sábado, 13 de agosto de 2011

[Esboço para pregação] CÉU ABERTO PARA VOCÊ (2)

Mateus 3.13-17 
Leitura Complementar: 
Salmo 42 

Nosso texto nos fala de João Batista, o homem que preparou o caminho de Jesus. João não se acha no centro daquilo que acontece. No centro está Jesus. Mas antes de nos dirigirmos a este centro, queremos demorar-nos, por alguns instantes, junto àquele homem simples e rude, vestido de roupa grosseira, que parece mais ser um profeta do Antigo Testamento, transposto para o Novo. Ele é um pregador, um homem de fala rude, grosseira como sua própria roupa. Fala do Reino de Deus, que vem chegando; fala do juízo do qual ninguém vai escapar; chama os homens ao arrependimento. Diz que ninguém se fie em sua religião herdada, que ninguém se fie no fato de ser filho de Abraão. Diz que Deus é capaz de criar filhos a Abraão "destas pedras". Diz que o machado já foi colocado à raiz da árvore, pronto para abatê-la: "Arrependei-vos, porque está próximo o Reino de Deus." E quando observa que, entre a multidão que se ajunta em redor dele, às margens do Rio Jordão, onde ele batiza os que se arrependem, se encontram muitos fariseus e saduceus, ele lança ao rosto destes líderes religiosos: "Raça de cobras! Quem vos levou a fugir da ira vindoura?" 

Um homem incômodo, este João Batista. Ele não põe nenhum mel nos lábios de seus ouvintes. Não trata os abscessos purulentos da injustiça com pomadinhas bem cheirosas. Ele corta o abscesso, abre o furúnculo, fazendo o mal aparecer em toda a sua gravidade. Apesar disto, uma multidão o rodeia. Um movimento de arrependimento, um despertamento em grande escala se inicia. O povo confessa publicamente o seu pecado, pedindo para ser batizado por João. É como se a terra fosse sendo virada, revolvida e preparada para receber a semente do evangelho.

O próprio João ainda não conhece o evangelho. Ele batiza com água, pregando o arrependimento e o juízo. Sabe e diz que o Cristo, que há de vir, batizará com fogo e com Espírito Santo. Sabe e diz que o Cristo será maior que ele. Sabe e diz que ele, João Batista, nem é digno de levar as sandálias do Messias, pelo qual ele espera. João Batista tem, portanto, uma ideia bem definida de Cristo, tem uma imagem dele: a imagem do homem de Deus, com o machado à mão, pronto para derrubar a árvore da injustiça. Esta imagem, por certo, não era nenhuma fantasia. João Batista era profeta, e os profetas não costumam seguir nem fantasias, nem sonhos. Mas agora acontece uma coisa inesperada. Quando João se encontra com o próprio Cristo, ele vê que a imagem que dele tinha feito precisava ser corrigida.

Antes de tudo, João Batista se choca, sim, se escandaliza, por uma coisa: Jesus se aproxima dele misturado ao povo. Sem explicar coisa alguma, ele se coloca na fila dos pecadores, bem no meio desta "raça de cobras", entre os fariseus fingidos e os funcionários corruptos e pede para ser batizado junto com eles. João Batista compara este Jesus de Nazaré com a imagem que ele tinha do Cristo em sua ideia, e diz: não poder ser. Ele quer convencer Jesus de que não é conveniente o que ele deseja. Quer fazê-lo mudar de ideia: "Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?"

Vamos confessá-lo: bem no íntimo, entendemos muito bem este João Batista. Jesus realmente ia fazendo uma coisa chocante e inesperada. É que nós também temos uma imagem de Cristo, imagem que se choca com o Cristo verdadeiro, imagem que precisa ser corrigida por ele. Talvez tenhamos dele uma imagem de pastor de ovelhas, de olhar doce, que leva um cordeirinho nos braços. Talvez, para nós, seja o grande milagreiro, do qual esperamos ajuda em nossos problemas pessoais. E, quando nos encontramos com o Cristo verdadeiro, notamos que esta imagem não confere. Notamos que a relação pessoal com Cristo transforma a imagem que tínhamos dele. E a coisa mais chocante, outrora como hoje, é que Jesus realmente se coloca na fila dos pecadores, que ele não fica pairando no alto, anunciando o juízo justo sobre esta humanidade perversa, mas que ele sofre o juízo, junto com os pecadores que o rodeiam. Em verdade, Jesus, quando diz "Assim nos convém cumprir toda a justiça", já se acha voltado em direção à cruz, iniciando seu caminho de humildade, de obediência e de sacrifício.

Sim, João Batista teve que aprender uma lição muito dura. A sua imagem de Cristo sofreu uma mudança tremenda. Em realidade, esta imagem foi derrubada. Foi substituída pelo Cristo real. E neste ponto poderemos aprender uma coisa importante deste rude pregador. Ele não se agarra à imagem de Cristo que tivera antes. Ele se deixa corrigir. Faz o que Cristo lhe diz, mesmo que não o compreenda. Batiza com as águas turvas do Jordão aquele que iria batizar os homens com fogo e com Espírito Santo.

