as quais devemos pregar – tais como a vida eterna, união com Cristo, ressurreição dos mortos, reinarmos com Ele para sempre e sempre – parecem aos corações endurecidos dos homens como se fossem fábulas sem sentido. Fale-lhes sobre altos juros pelo seu dinheiro, de grandes propriedades para um projeto imobiliário, ou das honras a serem prontamente recebidas e invenções a serem descobertas – e abrirão seus olhos e ouvidos, pois aí está algo digno de ser sabido. Mas as coisas de Deus – eternas, imortais, sem limites – estas são sem importância para eles. Não podem ser convencidos a ir de Ur para Canaã por coisas tão sem importância quanto a vida eterna e o Céu, ou Deus. Então, vejam a nossa dificuldade. Muitos descrêem completamente e outros racionalizam e criam objeções. Um grande número deles nem mesmo ouvem a nossa história. E, daqueles que ouvem, a maior parte não se preocupa e outros divertem-se com ela e adiam considerações sérias. Realmente, falamos a ouvidos que não se dispõe a ouvir.

III. Em terceiro lugar, gostaria de elaborar sobre sua sugestão, a qual é muito natural. Este prudente mordomo disse, "Se porventura não quiser seguir-me a mulher a esta terra, farei, pois, tornar o teu filho à terra donde saíste?" Se ela não vier até Isaque, deveria Isaque descer até ela? Esta é a sugestão do nosso presente tempo – se o mundo não vem a Jesus, deveria Jesus amenizar Seus ensinamentos ao mundo? Em outras palavras, se o mundo não se eleva até a igreja, não deveria a igreja descer até o mundo? Ao invés de insistir com os homens que se convertam e saiam de entre os pecadores e separem-se deles, juntemo-nos ao mundo ímpio, entremos em união com ele e, desta forma, poderemos permeá-lo com nossa influência, permitindo que ele nos influencie.

Formemos um mundo cristão. Tendo em vista este objetivo, revisemos as nossas doutrinas. Algumas são ultrapassadas, taciturnas, severas, impopulares. Acabemos com elas. Usemos as frases antigas, de forma a agradar os que são obstinadamente ortodoxos, mas demos a elas novos significados, de forma a conquistarmos infiéis filosóficos, que estão por aí fazendo as suas presas. Aparemos os cantos desagradáveis da Verdade de Deus, moderemos a tonalidade dogmática da Revelação infalível – digamos que Abraão e Moisés cometeram erros e que os livros, os quais há tanto tempo são reverenciados, estão cheios de enganos. Solapemos a antiga fé e coloquemos em seu lugar novas dúvidas. Porque os tempos estão mudados e o espírito desta época sugere o abandono de tudo que é muito severamente correto e muito definitivamente de Deus.

A adulteração enganosa da doutrina é acompanhada por uma falsificação da experiência. Diz-se atualmente aos homens que nasceram bons, ou tornaram-se bons pelo seu batismo infantil e, desta forma, a grande sentença "Necessário vos é nascer de novo" perde a sua força. O arrependimento é ignorado, a fé é uma droga no mercado, quando comparada à "dúvida honesta", e a tristeza pelo peado e a comunhão com Deus são dispensadas, de forma a abrir caminho para os entretenimentos, e o socialismo e política de várias nuances. Uma nova criatura em Cristo Jesus é vista como uma invenção amarga de Puritanos fanáticos. E, enquanto afirmam isto, no mesmo fôlego louvam a Oliver Cromwell.

Mas 1888 não é 1648. O que era bom e nobre há duzentos anos atrás é meramente hipocrisia atualmente. É isso o que nos está dizendo o "pensamento moderno". E, sob a sua orientação, todas as religiões estão sendo diminuídas. A religião espiritual é desprezada e uma moralidade da moda é estabelecida em seu lugar. Arrume-se bem no Domingo – comporte-se. E, acima de tudo, creia em tudo, exceto naquilo que se lê na Bíblia e tudo estará bem. Esteja na moda e pense de acordo com aqueles que professam ser científicos – este é o primeiro e grande mandamento da escola moderna. E o segundo é semelhante a este – não seja singular, mas sim tão mundano quanto seus vizinhos. Assim, Isaque está descendo a Padã-Arã – assim a igreja está descendo para o mundo.

Muitos parecem dizer – Não existe vantagem em continuar da maneira antiga, atraindo um aqui e outro ali de entre a grande massa. Queremos tudo de forma mais rápida. Esperar até que as pessoas nasçam de novo e se tornem seguidores de Cristo é um longo processo – vamos abolir a separação entre os regenerados e os não regenerados. Vinde à igreja, todos vós, convertidos ou não convertidos. Tendes bons desejos e boas resoluções. Isto é o suficiente – não vos preocupeis com mais nada. É verdade que não credes no evangelho, mas nem tampouco nós. Vós credes em uma coisa ou outra. Vinde conosco. Se não credes em coisa alguma, não importa. A vossa "dúvida honesta" é muito melhor do que fé.

"Contudo", dizeis vós, "ninguém fala desta forma". Possivelmente não usam as mesmas palavras, mas este é o significado da religião da atualidade. Este é a grande derivação de todos os tempos. Posso justificar a mais ampla de minhas afirmações pelos atos ou pelo discurso de certos ministros, os quais estão traindo enganosamente nossa santa religião, sob o pretexto de adaptá-la à época atual. O novo plano é assimilar a igreja ao mundo e assim, abarcar uma área maior dentro de suas fronteiras. Através de apresentações semi-dramáticas, fazem a casa de oração aproximar-se do teatro. Transformam seus cultos em verdadeiros shows musicais, e seus sermões em discursos políticos ou ensaios filosóficos – de fato, trocam o templo pelo teatro, e transformam os ministros de Deus em atores, cuja função é entreter os homens.

Não é verdade, que o Dia do Senhor está se tornando mais e mais um dia de recreação ou de lazer, e a Casa do Senhor, uma casa cheia de ídolos, ou um clube político, onde existe mais entusiasmo por festas do que zelo pelo nome de Deus? Ai de mim, as cercas estão quebradas, as paredes estão derrubadas e para muitos, não existe mais igreja, exceto como uma parte do mundo, não há Deus, exceto como uma força desconhecida, através da qual operam as leis da natureza. Esta é a proposta. De forma a ganhar o mundo, o Senhor Jesus deve adaptar-se, bem como a Seu povo e a Sua Palavra, ao mundo. Não compactuo com proposta tão repugnante.

IV. Em quarto lugar, notemos a rejeição franca e determinada do mestre a esta proposta. Ele diz, de forma curta e incisiva, "Guarda-te, que não faças lá tornar o meu filho." O Senhor Jesus Cristo encabeça esta grande caravana de emigração, que acaba de sair do mundo. Dirigindo-se a Seus discípulos, Ele diz, "Vós não sois deste mundo, assim como Eu não sou deste mundo." Não somos deste mundo por nascimento, nem somos deste mundo por nossa vida, nem somos deste mundo em objeto, nem somos deste mundo em espírito, não somos deste mundo em qualquer aspecto. Jesus e aqueles que estão nEle constituem uma nova raça. A proposta de voltar ao mundo é abominável aos nossos melhores instintos – sim, é mortal para a nossa vida mais nobre.

Uma voz do Céu clama, "Não faças lá tornar o meu Filho." Não permitais que o povo a quem o Senhor tirou do Egito retorne à casa da servidão. Mas que seus filhos saiam e que sejam separados, e o Senhor Jeová será um Pai para eles. Note como Abraão coloca a questão. De fato, ele argumenta, isto seria afastar-se da ordem divina. "O Senhor Deus dos céus," disse Abraão, "me tomou da casa de meu pai e da terra da minha parentela." Por que, então, se Ele tirou a Abraão, deveria Isaque retornar? Isto não pode ser. Até aqui o caminho do Senhor com a Sua igreja tem sido separar um povo do mundo para que sejam Seus eleitos – um povo formado para Si mesmo, o qual demonstrará o Seu louvor.

Amados, o plano de Deus não se altera. Ele ainda sairá a chamar aqueles a quem predestinou. Não menosprezemos este fato e passemos a supor que podemos salvar homens em uma escala por atacado, ignorando a diferença entre os mortos no pecado e os vivos em Sião. Se Deus tivesse em mente abençoar a família em Padã-Arã, permitindo que Seus escolhidos habitassem entre eles, por que chamou Abraão para sair dali? Se Isaque pudesse fazer algum bem habitando ali, por que Abraão partiu? Se não há necessidade de uma igreja separada hoje, o que estivemos fazendo todos esses anos? O sangue dos mártires foi derramado por pura tolice? Os reformadores estavam loucos quando lutaram por doutrinas as quais parece não serem de grande importância?