E agora nos voltemos de João Batista para o próprio Cristo. Voltemo-nos ao centro de nosso texto. Ou será que já estamos lá? O próprio João Batista não nos mostra o caminho? Ele não deixa que Jesus se misture com os pecadores? Ele não deixa Cristo tomar conta da situação? Em verdade, ele o faz. Façamos nós o mesmo e olhemos para aquele, ao qual o rude pregador do deserto nos acaba de preparar o caminho.

Depois de batizado, depois de "cumprida toda a justiça", "Jesus saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito Santo de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: liste é meu Filho amado, em que me comprazo".

Uma voz do céu? Para nós, pessoas do século vinte e um, é duro aceitar isto. Não só por ser difícil de imaginar, por contrariar a nossa experiência de cada dia. Mas, pensamos, mesmo que seja! Mesmo que sobre Jesus o céu esteja aberto, que ele tenha comunhão direta com o Pai, que ele realmente seja o Filho amado, que é que tem isso comigo? Comigo, que vivo num mundo diferente, um inundo, sobre o qual o céu parece fechado de vez, um inundo cheio de desarmonia e de desgraça? Pensamos nas injustiças e nas maldades que se nos apresentam em cada noticiário de televisão ou de rádio; pensamos em iodas estas coisas angustiantes que pairam sobre nós como nuvens escuras, fechando o céu, escondendo Deus! Pensamos nos acidentes de tráfego, na miséria dos pobres, nos matrimónios destruídos, na juventude revoltada, no grande circo que estão fazendo para tirar o dinheiro do bolso das pessoas! Será que esta mensagem do céu aberto ainda tem cabimento? Para nós, pelo contrário, o céu parece trancado a chave, apesar dos voos espaciais que os homens realizam. O primeiro astronauta, o russo Gagarin, não teria tido razão, quando afirmou que lá, nas alturas, não viu nada de Deus? A ciência, a técnica com todas a suas invenções, não foi tapando mais e mais aquele céu para nós, no qual acreditamos na infância, de tal forma que hoje nem sabemos mais se ele existe?

Mas o que acabamos de descrever é o que pensa o descrente. Você dirá, com razão, que precisamos olhar para a igreja, quando nos pomos à procura do céu. Não é ela que nos deve apontar a abertura do céu? Sim, ela deve. E esta a sua tarefa. Sua única tarefa. Mas, ela não é dona desta abertura. A igreja não abre o céu para ninguém. Até poderá acontecer que a própria igreja entre em crise, que ela se envolva em todos os problemas da terra e que se esqueça totalmente de apontar para o céu aberto. E então surgem os fariseus, os acusadores, que, no dizer de Jesus, "fecham o céu para os homens". E não acontece que o nosso próprio rosto tantas e tantas vezes reflete um céu fechado, assim como um lago reflete as nuvens escuras, num dia chuvoso?

Agora ouçamos com atenção: a tarefa da igreja não é dizer que sobre ela o céu está aberto. Nem dizer que ela é capaz de abrir o céu. A tarefa da igreja é pregar a mensagem (incrível, se o Espírito Santo não a comprovar) de que o céu está aberto sobre Jesus. Sobre aquele Jesus que entrou na fila dos pecadores, que se deixou batizar com eles, que sofreu por eles, que os amou até a morte, que ressurgiu e subiu ao céu, mantendo o caminho aberto para os pecadores, dos quais se tornou irmão. Compreenda este segredo maravilhoso: se o céu está aberto sobre Jesus, e se Jesus se põe ao lado do pecador, então o céu também está aberto sobre o pecador que se põe ao lado de Jesus. Então o céu pode estar aberto, aqui e agora mesmo, sobre você e sobre mim. Basta reconhecê-lo, na fila, e aceitá-lo como Salvador. Então este nosso mundo, cheio de realidades contraditórias, cheio de maldade e perversidade, mudou de natureza. Então há esperança para o mundo. Então não permanecerá uma realidade fechada, obscura, ameaçadora. Então o evangelho foi realmente implantado neste mundo: quando uma pessoa chega a crer, quando ela se põe a seguir Jesus, no caminho da obediência, aí Deus lhe diz, assim como disse a Jesus: "Este é meu filho amado". E o céu deixará de ser fechado para ele.

Será que poderemos guardar segredo desta notícia gloriosa? Se nós realmente chegarmos a conhecer o lugar onde o céu está aberto, então vamos passar a notícia adiante. Vamos orar "Pai nosso que estás no céu", não apenas: "Meu Pai que estás no céu". Porque Jesus também não disse apenas "Meu Pai". Ele disse "nosso Pai". Em todos os sentidos, ele incluiu a você e a mim no seu povo, povo que salvou da perdição.

E se você perguntar: Onde acontece isso? Onde posso ler essa experiência maravilhosa? Eu lhe responderei: Muito perto de você. Não é que precise ir às margens do rio Jordão para ver o céu aberto. Na oração, na leitura da palavra de Deus, na comunhão do culto dominical, no Batismo e na Ceia do Senhor, na prática do amor de Cristo. Deus continua abrindo o céu sobre Cristo, o seu Filho, no qual pôs a sua complacência, para toda a eternidade.

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Autor: Lindolfo Weigärtner

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