Irmãos, existem duas sementes – a semente da mulher e a semente da serpente – e a diferença será mantida até o final – e não podemos ignorar esta distinção para agradar aos homens. Para Isaque, descer à casa de Naor em busca de uma esposa, seria colocar a Deus em segundo lugar, em favor de uma esposa. Abraão principia seu argumento com uma referência a Jeová, "O Senhor Deus dos céus". Pois Jeová era tudo para ele e também para Isaque. Isaque nunca renunciaria a sua caminhada com o Deus vivo, para que pudesse encontrar uma esposa. Contudo, esta apostasia é bastante comum em nossos dias. Homens e mulheres que professam santidade abandonam o que professam crer, de forma a conseguir esposas ou esposos ricos para si e seus filhos.

Não há desculpas para esta conduta mercenária. "Uma sociedade melhor" é o clamor – significando mais riquezas e moda. Para o verdadeiro homem, Deus está em primeiro lugar – sim, é o Tudo em Tudo. Mas Deus é colocado em último lugar e tudo mais é colocado à Sua frente pelo falso cristão. Em nome de Deus, conclamo aos fiéis a Deus e à sua verdade a que se recusem a abandonar sua fé. Não importa o que possam perder, não vos desvieis. Não importa o que possam ganhar, contai a repreensão de Cristo como riquezas maiores do que todos os tesouros do Egito. Desejamos o espírito de Abraão em nós, e o teremos quando tivermos a fé de Abraão.

Abraão sentiu que isto seria renunciar à Promessa do Concerto. Vede como ele coloca a questão – "O Senhor Deus dos céus, que me tomou da casa de meu pai me jurou, dizendo: À tua descendência darei esta terra." Deverão, portanto, deixar a terra e voltar ao lugar de onde o Senhor os chamou? Irmãos, somos também herdeiros da Promessa, de coisa ainda não vistas. Por isto caminhamos pela fé e desta forma somos separados daqueles que estão à nossa volta. Habitamos entre os homens como Abraão habitou entre os cananitas – mas somos uma raça distinta – somos nascidos com um novo nascimento, vivemos sob leis diferentes e agimos por motivos diferentes.

Se voltarmos aos caminhos dos mundanos e formos contados com eles, temos renunciado o Concerto de Deus, a Promessa não é mais nossa e a herança eterna está em outras mãos. Não sabeis vós disto? No momento em que a igreja diz, "Serei como o mundo", condena a si mesma juntamente com o mundo. Quando os filhos de Deus viram as filhas dos homens, como elas eram belas, e tomaram como esposas todas aquelas que escolheram, então veio o Dilúvio e os varreu a todos [Gênesis 6:1-7]. Assim ocorrerá novamente, caso o mundo tome a igreja em seus braços – então virá o juízo tremendo e, talvez, uma tempestade de fogo devorador.

A Promessa do Concerto e a herança do Concerto não são mais nossas se descemos ao mundo e abandonamos nosso jornadear com o Senhor. Além disso, caros amigos, nenhum bem pode advir de tentarmos nos conformar com o mundo. Suponhamos que a sugestão do servo houvesse sido acatada e Isaque houvesse descido à casa de Naor, qual teria sido o motivo? Poupar Rebeca da dor de separar-se de seus amigos e do incômodo da viagem. Se essas coisas fossem o bastante para evitar que ela viesse, que valor teria ela para Isaque? O teste da separação era completo e não deveria ser omitido, fossem quais fossem os meios. Ela seria uma esposa inferior, se não pudesse fazer uma jornada para chegar até seu esposo.

E todos os conversos que a igreja poderá fazer através do rebaixamentos dos padrões de sua doutrina e tornando-se mundana não valerão um vintém furado. Quando os recebermos, a próxima pergunta será, "Como nos livraremos deles?" Não serão de utilidade para nós aqui na terra. O número dos Israelitas que saíram do Egito foi inflado por um grande número de Egípcios das classes inferiores que saíram com eles. Sim, mas esta multidão mista tornou-se a praga de Israel no deserto e lemos que "a multidão mista caiu em luxúria". Os Israelitas eram maus o bastante, mas era a multidão mista quem sempre liderava a murmuração.

Por que há uma tal morte espiritual hoje? Por que a falsa doutrina é tão disseminada as nossas igrejas? É porque temos pessoas não santificadas na igreja e no ministério. A ânsia por números e especialmente a ânsia por arrolar pessoas respeitáveis tem adulterado muitas igrejas e tem-nas tornado frouxas na doutrina e prática e amantes de entretenimentos tolos. Há pessoas que desprezam as Reuniões de Oração mas se apressam para ver "esculturas de cera vivas" em seus salões de escola. Deus nos salve de conversos que são feitos através do rebaixamento de padrões e da adulteração da glória da Igreja! Não, não! Se Isaque deve ter para si uma esposa, esta sairá do Líbano e de seu descanso e não se importará com uma viagem em lombo de camelo. Os verdadeiros conversos não são intimidados pela Verdade ou pela santidade – de fato, são essas coisas que os atraem.

Além disso, Abraão sentiu que não haveria razão para fazer com que Isaque descesse, pois o Senhor lhe havia assegurado uma esposa. Abraão disse "Ele enviará Seu anjo diante de ti, e tomarás de lá uma esposa para meu filho." Tendes medo de que a pregação do Evangelho não conquiste almas? Estás desanimado com relação ao sucesso em fazer as coisas à maneira de Deus? É por isso que vos entristeceis, almejando uma melhor oratória? É por isso que precisais ter música, e arquitetura, e flores, e adornos? Afinal, é pelo poder e força, e não pelo Espírito de Deus? Realmente é assim na opinião de muitos.

Amados irmãos, há muitas coisas que posso permitir a outros adoradores, as quais tenho negado a mim mesmo na liderança da adoração desta congregação. Por longo tempo tenho desempenhado diante dos vossos próprios olhos o experimento da atratividade do Evangelho de Jesus, sem a necessidade de auxílios. Nosso culto é severamente simples. Nenhum homem vem até aqui para gratificar os olhos com arte ou seus ouvidos com música. Tenho colocado diante de vós, através de todos esses anos, nada além de Cristo crucificado e a simplicidade do Evangelho. E ainda assim, onde poderíeis achar tal multidão como a que se encontra aqui nesta manhã? Onde poderíeis encontrar uma multidão tal qual a que aqui se congrega, sábado após sábado, por trinta e cinco anos?[2]

Tenho vos mostrado nada além da Cruz, a Cruz sem as flores do oratório. A Cruz sem as luzes azuis da superstição ou da excitação. A Cruz sem os diamantes da hierarquia eclesiástica. A Cruz sem as escoras da ciência arrogante. A Cruz é suficientemente abundante para atrair homens, primeiro a si própria e depois, para a vida eterna! Nesta casa, temos provado, ao longo destes muitos anos, esta grande Verdade de Deus – o Evangelho pregado em simplicidade conquistará uma audiência, converterá pecadores e edificará e susterá uma Igreja. Imploramos ao povo de Deus para que notem que não existe qualquer necessidade de tentarmos experiências duvidosas e métodos questionáveis. Deus ainda salvará através do Evangelho – apenas permitais que seja o Evangelho em sua pureza.

Esta grande e velha espada cortará a espinha dorsal do homem e repartirá uma rocha em duas. Por que, então, realiza tão pouco de sua antiga obra de conquista? Eu vos direi. Vêem esta bela bainha, obra de artistas, tão maravilhosamente elaborada? Muitos mantêm a espada nesta bainha e, desta forma, seu fio nunca alcança o objeto de sua obra. Desembainhai-a. Lançai esta preciosa bainha no Hades e vereis como, nas mãos do Senhor, esta gloriosa espada de dois gumes ceifará os campos de homens, assim como os ceifeiros cortam a erva com suas foices. Não há necessidade de ir ao Egito em busca de auxílio. Convidar o diabo para ajudar a Cristo é vergonhoso. Pela graça de Deus, ainda vereis prosperidade, quando a Igreja de Deus decidir nunca agir, a não ser da maneira do próprio Deus.

V. E agora, finalmente, observai sua justa absolvição de seu servo. "Se a mulher, porém, não quiser seguir-te, serás livre deste meu juramento; somente não faças lá tornar a meu filho."

Quando estivermos em nosso leito de morte, se houvermos pregado fielmente o evangelho, a nossa consciência não nos acusará de havermos nos mantido fiéis a ele – não lamentaremos o fato de não havermos desempenhado o papel de tolo ou político, de forma a aumentar a nossa congregação. Oh, não! Nosso Mestre nos dará completa absolvição, mesmo se poucos tenham se congregado, desde que tenhamos sido fiéis a Ele. "Se a mulher, porém, não quiser seguir-te, serás livre deste meu juramento; somente não faças lá tornar a meu filho." Não tenteis estratagemas que serão uma desonra para religião. Mantende a simplicidade do Evangelho. E, se as pessoas não forem convertidas por ele, estareis livres.

Meus caros ouvintes, quanto eu gostaria de vê-los salvos! Mas eu não trairia o meu Senhor, mesmo se fosse para ganhar as vossas almas, se elas pudessem ser ganhas desta forma. O verdadeiro Servo de Deus é responsável pela diligência e fidelidade; mas não é responsável pelo sucesso ou insucesso. Os resultados estão nas mãos de Deus. Se aquela querida criança em vossa classe não se converter, apesar de haverdes apresentado diante dela o Evangelho de Jesus Cristo com diligência amorosa, em oração, não ficareis sem recompensa. Se prego, do íntimo de minha alma, a grande Verdade de Deus, de que a fé no Senhor Jesus Cristo salvará meus ouvintes – e se os persuado e insisto com eles a crerem em Jesus, de forma a terem a vida eterna – se não fizerem isto, seu sangue cairá sobre as suas próprias cabeças.

Quando voltar para junto de meu Mestre, se houver pregado fielmente a Sua mensagem da Graça sem preço e do amor que O levou à morte, estarei limpo. Tenho orado freqüentemente para que possa ser capaz de dizer pelo menos o que George Fox pôde dizer de forma tão verdadeira – "Estou limpo, estou limpo!" É a minha mais alta ambição estar limpo do sangue de todos os homens. Tenho pregado a Verdade de Deus até onde a conheço e não tenho sido envergonhado por suas peculiaridades. Para que não obscureça meu testemunho, tenho me mentido afastado daqueles que erram em relação à fé e até mesmo daqueles que se associam a eles. O que mais posso fazer para ser honesto convosco? Se, depois de tudo, os homens não aceitarem a Cristo e Seu Evangelho e Seu domínio, isso é com eles próprios.

Se Rebeca não houvesse vindo a Isaque, teria perdido seu lugar na santa linhagem. Meu amado ouvinte, vais aceitar a Jesus Cristo ou não? Ele veio ao mundo para salvar pecadores e a ninguém rejeita. Vais aceitá-Lo? Confiarás nEle? "Todo aquele que crer e for batizado, será salvo" [Marcos 16:16]. Crerás nEle? Serás batizado em Seu nome? Se sim, a salvação é tua. Mas, se não, Ele mesmo disse, "Aquele que não crer, será condenado." [Idem].

Oh, não vos exponhais a esta condenação! Ou, se esta vier sobre vós – quando o Grande Trono Branco for visto nos céus e o Dia da Ira chegar – fazei justiça a mim e reconhecendo que implorei a vós para que fugissem para Jesus e que não vos diverti com teorias inovadoras. Não vos trouxe nem flauta, harpa, trombone, saltério, dulcimer, nem qualquer outro tipo de música para agradar a vossos ouvidos. Coloquei diante de vós a Cristo, e insisti para que cressem e vivessem.

Se vos recusais a aceitar a substituição de Cristo, tendes recusado Sua própria misericórdia. Livrem-me naquele dia de toda cumplicidade com invenções e novidades de homens desiludidos. Quanto ao meu Senhor, oro para que me conceda a graça de ser fiel até o fim, tanto à Sua verdade quando às vossas almas. Amém.

Porção das Escrituras lida antes do sermão – Gênesis 24
Hinos cantados do "Our Own Hymn Book" – 166, 928, 884.
Adaptado de The C.H. Spurgeon Collection, Versão 1.0, Ages Software, 1.800.297.4307
Notas:

[1] Os termos deste texto escritos entre [colchetes] são adições dos editores do sítio Música Sacra e Adoração, e não constam do texto original. Os textos bíblicos constam do original, mas, para dar maior embasamento ao artigo, os editores do referido sítio adicionaram as citações, que também estão entre [colchetes].

[2] O leitor atento percebeu que em alguns trechos o autor faz menção dos cultos aos domingos e, neste parágrafo em particular, faz uso do referência de encontros semanais aos sábados. Esclarecemos que o autor, C.H. Spurgeon, era membro da Igreja Presbiteriana, que, como a maioria das religiões protestantes, tem o domingo semanal (o primeiro dia da semana) como dia de guarda e de culto. Neste parágrafo, todavia, foi traduzido como "sábado" o termo original "shabbat".

Fonte: http://www.spurgeongems.org/vols34-36/chs2047.pdf
Traduzido 07/2006 Levi de Paula Tavares levipt@yahoo.com.br


Autor: Pr Charles Haddon Spurgeon
Fonte: www.obreiroaprovado.com

terça-feira, 8 de março de 2011

[Soteriologia] RELIGIÃO ESPIRITUAL

O ESPÍRITO É O QUE VIVIFICA; A CARNE PARA NADA APROVEITA (JOÃO 6: 63)

Para um leitor desavisado parecerá que o sentido dessa passagem está à superfície, mas quem estudou o capítulo verá que a sentença está repleta de dificuldades quanto a sua interpretação. Todavia, não tomarei o tempo de vocês entrando numa discussão crítica do texto; tentarei dar-lhes o que penso que o Espírito tinha em mente quando Jesus pronunciou esta frase. Depois voltarei para o sentido que acho que seria dado por alguém que não estuda muito a bíblia. Se eu estiver certo, mesmo que seja esta a verdade da passagem, irei demorar-me um pouco nisto.

“O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita”. Acho que no mundo inteiro não há quem consiga formar uma idéia inteligente do que seja um espírito. É muito fácil definir um espírito dizendo o que ele não é, mas eu duvido que existe alguém que possa formar uma idéia do que ele é. Às vezes falamos sobre ver um espírito; pessoas ignorantes dos tempos idos, ou aldeões do tempo de hoje, dizem que viram espírito à noite. Eles deviam saber que estão se contradizendo. Coisas materiais podem ser vistas, mas um espírito, mesmo se se vestisse com alguma substância. O espírito é algo que não pode ser tocado, visto, cheirado ou percebido de outra forma pelos sentidos; se fosse, isso seria a prova de que não era um espírito, mas algo material. Dividimos todas as coisas em matéria e espírito, e tudo o que pode ser reconhecido pelos sentidos é matéria, você pode ter certeza. Um espírito é sutil demais para ser visto ou ser percebido por algum outro sentido. Por isso digo que não existe ninguém em nosso estado mortal que poderá definir o que é um espírito, só pode dizer o que não é.

Existe um lugar onde os espíritos habitam sem corpo: é certo que no mundo futuro, no estado que se interpõe entre a morte dos santos e o dia da ressurreição, eles permanecem diante do trono de Deus sem corpo --- espíritos puros sem nenhum corpo. Pode ser que os anjos tenham algum tipo de corpo; não poderíamos imaginar o que seria o que são os anjos se eles não tivessem alguma forma ou aparência, mas é bastante certo que os santos diante do trono não têm nenhuma forma ou rosto. São espíritos puros, cuja substância não conseguimos imaginar; são sem mácula e sem matéria. Na terra você não vai encontrar um espírito puro. Todos nós somos espíritos dentro de um corpo e, de alguma forma, pelo fato de que alma e espírito são sempre encontrados em corpos, confundimos corpos e espíritos. Entretanto, devemos sempre estar cientes que corpos e espíritos são distintos; mesmo que Deus não tenha feito nenhum espírito sem uma casa onde morar, uma casa chamada corpo, este não é o espírito. “o espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita”.

Você vai concordar facilmente comigo que ninguém sabe dizer onde no corpo humano está a vida. Em vão um cirurgião coloca um cadáver sobre a mesa e o disseca; ele não vai encontrar a vida nem no cérebro nem no coração. Ele pode cortar o corpo em fatias da forma que quiser --- não encontrará nada que possa tocar, segurar e dizer: “isso é a vida”. Ele pode ver todos os efeitos --- os membros que se movem, as manifestações da vida causadas por algo sobrenatural, mas a vida ele não pode ver. Ela está totalmente fora de sua visão e, depois de procurar o quanto quiser, ele põe o bisturi de lado e diz: “não adianta procurar mais; há um espírito que aviva este corpo; para a procura da vida esta carne não me serve de nada. Eu poderia da mesma forma procurar uma alma em uma pedra ou em uma das colunas que sustentam este prédio; não acharei nada se estiver procurando algo que se pode ver, tocar, cheirar, sentir gosto ou de qualquer forma distinguir e descrever como um espírito”.

Esta ilustração leva-me a uma verdade. Nós estamos reunidos aqui como espíritos, como almas. Estamos aqui em nossos corpos; eles são a casa em que vivemos. Eu duvido que exista alguém que pode se definir; o máximo que alguém pode dizer é: “Eu sou, eu sei que existo, mas que tipo de coisa meu espírito é, não sei. Não sei dizer; não tenho a informação do que seja. Eu o sinto; eu sei que ele move meu corpo; percebo suas manifestações exteriores. Tenho certeza da minha existência, mas o que sou eu não sei; só Deus pode dizer”. “Eu sou o que sou” é compreensível para Deus, mas o ser humano é incompreensível para si mesmo. Mesmo que Deus lhe permita dizer: “Pela graça de Deus sou o que sou”, ele não sabe dizer o que é; ele não compreende sua própria existência. Entenda, então, que, assim como em nosso ser há um mistério em nossa carne, assim a religião, a religião verdadeira do Deus bendito, para ser adequada a nós, precisa ser uma religião do espírito; mas como temos um corpo, ela também precisa vestir-se de um corpo. Permita-me tornar isto claro, se eu puder; se você não o compreender agora, com certeza você o terá compreendido quando eu terminar. Nós somos espíritos dentro de corpos. Para adequar-se a nós, portanto, a grande obra de Deus em nós tem que ser algo espiritual; mas, para que eu possa falar sobre isso e você possa ouvi-lo, o que é espiritual, precisa ser inserido em corpo. Se fosse puramente espiritual, eu não poderia falar dele, assim como não poderia falar de um espírito se não há um corpo em que ele se encontra e um corpo que eu vivo para falar dele. Quero lhes mostrar isto porque algumas há pessoas que se ocupam tanto do corpo da religião que esquecem totalmente que a religião tem um espírito.

O que Jesus quis dizer nesta passagem é: “Simplesmente incorporar uma religião não adianta nada; é o espírito que vivifica”. Assim como, usando novamente a minha ilustração, para realizar um ato, só carne e sangue, braços e pernas não servem para nada, é preciso que o espírito avive os ossos e mova os tendões e ative os nervos. A religião tem sua forma exterior, nas cerimônias, seu desenvolvimento visível, seu corpo, mas o mero corpo exterior da religião não tem serventia nenhuma se o espírito não vivificar.

I. Para começar, quero mostrar o que Jesus quis dizer quando pronunciou a frase acima, no seu contexto. Nos dias do nosso salvador havia algumas pessoas que admiravam a Cristo. Admiravam-no como homem, pensavam que havia uma eficácia milagrosa em sua carne e sangue. Foi então que Jesus lhes disse as palavras do nosso texto: “Só a minha carne para nada lhes aproveitará; é o espírito que vivifica”. Nós podemos afirmar esta verdade com muito cuidado, mas com muita clareza. Quando nosso salvador esteve na terra teve algumas pessoas que, poderíamos dizer, admiravam sua pessoa. Você lembra daqueles que disseram: “Bem aventurada aquela que te concebeu, e os seios que te amamentaram!”, e de como o Senhor os repreendeu, ele não deixava que as pessoas admirassem sua carne e pensavam muito de sua humanidade. “Não”, Ele respondeu, “Bem aventurados os que ouvem as palavras de Deus e as guardam!” Haviam outros que queriam fazer o senhor Jesus ser rei. A estes ele disse: “Minha carne se vocês a colocarem em um trono, não lhes aproveitará para nada. Eu não vim aqui para que vocês se curvassem diante de mim e venerassem a minha carne, para que pensassem que me admirar é religião. É o espírito, o evangelho que eu vim pregar, que beneficia. Não são essas ações externas; são os pensamentos e as palavras que eles interpretam que importam”. Ouça o que o salvador disse na frase seguinte: “Não será a admiração da minha carne de alguma utilidade para vocês, porque minha carne não serve para nada; é o espírito que vivifica, e, se vocês quiserem saber qual é o espírito da minha encarnação, eu lhes digo que as palavras que eu lhes digo são espírito e são vida. Não será a veneração da minha carne e sangue, mas das minhas doutrinas, a alma e coração da religião que eu quero que vocês sintam”.

Nosso salvador, entretanto, foi levado a fazer essas observações pelo fato de, quando falou sobre comer sua carne e beber seu sangue, os pobres judeus pensaram que ele queria que eles se tornassem canibais e o devorassem. Podemos sorrir com uma idéia assim ridícula, mas sabemos que a idéia ainda está em voga na igreja de Roma. O sacerdote romanista assegura solenemente que quem come o pão e bebe o vinho, ou aquilo que ele serve como pão e vinho, na prática age como canibal, comendo do corpo de Cristo e bebendo seu sangue. Você pode perguntar-lhe a sério:

--- Caro senhor isto é em termos figurados, não é mesmo, espiritualmente?

---Não --- diz ele, --- não é. Estou dizendo que quando pronuncio certas palavras sobre o pão, ele se torna corpo de Cristo, e depois que eu disse um abracadabra sobre o vinho, ele se torna sangue de verdade.

---Bem --- nós lhe respondemos, --- isto é mesmo interessante, e nós achamos que o senhor não espera que creiamos nisso, uma vez que Deus permitiu que nossas cabeças fossem ocupadas por cérebros; porém, mesmo que creiamos, caro senhor, mencionamos esta passagem que diz: “O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita”, enquanto o senhor diz ao povo que eles realmente estão ingerindo carne e sangue. Imagina que seja verdade; o mero corpo e sangue de Cristo não têm serventia terrena para eles --- mesmo que em sua carne eles o metam entre os dentes e façam descer pela garganta, não lhes seria de serventia maior do que comer carne ou sangue de outra pessoa. Isso não faria nada por ele; o próprio Cristo denuncia o erro da transubstanciação, declarando que sua carne e sangue não aproveitam para nada. Somente o espírito, o receber espiritualmente carne e sangue, que nos pode ser de algum proveito.

Enquanto estou aqui me permita dizer mais uma palavra, porque o papismo ainda tem força hoje em dia, e essa doutrina de que pão e vinho se transformam em carne e sangue de Cristo é um dos pilares do papismo. O Dr. Carson de Coleraine contradisse o Dr. Cahill de modo marcante. Ele desafiou o Dr Cahill para provar que pode transformar o pão e vinhos usados no sacramento no corpo e sangue de Cristo. Ele ofereceu cem libras ao Dr. Cahill se o deixasse preparar uma hóstia, para que o Dr. Cahill a colocasse na sua boca e a engolisse em sua presença.

---Se o Dr. Não estiver morto em uma hora, eu lhe darei cem libras.

---Não --- disse alguém, --- isto não é justo.

--- Bem, -- mas se ele sabe transformá-la no corpo e sangue de Cristo, ela não pode prejudicá-lo, não importa do que eu faça.

--- Quer dizer que o senhor a fará de veneno?

--- Sim do mais mortal que eu encontrar.

--- você realmente lhe daria veneno?

--- Eu não lhe daria veneno; ele é que o engoliria, por sua livre e espontânea vontade.

O Dr. Cahill retrocede, ele não tem como transformá-la no corpo e sangue de Cristo. Se pudesse, o Dr. Carson afirma que não lhe faria mal, pois o corpo e sangue de Cristo não podem envenenar. Entretanto alguns romanistas sábios dirão:

--- Isto não é justo. O Dr. Não tem a intenção de transformar veneno no corpo e no sangue de Cristo; só pão puro.

--- Está bem --- diz o Dr. Carson, --- vou testá-lo de outra forma: eu deixarei que ele escolha dentre sete ou oito rapazes católicos, depois transforme um litro de vinho a sua maneira no sangue de Cristo. O rapaz deve beber o litro de vinho e, se não estiver bêbado após seis horas, eu lhe pagarei as cem libras. Se isto é o sangue de Cristo, não o tornará bêbado; poderá beber um barril inteiro sem que o intoxique.

O Dr. Cahill não se arrisca a encarar o desafio, porque acho que ele logo descobrirá que este vinho embebeda o rapaz como qualquer outro vinho; por isso, não deve ter sido transformado em nada parecido com o sangue de Cristo, nem pelo próprio grande médico. O fato é que a mentira é tão palpável, a ilusão tão absurda, que qualquer criança de qualquer idade logo pensaria em acreditar na história do galo e do boi que gostávamos de ouvir em nosso tempo de criança, sobre o que o boi disse ser a verdade e o que o galo disse, antes de acreditar que seja realidade que um sacerdote ou qualquer outra pessoa no mundo pode pão e vinho em corpo e sangue. Ainda assim, mesmo que pudessem, observe as palavras do texto: “O espírito é que vivifica; a carne para nada aproveita”. Se, no fim das contas, o sacramento católico romano é realmente uma festa canibal com o corpo e o sangue de Cristo, isto não lhes traria proveito terreno; somente o sacramento em que recebemos a carne e o sangue de Jesus de uma maneira espiritual e assim temos comunhão com Ele é que nos dá vida.

Isso me leva a verdade específica a que quero chegar. Assim como Cristo Jesus foi a personificação da sua doutrina, e que não é sua carne mas o espírito da sua doutrina que aviva a alma, assim as formas e cerimônias externas que Cristo preparou com um corpo que contém o espírito, não há nenhuma serventia terrena se o Senhor não estiver nelas. Pensemos no batismo: ali estão o lago e a água; estes são, por assim dizer, a carne e o sangue da dedicação. Esta ordenança santa significa que nos dedicamos ao senhor Jesus. Imagine, porém, que nossos corações estejam em situação errada ou que não sejam convertidos --- imagine que não estamos sob influência do espírito no ato do batismo --- então o ato do batismo é como a carne do corpo: é coisa morta, sem nenhum proveito, porque está sem a alma. No próximo domingo teremos a mesa do Senhor: os servos de Deus quebrarão o pão, os diáconos da igreja servirão com mãos santas o vinho para cada um receber seu gole. Mas veja, não importa a reverência com que o ato é executado, se o espírito do Deus vivo não inspirar toda ordenança divina, “a carne”, isto é, a forma física da comunhão, não lhe aproveitará nada. Você pode participar de milhares de “sacramentos” e ser batizado numa miríade de lagos, tudo isto não acrescentará nem um “i” nem um “til” à sua salvação, se não tiver o espírito que o aviva.

Avancemos mais um pouco, não são só essas duas ordenanças que precisam ter o espírito em si: o mesmo vale para tudo o mais. Queridos amigos, vocês já leram sobre cristãos famosos que tiveram uma comunhão profunda com Cristo através da oração. Talvez você já tenha concluído que, se você fosse para casa e passasse tantas horas em seu quarto quanto eles, você teria o mesmo proveito que eles. Sem pensar no Espírito Santo, você ficaria em seu quarto como faria em qualquer exercício manual, na esperança de tirar proveito do simples gesto. Eu lhes digo, vocês podem ficar de joelhos até estes ficarem em carne viva e podem ficar em seus quartos até que o vapor da sua devoção escorra pelas paredes, mas se o espírito do Senhor não esteve com você naquele quarto, a simples prática carnal da oração não lhe traria mais proveito do que se estivesse cantando louvores à lua ou ficasse parado na rua vendo seus bens.

Outro ouve que certa pessoa foi muito abençoada com a leitura de um texto bíblico. “Oh!”, diz ele, “este texto foi uma bênção para o outro? Então vou ler o mesmo texto para mim”. Você acha que, se fizer o mesmo que o outro fez, você receberá a mesma bênção? Você terá uma surpresa decepcionante ao ler a passagem e descobrir que ela não lhe diz nada. Ela fez o espírito do outro saltar de alegria, encheu sua alma com o vinho do reino, mas para você ela é como um poço seco ou uma garrafa vazia. Por que isso? A simples letra com a qual a promessa foi expressa não lhe traz nenhum proveito; só o espírito da promessa, a vida do espírito que corre pelas veias da promessa é que pode ser-lhe útil.

Você ouve de outro que medita na lei de Deus dia e noite e se torna como uma árvore plantada junto aos ribeiros de água. Então você diz: “Eu tomarei providência para ler a cada manhã um capítulo e dois a cada noite”. Há pessoas que acham que, se lerem trechos grandes da bíblia, terão feito um bom negócio. Neste espírito não faz diferença se elas lerem trechos filosóficos, pois passam pelo texto sem entendê-lo. Muitos de nossos pastores pensam que devem ler trechos longos das escrituras no culto, por exemplo, três capítulos de Ezequiel, e ninguém sabe do que estão falando. Se lessem um sermão em holandês para um publico inglês, fariam o mesmo bem. O texto de Ezequiel fala de efas e rodas dentro de rodas, mas ninguém entende muito bem o que significam. Em vez de ler como fazia Esdras, explicando o texto para o povo, eles só lêem – passando por cima de cercas e fossos como numa competição a cavalo! Em vez de parar para quebrar as cascas e dar grãos de verdades para o povo, eles continuam lendo. Para pessoas assim podemos dizer: “Sua leitura Bíblica e só carne, que para nada lhe aproveita; o espírito é que vivifica. A mera carne, a simples forma externa da leitura bíblica não trará proveito para ninguém. Uma pequena porção da bíblia sobre a qual o pregador orou, avivada com orvalho do espírito, mesmo que seja uma frase curta com seis palavras, será uma bênção maior do que cem capítulos sem o espírito, porque são carne --- estão mortos. Este versículo curto com o espírito, traz vida”.

Não sei se consegui me fazer entender completamente; o que eu quero que todos compreendam é que não são as manifestações exteriores da nossa religião que salvam a alma e nos trazem proveito; é o espírito interior da coisa que o faz. Veja, eu não tenho problemas com nenhuma destas formas, assim como não tenho com nossos corpos só porque não são espíritos. Nossos corpos servem para habitação do espírito, e as formas são boas para o espírito que há nelas; mas a forma sem espírito, por mais enfeitada e aparentemente consagrada seja, não trará proveito eterno e salvação para a alma. “O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita”.

Agora, prezado amigo Sr fulano, se você tomar um lápis e relacionar tudo o que fez nestes anos todos, o resultado será bem pequeno se o que estou dizendo é verdade. “Eu acho”, diz você, “que sou uma pessoa razoavelmente boa; tenho alguns poucos defeitos, mas veja tudo que eu fiz. Tenho ido a igreja quase sempre duas vezes a cada domingo desde que sou menino ---não me lembro de ter faltado, a não ser quando estava doente. Isto foi bom da minha parte, nada de errado. Leio a bíblia todas as manhas; oro com a família, o que também é muito bom da minha parte: outro ponto a meu favor. Faço minha orações a noite quando vou dormir e quando levanto de manha. Vou com muita freqüência aos cultos de oração. Não creio que alguém possa me acusar de alguma coisa; acho realmente que faço tudo para ser uma pessoa realmente religiosa”. Antes que você esqueça, acrescente no fim: “ obrigado, Senhor, porque não sou como as outras pessoas, injusta, aproveitadoras” etc., nem como aquele coitado lá, que quebra o sábado, que você viu indo na direção oposta quando você vinha para cá. É pena que você não terminou a frase; mas, mesmo que não o tenha feito com palavras, você a terminou em seu coração. Eu peço a Deus que lhe mostre que todas estas sua coisas bonitas não servem para nada. Veja você, com todas as suas idas à igreja – tudo é carne. Você nunca recebeu o espírito do Deus vivo; você não se atreve a dizer que recebeu. Bem, todas estas coisas não adiantarão nada para você. Só o espírito vivifica. Você sabe, caro Senhor, e deixe-me ser bem claro – você sabe que nunca entra no espírito da coisa. Apesar de ir regularmente ao culto, você sabe que não faria diferença se ficasse em casa, pois quando eles cantam, você não canta junto de todo o coração; quando o pastor prega, raras vezes algo toca você, exceto uma boa tirada intelectual que lhe agrada, em que você crê, que concorda com o que você pensa, e assim por diante. Você sabe que nunca aprendeu a mergulhar no interior da alma, na medula, nas profundezas da devoção. Você sabe que sua devoção é como aquele boi que certa vez foi morto no cerco de Roma e que serviu de mau agouro porque o adivinho que o abriu disse que não encontrou coração nele. Procurou em todas as entranhas e não achou o coração; por isso os romanos disseram que sua cidade devia ser destruída. Para eles era um presságio solene quando o sacrifício não tinha coração. O mesmo ocorre com você. Você fez todas aquelas coisas, sim, e houve tanta realidade em tudo que você fez como houve consagração no moinho do pobre calmuque que amarrou suas orações nele, e cada vez que o vento fazia as pás do moinho darem uma volta, ele contava uma oração a mais. Houve tanto conteúdo em suas orações como no moinho dele, ou seja, nenhum. É isso! Até onde você conseguiu ir? Não continue com esta rosca sem fim de rotinas inúteis. Não quero que você deixe de fazer estas coisas; mas pare e peça que Deus lhe dê o espírito interior que aviva, porque é verdade que “A carne para nada aproveita”.

A vocês que são filhos de Deus devo dizer o seguinte: quantas vezes vocês esqueceram disso? Eu sei que é rara a manhã em que saio do meu quarto sem orar. Todavia, muitas vezes sai do meu quarto sem o espírito de oração. Eu não gosto de passar o dia sem ter lido na escritura, mas temo que muitas vezes é só a “carne” da leitura e não o espírito soprando na palavra que recebo. Quantas vezes nossa consciência está satisfeita com a mera forma sem o espírito! Se fossemos mesmo o que deveríamos ser, jamais nos contentaríamos com a forma se não víssemos espírito nela. Mãe, você ficaria contente por ter em casa uma criança morta? Imagine que alguém lhe diga:

---Ora, esta criança é tão boa como sempre foi! Olhe para ela! Não perdeu nenhuma perna, braço ou outra coisa!

---Sim, mas---você responde, --- ela está morta.

---Bem --- diz outra pessoa, --- não há diferença. Ela está tão bonita como sempre esteve.

---Sim --- diz a mãe, --- mas há uma diferença grande entre quando ela estava viva e agora que está morta.

Agora transfira isto para suas pobres orações mortas, sua pobre leitura bíblica morta, seus pobres sacramentos mortos, suas pobres idas à igreja mortas e tudo isto! Quantos dos nossos sacrifícios não passam de pobres coisas mortas. Quando os trazemos, eles morreram durante a noite, e nós os oferecemos a Deus! Quantas vezes satisfazemos a nos mesmos tendo a “carne”, a forma exterior do sacrifício, esquecendo o espírito! Lembremo-nos que Deus só olha para a vida. Ele não procura o corpo; por isso, em tudo que fazemos para Ele, devemos cuidar primeiro do espírito depois podemos descansar, certos de que a carne e sangue da devoção tomarão conta de si mesmos.

II. Creio que este é o sentido da passagem. Entretanto, a maneira comum de entendê-lo, se a pessoa não presta atenção no contexto, é: “Bem, é o espírito que vivifica, isto é, o Espírito Santo; a carne para nada aproveita”. Nossos amigos que me desculpem se digo que o sentido não pode ser esse. Vocês percebem que o “e” no sentido é minúsculo. Se a referência fosse ao Espírito Santo, isto seria destacado, para fazer separação do espírito do qual acabei de falar --- o espírito interior, a vida da coisa. A palavra “espírito” aqui não é o Espírito Santo, porém mesmo assim a maioria dos leitores comum cometeria o erro e diria: “É o Espírito que vivifica; a carne para nada aproveita”. Este erro não lhe faz nenhum mal porque não é assim que está escrito, nem em outro lugar. Mesmo que fosse diferente neste texto, não o é em toda a bíblia, nem na experiência do cristão, de modo que as pessoas podem cometer erros bem piores do que este. Façamos, então, este erro, para depois voltarmos à verdade; “O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita”.
Quanta vez pensou: “Vejo uma jovem ou rapaz na galeria; como olham com interesse durante a pregação!” Fui visitá-los, gostei do caráter deles. Eles se vestem e portam de modo agradável, há muito neles que qualquer pessoa faria bem em imitar e seguir. Pensei comigo: “que bom! Em breve irei acrescentá-los na igreja; há tanta coisa boa neles que a transição será fácil para eles. Eles são tão excelentes e de boa conduta que não terão dificuldade para dar o passo para dentro do reino do céu”. Não digo que tenho usado essas palavras, mas é assim que pensava em meu coração. Bem, houve um rapaz que veio ao culto certa noite, uma pessoa de aparência realmente esquisita. Ele entrou correndo numa quinta feira a noite perto do fim do culto, sem banho tomado nem nada; ele só entrou pensando encontrar algo que o fizesse rir. Eu não esperava vê-lo convertido. A próxima ocasião em que eu estava atendendo pessoas com problemas, ele veio mais ou menos limpo e bem vestido. Apesar disso eu o reconheci e lhe disse:

---Não foi você que entrou quinta feira a noite, depois de dar umas voltas por ai? Você tinha uma aparência realmente estranha.

---Sim--- ele respondeu, --- e o Senhor se encontrou comigo.

Bem, eu esperei muitas noites, e não vi o rapaz ou a moça vir ao culto. Porque? O Senhor estava ensinando o seu servo que “a carne para nada aproveita”. “Não”, disse o Senhor, aquele homem parecia estar longe de Deus, e aquele rapaz e a moça pareciam estar pretos de mim; eu poderia salvar um como o outro e, se quisesse demonstrar minha soberania, poderia até fazer publicanos e meretrizes entrar no reino do céu antes destes que, orgulhosos de sua moralidade, não se curvam diante de mim”. Vocês já não encontraram pessoas com um caráter tão peculiar que disseram; “É uma pena que ninguém pode falar com este homem”?

Eu costumo receber muitas cartas. Um pai me escreveu: “Eu gostaria que o senhor tomasse conta do meu filho. Ele é um jovem muito interessante; se o senhor colocasse a verdade diante dele de uma maneira que ele entenda, ele com certeza a abraçaria, porque, se o senhor soubesse como sua mente foi formada, o senhor diria que ele está muito bem preparado para receber o evangelho”. Bem, já me disseram isso uma dúzia de vezes, mas nem uma vez comprovou ser verdadeira --- nunca. “A carne para nada aproveita”. Não existe nenhuma mente mais preparada para as influências do evangelho que outra. Pecadores mortos são todos mortos e todos igualmente mortos. Alguns podem ser brancos e outros pretos; alguns podem ser bem lavados e vestidos, outros podem ter toda a lama da sensualidade deles; todos estão igualmente mortos e, quando a graça que converte começa a lidar com eles, encontra o mesmo tanto de trabalho a fazer num como no outro. Ela recebe a mesma ajuda de um coração como do outro – ou seja, nenhuma. Ela traz tudo consigo: acende seu próprio fogo com sua própria tocha, ela faz o seu fogo pegar com seu próprio sopro e não pede nada ao pecador, seja ele quem for.

Outra vez, temos alguém que diz: “Se aquele se convertesse, meu amigo, que cristão brilhante isso daria!” Ele tem um talento brilhante, grande capacidade intelectual, extensa fortuna. Se ele se convertesse que festa seria na igreja de Deus! O quanto ele poderia fazer”! Bem, você sabe, eu descobri que essas pessoas especiais, que seria alguma coisa quando se convertessem, depois que se convertem e nós conseguimos por a mão nele, acaba não sendo grande coisa!conheci um pastor que batizou um homem com muita alegria e felicidade. Foi no dia de ano novo, e lembro com que satisfação ele disse: “O Senhor enviou-me o melhor presente de ano novo que já tive!”E, olhando para o homem continuou: “Isto é que é irmão. Ele foi uma grande aquisição para a igreja; um homem de espírito tão ativo, de disposição mental tão excelente --- ele é tudo o que eu poderia desejar”. Bem, acontece que eu vivi o suficiente para ver este homem dividir a igreja e desalojar o pastor do seu púlpito, e ele ainda vive, um espinho na carne daquela igreja, um arbusto bem grande e bem cheio de espinhos que eles gostariam muito de arrancar, mas não tem força para fazê-lo. Não; O Senhor quer nos mostrar que “a carne para nada aproveita”. “Você pode ficar com ele”, diz o Senhor, se ele é um sujeito tão bom; leve-o, fique com ele; você descobrirá que ele não vale tanto, afinal de contas. Eu quero lhes ensinar que não há nada de tão bom na carne; só o espírito traz vida”.

Por outro lado, temos visto pessoas cuja carne não os ajuda em nada: os pobres, os marginalizados, os analfabetos, os desprezados; e temos visto a graça de Deus ascender um grande fervor em seus corações, e temos visto como eles ficam de pé, confiantes e fortes, apesar da nulidade da carne. Então dissemos: “Verdadeiramente, ó Deus, é impressionante como, quando a carne é fraca, tua graça é forte”. E ouvimos uma resposta da “Glória excelente”: “Sim, o espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita”.

Portanto, não creio que haja em alguma forma da nossa carne, ou em algum ato ou em qualquer coisa que nossa carne possa fazer, ou tentar fazer, ou pensar em, ou sugerir, que de alguma forma possa auxiliar na grandiosa obra espiritual da nossa salvação. Só o espírito vivifica; você descobrirá até o dia da sua morte que “a carne para nada aproveita” a não ser para o diabo, a quem com freqüência traz proveito; mas nos caminhos de Deus e no evangelho de Deus você sempre verá a carne competindo com o espírito e o espírito lutando com a carne.

Agora, meu irmão, para concluir, quero lhe fazer esta pergunta: Você já experimentou a influência Espírito Santo? E estas influências o levaram a adorar a Deus, que é espírito, “em espírito e em verdade?” Porque se não, mesmo que haja quem ponha você no berço das cerimônias e o embale até adormecer, eu não serei um deles. Mesmo que as pessoas digam que você está suficiente em ordem porque externamente é tão religioso, porque não trabalha no domingo, não diz palavrões, não se embriaga, eu o advirto que, se não nascer de novo de cima, você não verá o reino de Deus; e quando os bêbados, as prostitutas e todo o tipo de pessoas iníquas forem expulsas da presença de Deus, você compartilhará o destino delas, porque você está morto em pecados e precisa ser avivado pelo espírito. Não direi mais nada, além de suplicar solenemente ao Espírito do Deus bendito que toque os seus corações com seu pensamento solene e os leve a renunciar às obras da carne e a por sua confiança naquele que é o “Salvador de todos os homens, especialmente dos que crêem”.


Autor: Pr Charles Haddon Spurgeon
Extraído de: Spurgeon´s Sermons
Fonte: www.obreiroaprovado.com

sábado, 19 de fevereiro de 2011

[Discipulado] CHAMADO AO DISCIPULADO

Marcos 2.14: “Quando ia passando, viu a Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me! Ele se levantou e o seguiu”.

Esta é a única e verdadeira possibilidade de existir discipulado, a relação imediata entre chamado e obediência.
A resposta do discípulo não é uma confissão oral da fé em Jesus, mas sim um ato de obediência.
O que a gente sabe a respeito do conteúdo do discipulado? Jesus tem a resposta: “Segue-me! Vai andando atrás de mim! Isso é tudo! Isso não parece um programa de vida cheio de realização, sucesso , satisfação, não é algo que pelos padrões humanos mereça sacrifício.
O discípulo é chamado a abandonar tudo, tudo mesmo, sua própria existência anterior, o que é velho deve ficar para trás, totalmente abandonado.
Bonhoeffer diz que o discípulo é:
• arrancado de sua relativa segurança de vida, e lançado à incerteza completa (i. é na verdade, para a absoluta segurança e proteção da comunhão com Jesus);
• de uma situação previsível e calculável (i. é de uma situação totalmente imprevisível);
• para dentro do imprevisível (i. é na verdade, para dentro do que é unicamente necessário e previsível);
• do domínio das possibilidades finitas (i. é, na realidade as possibilidades infinitas);
• para o domínio das possibilidades infinitas (i. é, para a única realidade libertadora).
Qual é o conteúdo do discipulado? Não qualquer outro conteúdo, porque Jesus é o único conteúdo. O chamado ao discipulado é, portanto, comprometimento exclusivo com a pessoa de Jesus Cristo.
Concepções e ideias sobre Cristo, um sistema de doutrinas a respeito de Cristo, conhecimento religioso a respeito de Cristo, da sua graça e do seu perdão, não são necessariamente discipulado, na verdade, na maioria das vezes excluem Cristo, são contra Ele.
Saber algo sobre Cristo pode fazer você ter uma relação de conhecimento, de admiração por Ele, talvez até de fazer algo por em nome d’Ele, mas nunca uma relação de discipulado pessoal e obediente.
Cristianismo sem Jesus Cristo vivo, é cristianismo sem discipulado, e cristianismo se discipulado é cristianismo se Jesus Cristo, é uma ideia, um mito. Discipulado sem Jesus é escolha pessoal de uma caminho talvez ideal que talvez possa leva até ao sacrifício, mas discipulado sem Jesus não tem promessa, Jesus vai rejeitá-lo.
Discipulado é viver pela fé, e o caminho para a fé passa pela obediência ao chamado de Cristo. Jesus exige um passo decisivo, senão o chamado de Jesus fica no vácuo, e tudo aquilo que achamos que é discipulado, sem esse passo radical para o qual Jesus nos chama, se transforma em entusiasmo mentiroso.
Só o crente é obediente, e só o obediente é que crê. A fé só existe na obediência e jamais sem ela, e só é fé verdadeira no ato da obediência.
Quem sabe você se queixa de não conseguir crer: ninguém precisa se admirar de não poder crer enquanto se opõe ou se esquiva, em algum ponto, numa desobediência consciente, ao mandamento de Jesus.
Se você não quiser sujeitar ao mandamento de Cristo uma paixão pecaminosa, um rancor, uma mágoa, uma esperança humana, os planos da sua vida, a sua razão, não fique admirado se não receber o Espírito Santo, de não conseguir orar, de continuar a sentir dificuldade em crer.
Seja obediente, ouça o chamado de Jesus, vai reconciliar-se com seu irmão, vai e abandone o pecado do qual você é escravo e você vai poder crer novamente.
Se você rejeita o mandamento de Jesus, você não pode receber a palavra da graça. Como você pode encontrar a comunhão daquele de quem você fica se esquivando conscientemente em várias questões da sua vida? O desobediente não pode crer; somente o crente é que crê.
O desobediente não pode ouvir a Palavra de Cristo, é impossível que ele venha a crer n’Ela.
É como aquele diálogo entre o desobediente e o pastor.
Desobediente: Pastor, eu não consigo crer!
Pastor: Escuta a Palavra que está sendo anunciada à você!
Desobediente: Eu escuto, mas ela não me diz nada, continua vazia, não me atinge!
Pastor: Você não quer ouvir!
Desobediente: Quero sim!
O que dizer a uma pessoa assim? Somente o crente é que é obediente, e somente o obediente é que crê, portanto, o fato é que por trás de todos estes argumentos do desobediente sobre sua incapacidade de crer, se esconde a sua própria desobediência. Então aquele pastor diz ao desobediente:
Pastor: Você é desobediente, porque você se recusa a obedecer a Cristo. Você quer reservar uma parcela de domínio da sua vida para você mesmo. Você não pode ouvir a Cristo por ser desobediente, você não pode crer na graça por não obedecer; lá num cantinho do seu coração você está obstinado contra o chamado de Jesus. O seu problema é o pecado da desobediência!
A única solução de resolver nossos problemas, nossos conflitos com o pecado em nossa vida, é o mandamento de Cristo, é obedecer de uma vez por todas. E não apenas obedecer por obedecer, mas, obedecer para viver na comunhão com Cristo, porque o principal não são os mandamentos, mas Cristo que é o objetivo do mandamento.
Temos que para de se refugiar na mentira do conflito. O mandamento é claro: “Segue-me!”
Mas qual é o caminho a percorre no discipulado? Jesus diz: Eu te chamo, e isto é tudo!
O conteúdo do discipulado é Jesus Cristo, não há outro conteúdo, que não seja a ligação e a comunhão com Ele. Não somos chamados a apenas seguir o bom Mestre, mas viver na obediência ao filho de Deus.
Somos chamados a nos negar a nós mesmos no discipulado, para que Cristo seja o único objetivo do nosso existir e a autonegação consiste em conhecer apenas a Jesus e não mais a si próprio.
Somos chamados a tomar a cruz. Quem não quiser tomar a sua cruz com medo de sofrer as consequências que isto traz, de ser rejeitado pelos homens, de ser exposto ao sofrimento, esse perde a comunhão com Cristo e não é seu discípulo.
Mas quem perder a sua vida no discipulado, no carregar a cruz, este vai encontrar sua verdadeira vida no próprio discipulado, na comunhão da cruz com Cristo.
Você quer vencer? A cruz é a sua vitória!
Se você quiser se livra do fardo da cruz que te é imposto, você não vai se libertar do fardo, ao contrário, você vai levar um fardo maior ainda, pois o fardo de si mesmo é insuportável. Mas quando o discípulo leva por livre escolha a sua cruz, nessa própria cruz encontrará certeza de proximidade e comunhão com Cristo porque é a Cristo que o discípulo encontra ao tomar sobre si a sua cruz.
Somos chamados a ser sal da terra e luz do mundo, a marcar presença, a sermos vistos, a sermos misturados não com o mundo, mas entre o mundo para ser diferença. Aquele que quer fugir ficando invisível ao mundo, nega o chamado. Igreja de Jesus que quer passar despercebida, não é Igreja no discipulado.
Mas como ser discípulo se temos uma carne que luta contra o espírito? Somos tentados a alimentar a nossa carne e não a deixa-la morrer no discipulado.
Por que não consigo crer, por que não consigo orar, por que não consigo servir, alguns dizem!
Porque alimentamos a carne com a desobediência, e a carne bem alimentada não gosta de orar e nem se dispõe a crer e muito menos a servir.
O que é a vida de fé e discipulado senão a infinita luta do espírito contra a carne?
Como alguém pode querer viver na fé, quando orar é algo enfadonho, quando já perdeu o gosto pela leitura da Palavra? Como pode viver na fé e no discípulo aquele para quem o sono, a comida, a vaidade, o dinheiro, o trabalho, o desejo sexual sempre de novo roubam a alegria em Deus?
O “alimento” do mundo querem desviar o coração do discípulo. Para onde está orientado o coração do discípulo? Para a riqueza do mundo, para Cristo e as riquezas do mundo? Ou está orientado unicamente para Cristo? A luz do corpo são os olhos, a luz do discípulo é o coração. Se os olhos estiverem embotados, como deve estar o nosso coração! E se o coração estiver em trevas, que terríveis trevas existem em seu interior! O coração do discípulo, portanto, se entreva quando se apega às coisas deste mundo.
O chamado de Jesus é radical e a única resposta é a obediência! O chamado prevê um relacionamento compromissado, exclusivo, único, de comunhão com Cristo.
O discípulo não pode viver com um pé na Igreja e outro nas coisas do mundo, pois assim não é verdadeiro discípulo.
O verdadeiro discípulo é crente e obediente, e só obedece e crê quem é discípulo?
E você, quem é?

Baseado no livro DISCIPULADO de Dietrich Bonhoeffer

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

[Discipulado/Evangelismo] O CICLO DO EVANGELISMO E DISCIPULADO: UM PROCESSO SEM FIM


Quando Jesus delegou a Grande Comissão para Seus discípulos, não era uma ideia nova para eles. Através de Seu ensino e exemplo, Jesus já vinha preparando seus discípulos para a tarefa.

A missão dos discípulos antes não era a de meramente agrupar outro movimento social religioso. Deveriam participar da atividade divina de Deus no mundo, redimindo a humanidade perdida para Ele. Da mesma forma que os discípulos tinham visto a multiplicação dos pães e dos peixes, deveriam agora participar perpetuando e multiplicando a mensagem para a qual Jesus os havia comissionado.

Cada um dos quatro Evangelhos conclui com uma ênfase sobre a missão para a qual Jesus comissionou Seus discípulos no final de Seu ministério terreno. As passagens sobre a Grande Comissão nos três Evangelhos Sinóticos, bem como em João, claramente apresentam uma missão abrangente que inclui evangelismo e discipulado.

Uma definição acurada e abrangente de evangelismo foi dada por William Temple, o 98º Arcebispo da Cantuária (1942-44): “Evangelismo é tão somente apresentar Jesus Cristo no poder do Espírito Santo de que os homens podem confiar n'Ele como Salvador e servi- LO como Senhor na fraternidade de Sua igreja”.

Tratar o evangelismo e o discipulado separadamente é fazer uma distinção artificial. Da mesma forma que uma linha não pode ser desenhada entre as cores de um arco-íris, o evangelismo não pode ser separado do discipulado nas Escrituras. O evangelismo e o discipulado não são duas partes de uma progressão que começa com evangelismo e culmina no discipulado. Pelo contrário, ambos compõem um ciclo. O evangelismo não deve ser empreendido com o objetivo de discipulado e o discipulado não deve preparar os crentes para o evangelismo.

Evangelismo Pré-Discipulado
Na Parábola do Semeador, Jesus ensinou que a semente — a Palavra de Deus, ou a mensagem — cairia em diferentes tipos de solo. Algumas pessoas que ouvirem a mensagem não irão responder e algumas que responderem não irão permanecer.

Alguns abordam a Parábola do Semeador a partir de uma perspectiva negativa porque três dos quatro tipos de solo falharam em produzir vida duradoura. Porém, a parábola vai além desses empecilhos ao triunfo da Palavra de Deus em produzir o Reino de Deus. Muito embora boa parte da parábola seja dedicada a enumerar os três tipos improdutivos de solo, apenas uma pequena parte da semente lançaria sobre aqueles lugares num campo real. A parábola não implica necessariamente que a maior parte do trabalho do semeador esteja perdida.

Muitas exposições tratam a Parábola do Semeador como tendo quatro tipos de solo: rochoso, arenoso, espinhoso e o de boa qualidade. A parábola pode, no entanto, ser vista como apresentando dois tipos de solo: o produtivo e o não produtivo. Três exemplos são dados para cada tipo de solo. Toda pessoa enfrenta um de apenas dois destinos. O resultado do evangelismo diz respeito ao solo bom — aquelas pessoas cuja vida não apenas começa, mas cresce e multiplica.

Algumas pessoas abordam o evangelismo com o objetivo único de ver um não-crente orar a oração do pecador. Mas o objetivo do evangelismo é mais que a decisão pela salvação. O objetivo do evangelismo é] uma mudança de estilo de vida — uma pessoa seguindo a Cristo em obediência aos Seus ensinos e comandos. O objetivo final é um discípulo — um seguidor de Cristo comprometido e fiel.

Infelizmente, se uma pessoa chegar à decisão pela salvação sem compreender o custo de seguir a Cristo, ela pode até começar bem, mas não logra êxito em continuar O seguindo e servindo. Esta situação é ilustrada pelos três primeiros tipos de solo mencionados na Parábola do Semeador. As pessoas recebem a mensagem, mas os pássaros levam a semente embora, o sol a queima ou os espinhos a sufocam. Jesus explicou que os pássaros, o sol e os espinhos representavam empecilhos na vida espiritual das pessoas. Isto inclui perseguição ou desejo para os ricos. Estes evitam que a mensagem tenha um efeito de longo prazo. O Ciclo do Evangelismo e Discipulado:

Da mesma forma que apaixonadamente queremos ver as pessoas tomando uma decisão por Cristo, é possível empurrá-las para decisões prematuras ao invés de cooperarmos com o Espírito Santo para que Ele as conduza primeiro, a uma decisão e, então, ao discipulado.

Entender que o discipulado precisa ser o objetivo do evangelismo irá afetar como nós partilhamos a mensagem. Jesus ensinou que Seus seguidores devem entender o custo de ser Seus discípulos: “E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo. Pois qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir?” (Lc 14.27-28).

Uma pessoa não crente deve entender a significância da decisão de receber o perdão de Cristo e segui-lO. Os crentes devem ser cautelosos para não manipular emocionalmente as pessoas para decisões que não compreendem ou não estão prontas para tomar. Ao orar com uma pessoa para que receba Cristo, devemos assegurar que ela entende o que está fazendo. Isto requer sabedoria e mesmo comedimento.

Nós não somos responsáveis por convencer as pessoas a comprometerem suas vidas com Cristo. O evangelismo não é somente uma persuasão meramente humana; é um trabalho do Espírito Santo. Jesus prometeu que o Espírito Santo convenceria o mundo do “pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8). Somos responsáveis por compartilhar a mensagem com clareza. Mas é o Espírito Santo quem convence e persuade o coração do ouvinte. Ao entendermos que Deus toma a iniciativa e permanece ativo no processo de evangelismo, somos capacitados a sermos corajosos e dependentes do Seu trabalho persuasivo. Conseguimos também ser pacientes e a confiar em Seu tempo, ao invés de tentarmos empurrar as pessoas para uma decisão prematura. Isto permite que não sejamos nem hesitantes e nem precipitados em nosso testemunho.

Discipulado Pre-Evangelismo
O ciclo de evangelismo e discipulado está completo quando os discípulos tornam- se mensageiros que evangelizam e fazem mais discípulos.

A Igreja na América e em outros lugares no Ocidente podem aprender com a Igreja em outras partes do mundo nesse sentido. Nos últimos cinquenta anos, o crescimento em número de membros nas igrejas Assembleias de Deus em muitos países ultrapassou o do Ocidente. Isto é especialmente verdadeiro na América Latina, na África e partes da Ásia. Uma razão para este crescimento explosivo e exponencial é que em muitos países do Terceiro Mundo os crentes são ensinados e espera-se que evangelizem. Países em não dispõem de um número significativo de equipes de colaboradores remunerados, as congregações são muitos mais ativas em matéria de evangelismo.

Ser uma testemunha eficaz não necessariamente depende de quanto tempo a pessoa segue a Cristo ou quão madura esteja. Pesquisas extensas em milhares de igrejas mostram que muito do evangelismo pessoal em qualquer congregação é feito por aqueles que se tornaram cristãos há menos de um ano.

O evangelismo pessoal é uma parte essencial no seguir a Cristo. Precisa ser parte do estilo de vida de cada crente causar impacto sobre os não crentes a seu redor.

O Objetivo
O objetivo do evangelismo e do discipulado é claramente descrito na carta de Paulo aos colossenses: “agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis, se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho” (Cl Ciclo do Evangelismo e Discipulado:l 1.22-23). Paulo prossegue, descrevendo o objetivo de se proclamar o Evangelho: “o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Cl 1.28, ênfase nossa). Observe que o objetivo é para que cada discípulo seja apresentado diante do Senhor santo, inculpável e sem mácula — completo em Cristo — no fim da vida na terra.

À medida que conduzirem as igrejas locais ao evangelismo, os pastores muito frequentemente precisarão tomar decisões no que diz respeito ao quanto de tempo e de recursos serão investidos. Nós, assim como Paulo, precisamos nos comprometer em evangelizar “por todos os modos” (1Co 9.22, ênfase nossa). Porém, devemos priorizar aqueles meios que resultem no objetivo final estabelecido pela Palavra de Deus — discípulos que são “perfeito em Cristo” (Cl 1.28). Às vezes, isto significará optar por métodos que não produzam muitas decisões iniciais, mas que resultem em mais discípulos. 

O enfoque de Jesus está nas consequências eternas do pecado e do destino eterno de cada pessoa. O Evangelho chama cada ouvinte para decidir e responder à proclamação da Palavra de Deus. O foco do Evangelho está na salvação dos indivíduos que irão compor a noiva de Cristo. A missão da igreja é participar
da missão de Cristo de conduzir “muitos filhos à Glória” (Hb 2.10). 

O ciclo de evangelismo e discipulado é processo sem fim de alcançar e reter as pessoas que se tornam cidadãs do reino eterno de Cristo.

Autor: RANDY HURST

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